Em meados de 1985, a implantação do Projeto Folha fazia do jornal um envolvente de ebulição. Com Otavio Frias Rebento adiante da Redação, a Folha adotava novos procedimentos, que buscavam tornar o jornal mais objetivo, sucinto e plural, entre outras metas.
Durante uma reunião, Carlos Eduardo Lins da Silva, logo secretário de Redação, lançou uma provocação ao sociólogo Antonio Manuel Teixeira Mendes, o primeiro diretor do Datafolha, instituto de pesquisas que havia sido criado dois anos antes. Porquê os norte-americanos fazem com basquete, beisebol e outros esportes, a gente não consegue extrair as estatísticas do futebol?, questionou o jornalista.
Teixeira Mendes aceitou o repto. Determinou que uma equipe do Datafolha –pelo menos cinco pessoas nesse momento inicial, ele lembra– começaria a ser treinada para contabilizar os fundamentos não exclusivamente de cada time durante uma partida, mas de cada jogador. Os pesquisadores registrariam o número de chutes e cabeceios a gol, passes, cruzamentos, dribles, faltas e outros tantos quesitos.
Depois de alguns testes, chegou a hora de levar as estatísticas para as páginas do jornal. A estreia aconteceu nos dois jogos da final do Campeonato Paulista de 1985, o duelo entre São Paulo e Portuguesa, marcados para os dias 15 e 22 de dezembro.
Na edição de 16 de dezembro, os números surgiram em um quadro humilde na última página do caderno de Esporte (veja inferior). Entre os dados, cabeçadas a gol e desarmes, divididos exclusivamente por time.
Na edição de 23 de dezembro, que ressaltava o título conquistado pelo São Paulo, os dados apareceram com mais destaque e detalhamento. Dois quadros amplos exibiam os desempenhos dos times e dos seus jogadores. Os leitores souberam, por exemplo, que o ponta-esquerda Sidney havia sido o maior driblador da equipe campeã, com oito fintas ao longo da partida.
Naquele momento, a Folha se tornava pioneira na prelo brasileira ao levar as análises estatísticas para o jornalismo devotado ao futebol. Até logo, o levantamento de dados, feito com rigor metodológico, não entrava em campo para explicar o desempenho de um time ou de um jogador.
“Foi revolucionário porque ninguém fazia isso no Brasil”, afirma Teixeira Mendes. “O jornal mostrava que era verosímil ter mais objetividade nessa dimensão.”
Logo vieram as reações negativas de jornalistas de outros veículos e também de integrantes da Redação da Barão de Limeira. “Achavam que o futebol estava ligado exclusivamente à paixão e à opinião, não era um pouco que pudesse ser quantificado”, recorda-se Lins da Silva. Ele conta que superou as resistências internas ao lado de nomes uma vez que o logo secretário-assistente de Redação, Luiz Caversan; o editor de Esportes, Marcelo Fagá, que morreu em 2003; e o jornalista Flávio Gomes.
Seis meses depois dessa final do Paulista, começou a Despensa do Mundo do México. A edição de 2 junho de 1986, com a cobertura do primeiro jogo da seleção, demonstrava que o jornal havia, de vestimenta, mudado sua maneira de escoltar o esporte.
O espírito independente e provocativo, preconizado pelo Projeto Folha, já estava simples na manchete: “Brasil vence Espanha com auxílio do juiz”. Enviados a Guadalajara, os repórteres Carlos Brickmann e Ricardo Kotscho escreveram que a seleção do técnico Telê Santana havia acordado “depois que os espanhóis colocaram uma globo no gol do Brasil –que o juiz Christopher Bambridge não deu”.
“O jornal recebeu uma inundação de cartas de reclamação”, lembra Lins da Silva sobre as manifestações de leitores que apontavam falta de patriotismo da Folha.
Naquela edição, havia ainda uma variedade de abordagens estatísticas sobre as duas seleções. Um quadro destrinchava o aproveitamento de cada desportista em 14 itens e, em um diagrama, setas exibiam os movimentos mais frequentes de ataque das equipes.
