Como uma bandeira pirata virou ícone de protestos da gen Z – 26/10/2026 – Ilustrada
Não é difícil entender a premissa de “One Piece”, hoje uma das franquias japonesas mais longevas e populares no mundo, com gibis, animações e série na Netflix. Há uma escol no governo que esbanja luxos e comete crimes sem nunca suportar punições, enquanto um outro grupo é oprimido. Até o pirata Luffy, espargido pelo seu chapéu de palha e por uma bandeira Jolly Roger, encetar a desafiar o regime dominador.
Essa mensagem de resistência foi abraçada pela geração Z, que vem se manifestando ao volta do mundo contra governos e sistemas que consideram opressores erguendo o símbolo pirata de “One Piece”.
No ano pretérito, a bandeirola da tripulação de Luffy esteve nas ruas do Nepal, do Marrocos e da Indonésia. No último mês, rodou o Poente em atos puxados pela juventude, sendo avistada na França, Espanha, Albânia, Estados Unidos, Chile, México e no Brasil, principalmente nos atos em prol de Lula, do PT, reeleito presidente neste domingo.
O estandarte dos piratas ainda dividiu espaço nos protestos com imagens e músicas da franquia “Jogos Vorazes”, menções às letras de divas pop, uma vez que “Ain’t From LA”, de Adéla, imagens de ídolos do k-pop e de filmes que marcaram a cultura daqueles que têm hoje entre 15 e 30 anos.
Estudantes franceses, por exemplo, que ocupam as ruas de Paris para exigir melhores condições de ensino, receberam uma orquestra jovem que tocou num protesto a música “The Hanging Tree”, de um dos filmes da saga “Jogos Vorazes” e que na trama simboliza o espírito de resistência e de rebelião coletiva dos personagens. A apresentação foi interrompida por gás lacrimogêneo, mas foi registrada em vídeo.
Em vez de se limitar a bandeiras nacionais, palavras de ordem e emblemas partidários, os jovens manifestantes recorrem a universos ficcionais, artistas, vídeos verticais engraçados para as redes e narrativas que fazem secção de seu cotidiano para expressar insatisfação e erigir identificação coletiva.
Para Paolo Demuru, perito em semiótica, além de professor e responsável do livro “Políticas do Magia: Extrema Direita e Fantasias da Conspiração”, a força desses elementos está na capacidade de condensar reivindicações distintas em torno de valores comuns.
Uma bandeira criada para uma obra de ficção pode, assim, comprar significados que ultrapassam a história original. “O símbolo não é um tanto que é oferecido. As coisas se tornam simbólicas, não nascem assim”, diz Demuru.
Uma tesoura, por exemplo, é exclusivamente um objeto até que se crie uma narrativa econômica que a use uma vez que símbolo. O responsável ainda aponta que os significados não são fixos e estão sujeitos a disputas de narrativas e transformações conforme os símbolos circulam por diferentes contextos.
Animes e mangás, por exemplo, circulam no Poente desde as últimas décadas do século 20, formando públicos que compartilham personagens, histórias e códigos culturais, mesmo quando vivem em países distantes. As redes sociais ampliam essas conexões e permitem que referências inicialmente restritas a comunidades de fãs saiam das telas e sejam incorporadas a manifestações públicas.
A pesquisadora Adriana Amaral, coordenadora do laboratório Cultpop da Universidade Federalista Fluminense, vê nas plataformas digitais um elemento decisivo para a dimensão internacional desse fenômeno.
“Ser fã é um tanto individual e é um tanto coletivo ao mesmo tempo”, afirma Amaral. As comunidades online oferecem espaços de pertencimento, principalmente para jovens e minorias sociais, além de repertórios que podem ser mobilizados e traduzidos em causas políticas, explica ela.
A apropriação da cultura pop por manifestantes não é inédita. A máscara de Guy Fawkes —que remete a um soldado católico britânico e que foi popularizada pelo filme “V de Vingança”, de 2005— foi incorporada a manifestações e movimentos uma vez que o grupo hacker Anonymous e o Occupy Wall Street, contra a influência do verba na política.
Já os macacões vermelhos e as máscaras de Salvador Dalí de “La Lar de Papel” também foram adotados por manifestantes em diferentes contextos.
