Brasileiros fazem heavy metal com tupi antigo e cangaço – 19/07/2026 – Ilustrada
Na música “Pe Rembi’urama”, uma bateria acelerada de heavy metal dá lugar a um pandeiro conforme sons de pássaros criam a ambiência para que a carioca Lua Viana despeje vocais gritados no estilo gutural. “Aju-ne ixé, pe rembi’urama”, ela canta na tira de “No Ritmo da Terreno”, álbum de seu projeto Antropoceno.
A frase de fenda foi escrita em tupi velho e quer proferir “cá estou eu, vossa futura comida”. O verso, segundo a cantora, remete a uma frase que teria sido dita pelo soldado teuto Hans Staden quando foi prisioneiro pelos tupinambás, que praticavam canibalismo, no século 16.
Inspirado por Ailton Krenak, o disco da Antropoceno é um dos dois álbuns brasileiros ranqueados entre os 20 melhores deste ano, considerando lançamentos de todo o mundo, no site Rate Your Music —espécie de Letterboxd da música, em que usuários dão nota aos discos.
O outro álbum brasílico listado é “Caminhos de Chuva”, do Kaatayra, projeto do brasiliense Caio Lemos, em quinto lugar —logo detrás do disco “Wor$t Girl in America”, da cantora americana Slayyyter. Ele caiu no sabor dos gringos assim uma vez que a orquestra paraibana Papangu, elogiada pelo jornal britânico The Guardian e com 16 shows marcados em dez países da Europa em agosto.
Em generalidade, esses artistas transitam entre o rock pesado e vertentes do heavy metal com influências da cultura, da música, da flora e da fauna brasileira. Eles fazem referências a cachoeiras e pássaros, ao cangaço, aos ritmos e religiões afro-brasileiros e à filosofia e idiomas dos povos originários do Brasil.
Autodidata, Lua Viana começou a tocar sob influências de indie, shoegaze, black metal e thrash metal, além do samba que ouvia com a família. Em seu primeiro projeto de rock, Sonhos Tomam Conta, achou que estava seguindo um caminho individualizante —”muito sobre mim, uma vez que me sinto”.
Passou a querer não só reproduzir o espírito de seu tempo, mas interagir com ele. “Quis me colocar uma vez que sujeito capaz de dialogar e criticar o que está posto pela sensação de termo do mundo, pelo pós-pandemia e pelas mudanças climáticas.”
O contato com livros de Krenak, diz, foi um choque. “É uma perspectiva interessante para nós, que não somos indígenas. Passamos a ver uma vez que construção social o que tomávamos uma vez que verdade absoluta.”
Lua quis fazer música para questionar uma perspectiva de mundo, de progresso, de desenvolvimento e de aceleração tecnológica. Se inspirou em uma vez que povos indígenas resistem ao colonialismo mantendo suas tradições —alguma coisa que identificou também no candomblé, do qual é adepta.
Ela juntou logo o concepção filosófico com a música do Metá Metá e do Kaatayra, além da antropofagia do manguebeat e da tropicália. Tocou na guitarra melodias do candomblé, evocou os rios com sons de sintetizadores e usou gravações de pássaros —para a cantora, “seres dotados de subjetividade que são capazes de produzir música”.
Seu disco, “No Ritmo da Terreno”, lançado pelo selo americano Longinus Recordings, reflete nas guitarras sujas e nos sons guturais o caos urbano em contraponto aos orixás e às paisagens da natureza.
Ela gravou quase todos os instrumentos sozinha, em lar, o que torna difícil tocar as músicas da Antropoceno ao vivo. Seu próximo passo, diz, é montar uma orquestra para fazer shows no Brasil e conseguir atender aos convites vindos do exterior.
Caio Lemos, a mente por trás do Kaatayra, passa por problema parecido. Ele diz que já recebeu diversas propostas para fazer shows fora do país, mas reproduzir seu disco “Caminhos de Chuva” no palco é quase impossível. “Precisaria de uns oito ou dez músicos”, afirma, incluindo gente para tocar marimba, flautas e diversos instrumentos de corda.
O álbum tem sonoridade acústica, um dos diferenciais do Kaatayra. Ele faz black metal, estilo associado às guitarras distorcidas, só que com violões.
“Palato de fazer riffs de metal no violão, logo tive a teoria de fazer a palhetada do violão junto com [a bateria no estilo] ‘blast beat’, típico do black metal, combinando esses dois elementos.”
