Como virar votos quando ninguém quer mudar de lado? – 13/10/2026 – Wilson Gomes
Se conquistá-los já é difícil, imagine virar votos. Ainda mais em certas circunstâncias que se empilham nesta eleição.
Primeiro, quando o voto e o veto se equivalem. Quer expor, quando há praticamente um empate entre o percentual de votos obtido por um lado e o de repudiação do competidor. E vice-versa. Assim, quem tentar mudar um voto vai ter que mourejar com um pouco muito profundo: a decisão do votante de não votar naquele candidato de jeito nenhum.
Quando as pessoas escolhem com base nas características dos candidatos ou nas políticas públicas que oferecem, há sempre a possibilidade de mudar uma ponderação por conta da propaganda, de informações novas, da conversa política cotidiana. Mas quando se vota em um candidato para evitar que o outro ganhe, a perspectiva de mudança é mais complicada.
Segundo, quando o voto se baseia na identificação com um lado e na hostilidade ao outro, deixa de expressar uma mera preferência para se tornar a reafirmação de pertencimento e lealdade ao grupo. Há muito mais em jogo que escolher simplesmente um candidato entre vários: reafirmar vínculos e crenças, provar fidelidade e conformidade. Mudar de voto significa deixar os seus, romper solidariedades, trair valores. Finalmente, se já desconfiamos do caráter de quem muda de lado no infortúnio, o que pensar de quem troca de campo quando a vitória está a um passo?
Há, outrossim, um dispêndio psicológico. Mudar de voto pode valer consentir, perante si mesmo, que se estava inexacto o tempo todo. Quanto mais investimos em uma escolha, mais difícil reconhecer o erro. Para preservar a imagem que fazemos de nós mesmos porquê pessoas lúcidas e coerentes, tendemos a minimizar as falhas do nosso candidato, desculpar seus erros e justificar suas contradições. Queremos evitar o desconforto de deslindar que nossas convicções podem não ser tão sólidas quanto imaginávamos. Não é para qualquer um remunerar o preço emocional de uma decisão que contradiz tudo aquilo em que acreditou e que defendeu durante anos.
Tampouco se deve subestimar o papel do histórico de rancor e ressentimentos contra o outro lado. São oito anos —e três eleições— de hostilidades construídas sobre bases morais. A crença de que o outro lado é vil, estúpido e fanatizado é alimentada pela lista das atrocidades que dizem e fazem os seus membros e pela memória de humilhações e ofensas. A identidade do grupo foi erguida sobre a crença na superioridade moral e cognitiva, em contraste com a malícia e a estupidez dos inimigos. Uma vez que esperar que anos de rancor cedam, de repente, diante de argumentos, evidências e apelos vindos do outro lado?
Pode-se sempre esgrimir que não teríamos tido a alternância em 2022 e no primeiro vez de 2026 se votos não pudessem ser revertidos. É indumentária. Lula agora perdeu votos que provavelmente foram seus na eleição passada. Mas o ponto não é que votos não podem ser virados —eles podem. É que certas circunstâncias desta eleição tornam isso particularmente difícil. Ao longo de um procuração, o votante acumula experiências, frustrações, informações e avaliações que podem levá-lo a mudar gradualmente de preferência, sem um momento específico de conversão. O que não sabemos é se aquilo que levou quatro anos para se materializar nas urnas pode intercorrer novamente em 15 dias.
Admitamos que esses sejam os votos de uma fração dos chamados “independentes”, que não votam por identificação com lulistas ou bolsonaristas e, portanto, não estariam submetidos aos mesmos engessamentos identitários. Supõe-se que sejam o leal da balança que inclina a eleição para um lado ou outro. Nesse caso, o que poderia levá-los a volver o voto oferecido no primeiro vez? Ou o que poderia motivá-los a votar agora, quando não o fizeram no primeiro, ou a dar um voto válido, quando se negaram a fazê-lo em 4 de outubro?
Na verdade, ninguém sabe porquê fazer isso porque ninguém conseguiu até agora volver uma guia no primeiro vez de uma eleição presidencial. A militância certamente não o fará, pois o militante identificado com o lulismo nem sequer reconhece a existência de eleitores independentes, tratando-os porquê bolsonaristas envergonhados que só podem ser desprezados ou intelectualmente corrigidos.
E a campanha, que já deveria ter-se oferecido conta de que tudo será deliberado por aqueles 3% de votos errantes que não são de ninguém, o que fará a reverência disso? Vai focar em convertê-los ao lulismo em vez de somente convencê-los a dar o voto que negaram no primeiro vez? Teremos duas semanas para ver porquê resolvem esse dilema.
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