Como ‘7 Mulheres’ ironiza mistérios por trás do feminino – 02/08/2026 – Ilustrada
Não é de hoje que mulheres dominam mistérios. Nos anos 1920, depois de Edgar Allan Poe e Arthur Conan Doyle definirem o gênero, Agatha Christie mudou a literatura uma vez que a “rainha do delito”. Suas investigações tomaram o mundo doméstico e aprofundaram figuras femininas, fossem elas detetives brilhantes, fossem criminosas frias e calculistas.
Hoje, a dualidade define sucessos uma vez que “A Empregada”, best-seller de Freida McFadden que dominou as bilheterias com uma adaptação estrelada por Sydney Sweeney, e “Verity”, hit de Colleen Hoover que chega às telonas em outubro. Já no teatro, o músico “7 Mulheres e um Mistério”, em papeleta no 033 Rooftop, em São Paulo, reforça a irreverência das mulheres cercadas de mortes.
Baseada em “8 Mulheres”, peça do galicismo Robert Thomas que virou um clássico da comédia policial, a produção leva o caos a uma mansão depois o homicídio do patriarca. O delito coincide com o retorno da filha mais velha, a vinda de uma desconhecida e dramas de um grupo que procura respostas, amores correspondidos, independência financeira e, no caso da avó ranzinza, se embriagar com um bom uísque.
São intrigas que, desde o original, não exigem a presença de homens —cá, as atrizes interagem só com a porta do quarto que esconde o corpo— e ironizam caricaturas de gênero e de classes sociais. A estratégia rendeu prêmios a François Ozon em 2002, quando o diretor levou a trama aos cinemas e reuniu músicas famosas e um elenco liderado por Catherine Deneuve e Isabelle Huppert.
Agora, diz a equipe da novidade versão, as canções originais de Anna Toledo enriquecem a turma de suspeitas em meio à comédia de costumes. “Meu maior objetivo foi ir além de arquétipos, da interesseira, da maluca, e tornar tudo mais tridimensional”, afirma a dramaturga, que recentemente estudou a maturidade feminina em “Cenas da Menopausa” e explorou a intimidade de Tarsila do Amaral num espetáculo sobre a pintora.
Não significa que o humor esteja em segundo projecto. Pelo contrário. Há situações escrachadas envolvendo uma cunhada linhagem —vivida por Paula Capovilla—, que inveja a vida sexual da mana, e uma combate jacente entre a mais velha das sete mulheres —papel de Stella Miranda, a dona Álvara da sitcom “Toma Lá, Dá Cá”— e a empregada estrangeira —papel de Bruna Guerin.
Num cenário claramente sintético que extremidade o sem razão, as brincadeiras satirizam o feminino idealizado e não poupam ninguém, independentemente da idade, da origem ou do gosto sexual.
“Não é uma peça panfletária sobre mulheres fortes”, diz Guerin, que encarna a criada com sotaque galicismo onusto. “Atuamos numa risca tênue entre o estereótipo e a zombaria, para folgar com tudo sem pânico de ofender. Todas essas características vêm de quem nós somos.”
Em oferecido momento, ao trovar os eventos que a puseram numa posição subalterna, a personagem sugere que sua habilidade na leito supera seus supostos dotes culinários. Mais cedo, pouco antes da filha mais velha revelar que largou os estudos para ser contorcionista, seus espirros lembram gemidos intensos.
“É difícil derrubar estereótipos uma vez que o da dona de lar”, afirma Malu Rodrigues, tradutor da jovem pródiga. “Estamos reunindo diferentes ideias do que é ser mulher e mostrando que nenhuma delas é perfeita.”
Se cenas do tipo abordam a objetificação feminina, outras abordam hierarquias raciais. Isso porque a figura desconhecida, papel de Letícia Soares, é uma mulher negra há muito expulsa da família. Trazendo um leque com as cores da bandeira LGBTQIA+, ela diz lucrar a vida com jogos de contratempo e seduz a criada francesa.
A atração entre as duas interrompe cenas com carícias exageradas. Noutros momentos, uma vez que a ceia de Natal anunciada logo no início, fofocas jogam o morto para escanteio e as mulheres se divertem na companhia umas das outras.
São cenas que rejeitam o moralismo e permitem que elas compartilhem altos e baixos. “Adoro o feminismo. Mas essa não é uma peça feminista”, diz Stella Miranda, na pele da avó boca suja e preconceituosa. “São mulheres horríveis, humanas, que carregam um feminismo mais multíplice.”
A teoria de juntar o quadrilha inquietante partiu de dois homens, os diretores artísticos Heitor Garcia e Ricardo Grasson. A dupla explica que buscou montar a equipe com o maior número verosímil de mulheres. Entre as cabeças criativas, adiante, por exemplo, das danças e dos figurinos, estão somente três homens —eles e o diretor músico Thiago Gimenes.
No universal, as mulheres somam quase 70% da produção. “O encontro dessas ‘mulheridades’ me permitiu subverter o imaginário da ‘travestilidade'”, afirma Verónica Valenttino, no papel da viúva de gênio possante. Em 2023, quando viveu a ativista queer Brenda Lee, tornou-se a primeira atriz travesti a vencer o prêmio Shell.
“Geralmente os papéis que nos são ofertados nos obrigam a colocar nossa identidade em primeiro lugar. O papel da matriarca nunca é pensado para mulheres uma vez que eu. Foi ótimo explorar essa inconstância.”
Outro destaque de “7 Mulheres” é a autoconsciência, com recta a diálogos em que as personagens se reconhecem uma vez que peões de uma narrativa. Não à toa, o projeto se beneficia do 033 Rooftop, que se afasta dos espetáculos encenados inferior, no Teatro Santander, ao diminuir a intervalo entre o público e o palco.
Pensada uma vez que um tipo de bar, cá a lar de shows se torna a mansão da família, e a cortinado que envolve o cenário se projeta, também, ao volta do público. Na plateia, ingressos de R$ 200 permitem sentar-se em sofás uma vez que o do palco, e um galeria de tapetes recebe coreografias muito ao lado dos espectadores.
É lá que caem as cuecas do varão morto, que a mana invejosa guarda com carinho, e as cartas de baralho que a desconhecida espalha ao anunciar sua chegada.
“Hoje em dia, encontramos respostas em todos os lugares”, diz Laura Castro. A artista interpreta a mana mais novidade, jovem reclusa, descrita uma vez que socialmente desajustada, que é apaixonada por mistérios.
“Apesar da fácil conexão com a comédia, cá estamos sempre nos surpreendendo. É uma forma de reencontrar prazer numa imprevisibilidade que desapareceu.”





