Celebremos os 90 anos de Ignácio de Loyola Brandão – 30/07/2026 – Djamila Ribeiro
Ao encontrá-lo, só sei aproveitar sua presença, rir de sua ironia e me deleitar com suas histórias. Mas, uma vez que sua companhia é boa demais, sempre fico com a sentimento de que convertido com meu companheiro menos do que gostaria. De longe, fico em sossego sabendo que está muito, contornado de afeto e envolvido em sua mágica estirão. Mas é seu natalício, e temos uma oportunidade de ouro para lhe manifestar coisas boas e desejar-lhe tudo de melhor.
Daqueles dias em que via pela lajeada as festas no Clube Araraquarense —onde, por ser pobre, não podia entrar—, até os dias de hoje —em que é patrono da Sarau Literária da Morada do Sol e cidadão ilustre da cidade—, o nosso grande repórter Ignácio de Loyola Brandão, imortal em título e em nossas memórias, completa nesta sexta-feira seus 90 anos.
Quando leste jornal chegar às ruas e casas da cidade, faço votos para que o encontre com um amplexo nesta pilastra, enquanto provavelmente proseia com Márcia Gullo, sua companheira de vida. Junto a seus filhos e filha, a essa profundeza já deve ter falado algumas coisas sobre seu documentário em edital nos cinemas.
“Não Sei Viver Sem as Palavras”, dirigido por seu rebento André Brandão, realiza um macróbio libido do pai, crítico de cinema desde 1952 na Folha Ferroviária: ver sua trajetória transformada numa obra à sua profundeza e ainda percorrer tapetes vermelhos nas disputadas sessões de pré-estreia Brasil afora.
Em um movimento rodear, o velho consagrado reencontra aquele menino curioso das sessões do Cine Paratodos, na rua São Bento, em Araraquara.
Já o telefone de vivenda não para. Sabe-se lá quantas ligações está recebendo desde manhã, talvez tantas que deve estar sendo um duelo atendê-las. Primos, sobrinhas, amigos de longa data do Escola Progresso, do Bento de Abreu, das décadas de jornalismo.
Editores de seus dezenas de livros também prestam homenagens, assim uma vez que gerações de leitores que essas obras seguem acompanhando. Produtoras culturais, colegas escritores e escritoras, a lista é enorme.
Em seu coração, pode ser que tenha tido conversas com quem já partiu e deixou saudades. Seu pai, Antônio Maria, o Totó, trabalhador ferroviário, que lhe entregou, em 1957, seus 3 milénio cruzeiros para que começasse a vida e um parecer sábio para que usasse as palavras com desvelo e honestidade; sua mãe, Maria do Rosário, que não terminou a escola para cuidar dos irmãos, e que, por isso, incentivou o rebento a estudar e ler bastante.
Onde quer que estejam, foram honrados pelo rebento. Quem sabe, nosso companheiro até conversou um pouco com seu companheiro Zé Celso, que, uma vez que ele, veio ao mundo para deixar a sua marca.
Que nosso companheiro Ignácio, cuja escrita foi muitas vezes a voz que nos foi tirada por sistemas de terror, hoje encontre o frescor de seus netos Pedro, Lucas, Felipe, Stella, Luísa e Antônia, todos eles razões pelas quais viverá muitos outros anos, se assim as divindades, o sorte, ou o que queiram invocar, permitirem.
Certa vez, nesta Folha, escrevi sobre meu companheiro e uma vez que ele me lembra Exu. Ambos já estiveram em tantos lugares ao mesmo tempo e em companhia de figuras incontornáveis da nossa história, uma vez que também exercem um domínio sobre a vocábulo. Trago cantigas ancestrais, entoadas antes mesmo de ele nascer, para que o orixá da notícia, do movimento e da vida abençoe nosso companheiro com caminhos abertos, boas gargalhadas e aventuras.
Queria tê-lo adoptado na Flip, onde Bernadete Passos, curadora da Flisol, conjecturava uma participação de láurea na Vivenda Portugal. Todavia, talvez a Serra da Cunha, talvez aquelas pedras infernais do núcleo histórico —colonial até demais— recomendassem prudência. Ou talvez porque a sabedoria popular saiba que parabéns é só quando chega o dia.
Portanto, é chegada a hora. Nosso companheiro terá uma grande sarau. Na Liceu do Largo do Arouche, as cerimônias começaram ainda nesta semana, com Leandro Karnal abrindo alas para as homenagens em sua pilastra no Estadão, e vamos seguir com palmas e festas até ele cansar da gente.
Temos, com ele, um compromisso marcado nas salas de cinema e, no nosso grupo de WhatsApp, contaremos boas histórias. Quem sabe nos encontramos no almoço do mês e encomendaremos o bolo.
Que nosso companheiro continue escrevendo, conversando, rindo, viajando, inquietando-se e encantando. E que nós, seus leitores, amigos e admiradores, tenhamos o privilégio de seguir essa estirão pelos anos que virão. Por fim, há escritores que criam mundos. Outros ajudam a preservar a memória do mundo. E há aqueles, uma vez que Ignácio, que fazem as duas coisas ao mesmo tempo. Que Exu o abençoe, querido companheiro. Celebremos seu natalício!
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