A Folha também publicava o Ranking da Despensa 86 – Primeira Período, que mostrava as possibilidades de cada seleção passar para a período seguinte de contrato com o índice de produtividade da equipe nas partidas anteriores.
O que vinha a ser esse índice? Outra das novidades apresentadas pelo jornal naquele ano, era um indicador obtido por meio de uma fórmula. Somavam-se os ataques de um time, os erros do seu opositor e as faltas recebidas. Esse totalidade era dividido pela soma de erros desse time e as faltas cometidas por ele.
O método havia sido desenvolvido no início dos anos 1980 por Luis Eduardo Salvucci Rodrigues, logo estudante de psicologia da USP de Ribeirão Preto, em parceria com seu professor Marco Antonio Figueiredo de Castro. A experiência de Rodrigues uma vez que estagiário de psicologia do Botafogo do interno paulista tinha contribuído para que chegassem ao protótipo final.
“Inicialmente, pensamos nas categorias que poderíamos indagar durante os jogos para ter um gráfico de desempenho da equipe. A partir daí, foram meses de estudo”, conta Rodrigues quatro décadas depois. Detalhado em cláusula publicado nos Arquivos Brasileiros de Psicologia Aplicada em 1982, o método foi apresentado ao jornal quatro anos depois e revalidado pelo instituto de pesquisa.
Obter essas informações para conceber o índice exigia rapidez e precisão de uma equipe de dez pesquisadores do Datafolha em ação durante os 90 minutos –tinham sido treinados por Rodrigues. Em seguida, esses dados ganhavam forma de texto e gráfico pelas mãos de jornalistas das editorias de Esporte e de Arte. Foi assim em todos os 52 jogos daquele Mundial.
A utilização bem-sucedida de estatísticas pelo jornal nessa Despensa foi insuficiente para que o recurso se tornasse amplamente aceito por jornalistas.
Naquela quadra, todos os jogos de um Mundial eram televisionados, o que não acontecia com as partidas dos campeonatos Brasiliano e Paulista. Nas disputas sem transmissão, os pesquisadores do Datafolha precisavam ir aos estádios para registrar os dados, o que nem sempre era uma atividade trivial.
Na viradela dos anos 1980 para a dezena de 1990, ficou evidente a insatisfação da Aceesp (Associação dos Cronistas Esportivos do Estado de São Paulo), responsável por fornecer as credenciais que permitem entrada da prelo às áreas específicas de um estádio. “Uma segmento dos jornalistas da Aceesp fez lobby para que não tivéssemos as credenciais. Logo, a gente comprava os ingressos e ia trabalhar no meio da torcida”, lembra Fábio Tura, que foi coordenador de esportes do Datafolha de 1991 a 2015.
O veto teve vida curta. Com o passar dos anos, a estudo estatística passou a ser reconhecida por emissoras de TV e rádio e mesmo por outros jornais. O Datafolha chegou a ser contratado pela Federação Paulista de Futebol (FPF) e por times uma vez que Palmeiras e São Paulo para fornecer informações detalhadas sobre jogos e atletas –mais tarde, entidades e grandes clubes criaram seus próprios núcleos de dados.
Esse trabalho do Datafolha resultou na formação de um largo banco de dados, fundamental, por exemplo, no trabalho de pesquisas para livros uma vez que “A História do Campeonato Paulista” (1997), dos jornalistas Valmir Storti e André Fontenelle.
FolhaStats
Para esta Despensa do Mundo, o jornal lançou o FolhaStats, que reúne dados sobre jogadores e seleções, leituras táticas e outros temas.
O serviço contará com um grupo de WhatsApp ingénuo (para participar, clique cá e inscreva-se), em que leitores receberão cards estatísticos e textos de colunistas sobre o torneio. Até o dia 11 de junho, quando a Despensa começa, FolhaStats vai se concentrar na preparação das equipes e nas características dos atletas chamados.
Com o início do Mundial, passará a trazer também estatísticas completas de cada um dos 104 jogos, antes e depois das partidas. O assinante terá entrada a serviços criados mormente pelo DeltaFolha, editoria do jornal especializada em estudo de dados.