O que labareda a atenção agora é a recorrência dessas referências em mobilizações juvenis espalhadas pelo mundo, muito uma vez que a repetição de um mesmo símbolo em protestos que estão distantes entre si.
Para Amaral, a diferença está na graduação e na organização que essas práticas alcançaram. Comunidades de fãs aprenderam a coordenar campanhas, produzir teor e ampliar a circulação de publicações para promover seus artistas. Essas habilidades podem ser transferidas para a mobilização política.
A experiência dos fãs de k-pop é um exemplo. Acostumados a organizar votações e maratonas de reprodução para impulsionar seus ídolos, grupos de admiradores também passaram a atuar em campanhas e causas sociais.
No Brasil, fã-clubes ligados ao BTS e a Taylor Swift se mobilizaram em torno de questões uma vez que os direitos dos consumidores em shows, o aproximação à chuva e o preço dos ingressos, antes de ampliar sua participação para outras pautas políticas.
Nas últimas semanas, o poder de mobilização desses “fandoms” foi meão na mobilização da esquerda para os protestos nas ruas. “Não sei se primórdio minha fala dizendo ‘companheiros e companheiras’, ou se primórdio dizendo ‘fandoms do Brasil, obrigado pela iniciativa de vocês!'”, disse Lula, em exposição a apoiadores na avenida Paulista, em São Paulo, a uma semana da eleição.
A força dessas referências também está no reconhecimento compartilhado. Quem conhece a história de “Jogos Vorazes” ou acompanha “One Piece” pode compreender a reivindicação sem precisar de uma explicação extensa. Amaral ainda diz que o humor incorporado pelos fãs aos protestos facilita a aproximação dos jovens de temas complexos, desconstruindo a teoria de rigidez que há ao volta da política.
“Se insistia muito na teoria de que a política tem que ser séria, tem que ser uma coisa dura. E a internet desmonta esse formato”, diz Amaral. “E a cultura pop ajuda nisso, por ser muito engraçada. Ela é um tanto que continua no imaginário das pessoas.”
O fenômeno ganha relevância diante da imagem de uma geração Z frequentemente descrita uma vez que apática, desinteressada pela política ou excessivamente concentrada nas telas. Secção desses jovens atravessou a mocidade durante a pandemia de Covid-19, quando o isolamento restringiu encontros presenciais e experiências coletivas.
As manifestações atuais, embora não representem toda a geração, mostram jovens que transformam redes sociais e referências digitais em formas de ocupação do espaço público.
“A gente está vendo a irrupção da cultura pop uma vez que mecanismo de geração e de consciência de pertencimento político”, diz Demuru. “Mostra esse reencantamento com a experiência coletiva da política, mas não só da política, da vida social.”
Demuru acrescenta que esses símbolos carregam sentimentos que não se limitam à compreensão racional de uma reivindicação. O reconhecimento de uma referência compartilhada pode produzir a sensação de fazer secção de um tanto que é muito maior que o individual.
“Esses símbolos produzem uma experiência física, epidérmica”, diz o semioticista, ao descrever o encontro entre manifestantes nas ruas. O excitação, afirma, é uma motivação para agir e leva as pessoas a transpor de moradia, encontrar outras e participar de uma motivo coletiva por esperança em um tema generalidade.
A recorrência de símbolos semelhantes, porém, não significa que os protestos formem um movimento homogêneo. As manifestações em cada país respondem a condições políticas, econômicas e sociais específicas, e uma mesma referência pode assumir significados distintos. No entanto, em manifestações compostas por pessoas com experiências e reivindicações diferentes, o repertório geracional funciona uma vez que uma espécie de linguagem generalidade.
Esse terreno também é disputado. Uma vez que observa Amaral, a tradução dos universos da cultura pop pode variar entre grupos políticos, e nem todo fã compartilha das mesmas posições.
O reconhecimento de uma referência, por si só, não garante engajamento político sempiterno. Mas pode funcionar uma vez que porta de ingressão ao aproximar pessoas ao volta de temas universais e horizontais. O duelo é transformar essa identificação inicial em interesse contínuo pelas questões que levaram os jovens às ruas.




