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Conheça a parceria de Tom Jobim e Vinicius que mudou
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Conheça a parceria de Tom Jobim e Vinicius que mudou a MPB – 25/09/2026 – Ilustrada

Declarar que “Pequena de Ipanema”, de 1962, é marco indelével da MPB e a cantiga brasileira mais conhecida em todo o planeta é chover no molhado.

Mas a parceria por trás dessa música que se tornou símbolo de brasilidade começou antes, há exatos 70 anos. Em 25 de setembro de 1956, estreava no imponente Teatro Municipal do Rio de Janeiro uma peça músico chamada “Orfeu da Conceição”, com texto do já divulgado poeta e diplomata Vinicius de Moraes (1913-1980) e música de um novato e talentoso pianista chamado Antônio Carlos Jobim (1927-1994), o Tom Jobim —que ganhava a vida tocando música nos inferninhos cariocas.

Diretor da Revista da Música Popular, o jornalista Lúcio Rangel (1914-1979) sabia que Moraes procurava um músico para a peça e foi quem apresentou Jobim ao poeta.

“Esse encontro foi determinante para o que se desdobraria depois no que a gente chamou de MPB”, define o jornalista e crítico músico Leonardo Lichote, um dos editores da coleção Cadernos de Música.

O músico, compositor e diretor de arte Bruno Leo Ribeiro, do podcast “Silêncio no Estúdio”, sintetiza a parceria porquê “a consolidação solene do que conhecemos porquê bossa novidade”.

“Não que eles tenham inventado a coisa, mas foi essa parceria que criou a mitologia entre letra e música”, explica ele. “Na secção lírica, antes as músicas no rádio eram sobre sofrimento, drama e dores de cotovelo; com a dupla, tudo virou uma reparo da venustidade do cotidiano. Da venustidade e contemplação do belo.”

A montagem foi histórica. Se tinha viés inovador transformar a veras das favelas cariocas em tecido de fundo de teatro, vale ressaltar que a cenografia foi assinada pelo arquiteto Oscar Niemeyer (1907-2012) —cuja notabilidade àquela fundura já ocupava altos patamares.

Ribeiro situa a peça naquele momento em que o Brasil vivia uma tempo otimista, respirando modernidade. “Era um movimento cultural completo, com arte, arquitetura, música convergindo para o otimismo de um Brasil novo”, comenta.

Outro indumentária relevante para a quadra foi o elenco. “Orfeu da Conceição” foi encenado pelo Teatro Experimental do Preto, companhia do dramaturgo e ativista Abdias Promanação (1914-2011), se tornando a segunda vez em que atrizes e atores negros ocupavam os palcos de um dos mais importantes teatros brasileiros.

Mitologia grega na favela carioca

No enredo, Vinicius de Moraes reinventa, atualiza e transpõe para o Rio o mito de Orfeu, uma das figuras mais conhecidas da mitologia grega. Trata-se de um personagem famoso pelos talentos musicais que, com sua lira, tenta resgatar a dulcinéia do submundo.

“A peça representava um negócio muito interessante porque tinha essa modernidade associada a uma conquista que se dava em paralelo que era o Teatro Experimental do Preto, que afirmava a presença negra nas artes, conquistando espaço em ambientes de escol”, avalia Lichote.

O crítico músico ressalta que a montagem teve o encontro de duas frentes sociais que se afirmavam no Brasil daquela quadra: a modernidade de viés intelectual branco europeizada e a negritude que lutava para ocupar esses espaços de cultura.

“O mito heleno e a favela”, resume. “Isso obviamente teve impacto.”

Moraes chegou a invocar o músico de uma homenagem ao preto brasiliano. Evidentemente que há anacronismo nessa leitura, mas hoje é preciso ressaltar que o responsável olhava para a questão sob “a perspectiva de um intelectual branco”, ressalta Lichote.

“Ele representava o olhar mais progressista daquele momento e, num patente sentido, foi bastante carinhoso diante daquele universo. Mas é inegável que [na sua dramaturgia] o preto se torna superior por meio da cultura grega, porquê se não pudesse ser superior por seus parâmetros, porquê se precisasse da cultura europeia para atingir o status de nobreza.”

Isto fica nítido até mesmo no instrumental. A montagem teve o violão porquê base.

“A percussão [ligada aos ritmos africanos] na peça está associada ao caos. Isso carrega a perspectiva de que a sociedade daquele momento era racista”, pontua Lichote. “Não que Vinicius de Moraes fosse racista, mas que a peça trazia elementos que hoje, à intervalo, conseguimos perceber que eram pontos racistas daquela sociedade, elementos que representavam o olhar daquela sociedade.”

É uma dicotomia.

“Ao mesmo tempo que a peça valoriza a favela porquê lugar digno de ser palco de grandes dramas humanos, ela romantiza a favela”, pontua Lichote. “O mesmo ocorre com o preto.”

