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'Cock' no Teatro Vivo debate identidade e desejo 04/06/2026
Celebridades Cultura

‘Cock’ no Teatro Vivo debate identidade e desejo – 04/06/2026 – Mise-en-scène

Ao preterir ativamente a mobília e a mímica que o binarismo cotidiano exige, a montagem de “Cock”, de Mike Bartelett, transforma o palco em uma estádio projetada por Chris Aizner. O design geométrico funciona uma vez que um fosso discursivo, levando o elenco para os cantos e aproximando o público de forma quase clínica.

Sob a luz de Wagner Freire — suspensa uma vez que em um ringue de boxe — a decisão estética reflete a resistência da figura medial à classificação uma vez que homossexual, heterossexual ou bissexual, fazendo com que o verdadeiro contraditor da peça seja o impulso classificatório da quadra.

O conflito envolve John, interpretado por Daniel Tavares, que está envolvido com M., papel de Marco Antônio Pâmio, há sete anos. Em seguida uma breve separação, John se apaixona por uma mulher, W. (Bruna Thedy). O encontro fragmenta suas conexões e instaura uma guerra por espaço emocional. A mecânica dramática se organiza em três longos blocos, interrompidos pelo som de Daniel Maia e pelas intervenções vocais de Ligiana Costa.

A trilha sonora soa uma vez que um gongo que marca a desenlace de cada ataque verbal, conferindo pausas métricas à sufocação do texto e transferindo ao elenco a responsabilidade de sustentar uma peça de subida voltagem. Daniel Tavares constrói um John vacilante, cuja linguagem corporal traduz libido sem depender exclusivamente da volatilidade para transmiti-lo.

Marco Antônio Pâmio, por sua vez, projeta em M. uma segurança de identidade que se expressa por meio de provocações e farpas; ele procura limitar se o outro pode ou não ser fluido. Bruna Thedy confere ao personagem W. uma dinâmica mais ensejo e ensolarada, o que a distancia da reatividade passiva e dá peso às suas reivindicações. No terceiro conjunto, Hugo Coelho entra uma vez que o pai de M. e coloca o desaforo do patriarcado no meio do jantar.

A direção de Baskerville destila precisão técnica das atuações, mas “Cock” é tanto sobre fricções ideológicas quanto sobre o confronto do meio da peça com as realidades do presente. Produzida nas margens da última dez, a peça adota uma postura de espanto diante da indefinição sexual com uma nota de assombro.

Para o público moderno, a dor de John diante da autodefinição imposta ameaço toar uma vez que o repercussão de um tempo anterior ao uso normativo da fluidez de gênero. Há também um isolamento de classe e raça na narrativa. Ao negligenciar as fragilidades materiais de pessoas LGBTQIA+ marginalizadas, esse confronto pode parecer especulação egocêntrica que, por vezes, se torna presa da repetição.

Quando se observa o teor a partir de uma abordagem orientada para o quidam, ele se apresenta de forma mais distinta em conferência com outras adaptações da obra deste responsável, uma vez que “Contrações”. Se “Cock” confina sua violência a camarins emocionais, “Contrações” leva o minimalismo de Bartlett ao reino da vexame corporativa, demonstrando uma vez que a repetição fria do capitalismo e seus eufemismos moldam — e mutilam — a subjetividade.

No Teatro Vivo, o ringue foi montado, e cabe ao público resolver se está testemunhando um debate sobre o porvir do afeto ou o registro de uma crise do século pretérito.

Três perguntas para…

… Daniel Tavares

John é um personagem que vive um impasse afetivo e sexual entre dois parceiros, M. e W. Uma vez que você encontrou o tom dessa indecisão sem que ela soasse uma vez que mera medo ou manipulação?

Para mim, era importante gerar um personagem que conseguisse deixar simples para o público que seus sentimentos — tanto pelo parceiro vetusto quanto pela novidade namorada — são verdadeiros. Ele nutriz seu companheiro (mesmo mergulhado em uma relação ruim) e também está completamente enamorado pela mulher que acabou de saber.

Quanto mais o público acredita nisso, mais potente fica o peso da incerteza, o que acho muito mais interessante. Desde o primeiro momento, eu não queria que as pessoas vissem o John uma vez que um personagem totalmente covarde ou manipulador, embora, em muitos momentos, devido à situação complicada em que se colocou, essas características acabem aparecendo.

A direção de Baskerville costuma ser precisa e cirúrgica. Em que momentos ela te deu liberdade para explorar, e em que momentos houve um trabalho mais pormenorizado de contenção?

Essa é a segunda vez que trabalho com o Basker (a primeira foi em “Eigengrau, no Escuro”, peça pela qual ele foi indicado ao Prêmio Shell de direção) e, uma vez que na primeira experiência, sinto-me em morada com ele. É um diretor que exige essa precisão — e, neste caso, a dramaturgia britânica contemporânea também pede isso —, mas que conduz o processo criativo de forma amorosa e com muita munificência.

Assim, fica mais fácil passear pelos caminhos que ele propõe e chegar ao que ele está imaginando. Ele dá muita liberdade para levarmos propostas, experimentarmos e errarmos muitas vezes. Ele quer que sejamos criadores! Outrossim, o vestuário de a peça não ter cenário nem objetos é um magnífico manobra… Não há muletas, não há zero que nos esconda. É preciso estar muito presente o tempo todo; o jogo entre os atores tem que ser muito vivo.

Para você, o que está realmente em jogo na peça: a autodefinição sexual de John, ou um pouco mais grande sobre o recta à incerteza e à fluidez em todas as esferas da vida?

Pois é. À primeira vista, a trama medial da peça parece ser sobre a autodefinição sexual de John e com quem ele vai permanecer nesse triângulo amoroso. No entanto, penso nesse personagem a partir desses elementos que você colocou: uma vez que alguém que tem o recta à incerteza (a muitas dúvidas, aliás) e uma vez que alguém que começa a enxergar a possibilidade de fluidez em todas as esferas da vida.

A situação em que ele se encontra abre uma caixa imensa de perguntas internas: “Será que meu libido tem limite?”, “Será que preciso definir quem eu sou?”, “Será que preciso permanecer prisioneiro nas certezas que eu tinha?” e por aí vai… Ele está questionando tudo o que está ao seu volta, o que não é zero fácil.

Teatro Vivo – av. Dr. Chucri Zaidan, 2.460 – Vila Cordeiro, região medial. Quarta e quinta, 20h. Até 11/6. Duração: 90 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. A partir de R$ 50 (meia-entrada) em sympla.com.br

Folha

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