Marina Lima canta a morte de Antonio Cicero em novo

Crítica: Marina Lima busca o alento em ‘Ópera Grunkie’ – 01/04/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Desde que Marina Lima voltou a rodear em festivais e shows para grandes públicos, uma novidade geração passou a desejar a artista porquê a figura sexy e libertária que, em meados dos 1980, atravessou os últimos dias da ditadura anunciando que o porvir estava começando.

Os versos de “Fullgás” refletiam um Brasil e uma juventude “enxurro de gás”, dando adeus à caretice, sobretudo nos costumes. No manifesto encartado no LP homônimo de 1984, Marina e seu irmão Antonio Cicero eram claros: “Chega de ideais repressivos, cagando regras, fingindo estar supra do tempo e dizendo, por exemplo, que devemos ser heterossexuais ou bissexuais ou que devemos ou que não devemos ter ciúmes”, dizia o texto. “Melhor para nós são a invenção e libertação dos desejos e gostos autênticos de cada um.”

É essa Marina que muitos querem ver. Porquê se ela pudesse trazer junto de si, outra vez, a notícia de qualquer novo primórdio. Mas os tempos são outros.

A secção boa é que Marina são muitas. Transitou da MPB —os quatro álbuns pré-“Fullgás”— para o pop-rock, onde construiu seu reinado. Daí começou a flertar com a música eletrônica a partir dos anos 1990, substância que se tornou forçoso. No final daquela dez, passou por questões existenciais, problemas vocais, depressão.

O álbum “Pierrot do Brasil”, de 1998, coroou essa personagem. O respectivo show, teatral, levava isso às últimas consequências. A certa profundidade, Marina era amarrada em uma camisa de força. É essa a Marina —com dores, perdas e 70 anos de história— que pode, hoje, vasculhar possibilidades de novo tempo.

O recém-lançado álbum “Ópera Grunkie” narra nosso presente. Reflete o Brasil, o mundo e o momento distópico que atravessamos. Neste contexto, é preciso inventar as bolhas de protecção. Os “grunkies”, na definição da artista, são “pessoas livres, inteligentes, que não pagam o preço da renome; gente talentosa e corajosa que aceita as diferenças”.

Em 2026, o mundo é de novo reacionário e o poeta não está vivo. Não há de ser por eventualidade que a ópera de Marina abre com um conjunto devotado a Antonio Cicero. Regrava “Partiu”, lançada no álbum “No Osso”. Em seguida, “Grief-Stricken”, ou tricotando a dor, cantada em boche: “Minha única certeza é: as pirâmides ainda estarão lá/ Mas quem acreditará em sua sabedoria/ Enquanto todos nós estamos tomados pela dor?”.

“Meu Poeta” é autoexplicativa: uma enunciação de paixão ao irmão e principal parceiro na música. E “Perda”, que junta acadêmicos da Ateneu Brasileira de Letras para ler fragmentos de poemas do também imortal.

Está em “Perda” o verso mais perturbador de “Ópera Grunkie”: “Vida, valeu/ Não te repetirei não”, pescado do poema “Valeu”. Se, por um lado, ele soa porquê últimas palavras do poeta, por outro, se parece com o quina desalentado de quem vê o mundo grudar todos os tais caquinhos do velho mundo —pátrias, famílias, preconceitos.

Mas “Ópera Grunkie” não é só nuvens. O sol aparece a seguir, com a bossa “Um Dia na Vida”, com vocal da jovem Ana Frango Elétrico. A luz segue em “Samba pra Heterogeneidade”, devotado a figuras tão díspares quanto Badsista, Marcelo D2 e Maria Bethânia. Nelas, fica sublinhada a compositora capaz de espremer os caminhos harmônicos e melódicos aprendidos com Tom Jobim e os riffs roqueiros de violão de aço.

O dia vira noite, da praia para a boate. A ferveção que serve de tecido de fundo para “Olívia” parece uma atualização daquela que Marina mostrou em “Vestidinho Vermelho”, de 20 anos detrás, em que fazia referência à finada Lora, templo dos “grunkies” de logo.

Aliás, o mergulho da compositora na cultura clubber dos anos 1990 se intensificou a partir de sua mudança para São Paulo e se refletiu na sua música dali em diante. Há mais experimentações, porquê “Collab Grunkie”, que costura vozes de anônimos e famosos porquê Fernanda Montenegro.

As canções em formato mais clássico chegam só no final. “Só que Não” remete a parcerias de Marina e Cicero, porquê “No Escuro” e “Três”. E “Chega pra Mim”, já gravada por Leila Pinho em 2015. Se Adriana Calcanhotto é coautora da primeira, ela participa da segunda cantando. Sua presença traz de volta a memorial do poeta, de quem também foi parceira.

Se o mundo anda polarizado, “Ópera Grunkie” assume seu lado. E a mensagem de ânimo parece ser que, juntos, sobreviveremos. Há momentos quase insuportáveis, mas também há os amigos, a praia, a boate e as mais densas canções de paixão. O gás provável, hoje, para que o cansaço não nos derrube.

Folha

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