Professor na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), o músico Felipe Julián Goldfarb também vê nesse “encontro seminal” entre Tom Jobim e Vinicius de Moraes a base para a reverência e a valorização da cultura afrobrasileira pela MPB.

Uma base para a MPB

“Muitas janelas foram abertas por ‘Orfeu da Conceição'”, comenta Lichote.

Moraes e Jobim se tornariam profícuos parceiros. Considerado o álbum principiante da bossa novidade, “Chega de Saudade”, lançado em 1959 por João Gilberto (1931-2019), contou com duas composições da dupla, incluindo a faixa-título.

“[Os dois] são compositores centrais. Obviamente não fizeram isso sozinhos, tiveram antecedentes”, diz Lichote. “Mas foram os principais formatadores do que a gente chamou de bossa novidade: o Vinicius pelo lado lírico, as letras; o Tom pelos procedimentos harmônicos e melódicos, o lado da música.”

“E João Gilberto foi aquele face que, através do violão, conseguiu arrematar a proposta e dar forma final, definida e sintética ao projeto”, pontua Lichote.

Para o jornalista Lichote, a produção músico da dupla se destacaria em duas frentes: de um lado, escancarou o Brasil que se projetava, em um espírito desenvolvimentista, para o mundo —o ideal de Brasil do horizonte, os sonhos que depois seriam amputados pelo golpe de 1964; o outro paisagem foi o tórax harmônico que aquele gênero legaria para a geração seguinte, desembocando no que se convencionou invocar de MPB, de música popular brasileira.

“Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, todos eles foram brutalmente influenciados pelo [disco] ‘Chega de Saudade’, do João Gilberto. E o que tem ali é Tom e Vinicius”, aponta Lichote.

A empresária artística Anita Roble, fundadora da escola Music Rio Academy e pesquisadora da ESPM, acrescenta ainda o paisagem empresarial da parceria entre Tom Jobim e Vinicius de Moraes.

“A gente fala muito do encontro entre dois gênios e não avalia a parceria profissional, um pouco que durou décadas e funcionava”, comenta.

“Isso não é geral porque parceria criativa de longo prazo é desgastante. Mas eles não só se sustentaram ao longo do tempo porquê criaram um repertório que sustentou as duas carreiras. É o que hoje chamamos de ‘formar um catálogo’.”

Ou por outra, ela ressalta que Moraes era um varão que “sabia levantar numerário”.

“Uma vez que diplomata, ele circulava pela Europa e tinha redes [de contatos]. Ele fazia a secção mais difícil: o trabalho de um empresário que conseguia penetrar portas e viabilizar um projeto”, afirma Roble. “Quando ele procurou alguém para fazer a música de ‘Orfeu’, ele estava contratando. E não digo isso diminuindo o talento dos dois. É o contrário. Porque talento não se organiza sozinho e movimento artístico nenhum nasce sem estratégia de gestão.”

Em 1962, os dois fariam “Pequena de Ipanema”, a música brasileira mais conhecida, mais gravada e mais tocada no planeta. Para Ribeiro, Tom Jobim e Vinicius de Moraes se tornaram uma dupla criativa tão relevante para a música mundial porquê foram os ex-beatles John Lennon (1940-1980) e Paul McCartney.

Para Lichote, a parceria entre Tom Jobim e Vinicius de Moraes pode ser lida no paisagem sociológico porquê formadora da teoria de país.

“Eles fundam também um país. Porque o país é uma país construída a partir do que se diz dela, o que se pensa dela, porquê ela é projetada. Eles projetaram um outro Brasil”, diz ele. “Deram possibilidades para que se criasse uma novidade música popular brasileira, que mostrasse um outro país. Foram fundamentais para a música e para a cultura brasileiras.”

Desdobramentos

“Orfeu da Conceição” não foi exclusivamente a montagem de 1956. No mesmo ano, a gravadora Odeon lançou um LP homônimo —o primeiro álbum da parceria Tom Jobim e Vinicius de Moraes. “Se Todos Fossem Iguais” a Você é uma das faixas.

Três anos depois, o cineasta gaulês Marcel Camus (1912-1982) transformou a peça em filme, rodado no Rio.

Roble lembra que o filme foi o pulo do gato que viabilizou a peça. A fita de Camus é resultado do indumentária de que Moraes havia vendido ao produtor Sacha Gordine (1910-1968) os direitos sobre seu texto —antes mesmo da encenação original, há 70 anos.

“Ele vendeu e usou o numerário para financiar a montagem teatral. Foi uma engenharia de projeto bastante sofisticada”, analisa. “Ele usou os direitos de adaptação de uma obra que ainda não existia em cena e, com isso, pagou a produção. Hoje chamamos isso de pré-venda de direitos.”

Chamada de “Orfeu Preto”, a película foi premiada em Cannes e ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro. Em 1999, o brasiliano Cacá Diegues rodou outro filme a partir da mesma obra —chamado exclusivamente de “Orfeu”.

A peça foi reencenada em 2010, com direção de Aderbal Freire Rebento (1941-2023).

Folha

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