Outro ponto de singularidade é a influência do Brasil, que surge em ritmos afro-brasileiros —eles não são protagonistas, mas permeiam seu novo álbum. “Somos brasileiros, não tem uma vez que fugir”, diz. “Em sarau e confraternização é sempre samba, axé. Está na gente. Acaba sendo proveniente reproduzir isso misturando com black metal, que é europeu.”
O nome do projeto vem do tupi velho, significando alguma coisa uma vez que rebento do mato. “Nem sei se está correto. Palato da termo caatinga, fui detrás para saber e deu nisso”, diz. Seu interesse pelas palavras é tanto que o levou a inventar um dialeto no disco “Inpariquipê”, de 2021.
Mas a grande influência brasileira de Lemos está na natureza. O Kaatayra, diz, surgiu a partir de suas experiências no mato e do uso de substâncias enteógenas. “A gente vive um cotidiano urbano e fica desconectado disso. Para mim, é uma vez que um católico indo à missa. Busco tranquilidade místico na natureza —alguma coisa muito tilelê, muito hippie.”
Os rios de Goiás, em pessoal, inspiraram “Caminhos de Chuva”, feito depois uma viagem à Chapada dos Veadeiros. Ele escreveu as letras instintivamente, impactado pelas águas, e passou quase quatro anos lapidando a sonoridade do disco.
A paisagem e a cultura brasileira também motivam o que os integrantes do Papangu chamam de “rock troncho” ou “hermetocore”. Os pessoenses aclamados pelo Guardian escolheram essas palavras —a segunda remete a Hermeto Pascoal— para definir um rock que trafega pelo progressivo e pelo heavy metal sob ótica nordestina.
Primeiro disco da orquestra, “Holoceno”, de 2021, retrata um cangaceiro em um apocalipse ambiental. O segundo, “Lampião Rei”, de 2024, trata do cangaço numa espécie de realismo mágico.
“A cultura nordestina é permeada por influências das religiões de matriz africana, afro-indígenas e indígenas, mormente tudo que envolve o mestiço. Essa figura permeia as composições da orquestra”, diz o vocalista e tecladista Rodolfo Salgueiro.
Além das letras e visuais, o Papangu mimetiza no rock os ritmos do Nordeste. Dito assim parece a mistura de hardcore com forró do Raimundos nos anos 1990, mas o resultado é muito dissemelhante.
“Eles faziam isso um pouco ironicamente”, diz Salgueiro. “A figura do nordestino era ingênua, autodepreciativa. Esse personagem nas músicas do Raimundos era um jovem que se acha mal-parecido, que não vai conseguir a moçoila, que tem um sotaque exagerado.”
O Papangu, diz Salgueiro, bebe mais da psicodelia nordestina de Ave Sangria, no “Paêbirú”, e dos primeiros álbuns de Alceu Valença, além de baião, joeira e maracatu, entre outros. Salgueiro tocava em bandas de forró antes do Papangu e o multi-instrumentista Pedro Francisco é pesquisador de música brasileira.
“Algumas bandas sentem que precisam incluir triângulo, sanfona ou falar de Lampião porque são do Nordeste. Às vezes fica forçado”, diz. “Para nós foi proveniente porque a gente ouvia isso tudo —de Dominguinhos a Lula Côrtes.”
O Papangu desenvolveu sua sonoridade tocando ao vivo, diz o baixista Marco Mayer. “Tornou-se um negócio fora da caixa porque interpretamos essa música pesada sob a ótica da música nordestina —a simetria com acordes em sétima, a sincope e coisas que você vê no forró, no maracatu, mas não no metal.”
A orquestra ficou famosa pelas apresentações inusuais, tanto no Brasil quanto no exterior —os Estados Unidos são o segundo país que mais ouve os paraibanos no Spotify. O grupo leva o frescor dos palcos ao novo álbum, “Celestial”, gravado de maneira analógica em Berlim depois uma turnê pela Europa, previsto para 7 de agosto.
O Papangu, diz Salgueiro, conseguiu unir públicos tão distintos quanto a própria estética da orquestra. “É onde os metaleiros estão vendo improviso de flauta uma vez que se fosse o Hermeto Pascoal ao mesmo tempo que os jazzistas estão ouvindo pedal duplo, gutural e o ‘blast beat’. Ambos estão falando ‘é disso que eu sabor’.”





