Crítica: ‘Yoshi and the Mysterious Book’ encanta pelo novo – 19/05/2026 – Ilustrada
“Yoshi and the Mysterious Book” pode não ter o mundo livre de um “The Legend of Zelda: Breath of the Wild” ou a extravagância de um “Super Mario Wonder”, para referir os melhores exemplares da Nintendo dos últimos dez anos. Mas é preciso um coração duro para não aproveitar o jogo, que chega ao Switch 2, nesta quinta (21), com um sorriso no rosto.
Com uma proposta engenhosa, desafiando o jogador a estudar os hábitos e características de dezenas de vegetais e bichinhos, o novo título é o mais original dentre os estrelados pelo dinossaurinho verdejante desde o inicial “Yoshi’s Island”, de 1995.
Já no Super Nintendo, definiu-se ali uma série de plataforma 2D que se destacou pelo requinte visual e, em alguns casos, pela nobreza com o público infantil. Foi assim com o subestimado “Wooly World”, num mundo todo feito de pelo, e “Crafted World”, com cenários de papelão e feltro.
Novidade obra do estúdio GoodFeel, com direção de Masahiro Yamamoto, “Mysterious Book” segue essa toada com uma estética que une stop motion, lápis de cor de aquarela, e já é um dos mais lindos exclusivos do Switch 2 até agora.
Mas seu diferencial é uma vez que rompe com a linearidade dos antecessores, apostando em elementos de quebra-cabeça para oferecer, a cada nível, uma experiência dissemelhante.
O tal livro do título, na verdade, é o chamado Professor N. Igma, uma enciclopédia falante que cai na ilhota dos Yoshi e pede ajuda deles para reprofundar em suas páginas e registar as espécies que habitam no seu interno.
Para isso, os dinossaurinhos terão de usar suas habilidades básicas —manducar, arrojar ovinhos e servir de montaria— para, aos poucos, responder a diversas perguntas sobre os bichinhos, de maneira lúdica.
Por exemplo, a primeira indivíduo é uma florzinha amarela saltitante. Onde vivem e uma vez que se relacionam? Qual é o seu sabor? O que acontece quando ela sobe nas costas do Yoshi e encosta num arbusto pleno de botões? E se eu der uma maçã para aquela flor cabisbaixa, ficará feliz? E se for enterrada e regada, o que crescerá?
Depois, será a vez de uma abelinha no formato de uva, cujas colmeias são uma vez que cachos. Logo se vê que elas adoram sugar o néctar das florzinhas —e ficam furiosas ao provar uma pimenta. Uma invenção vai se ligando à outra, em níveis simples, mas impressionantes pela forma uma vez que conduzem o jogador de forma silenciosa pelas suas veredas.
No primórdio, pode parecer meio óbvio, e as primeiras fases estão longe de ser as melhores. Aos poucos, o jogo vai se abrindo e conquistando pelo prazer do inesperado, conforme cada um dos achados é catalogado no livro e convertido em estrelas que liberam novos habitats.
Apesar de viver um objetivo principal a cada cenário, a teoria é continuar entre idas e vindas e testar com calma. Os menores gestos podem fazer a diferença, e o jogo não vai te dar tudo de mão beijada.
Daí virão um sapo que solta bolhas enormes pela boca, nas quais se pode entrar para depreender lugares mais altos; uma ave que se abre uma vez que um guarda-chuva; um molusco musicista; um grilo espiralado; uma lesma no formato de um bumerangue; um peixe pescador; um javali com tromba de furadeira e tantas outras.
São tapume de 30 características para cada uma das mais de 60 criaturinhas, entre propostas mais contemplativas e outras mais de ação. Ao longo das tapume de 12 horas da proeza principal, Yoshi terá de surfar, reprofundar, planar, tocar música, manducar melancia, explodir barragens…
Esse é o grande trunfo de “Mysterious Book”, mas também onde mora sua principal fraqueza. O conjunto é possante, mas nem toda tempo é tão divertida e original quanto a outra. Os controles também sofrem em algumas situações —sobretudo quando os seres têm vontade própria— e a trilha e os efeitos sonoros, mesmo simpáticos, caem logo no repetitivo. Não é uma irregularidade tão grave, mas pode incomodar os mais impacientes.
Ao final de toda tempo, o jogador pode ainda dar um sobrenome para o bichinho, ou ainda pedir uma sugestão do Professor N. Igma. Suas ideias são a melhor prova da qualidade da tradução para o português brasílico, já que saem trocadilhos uma vez que a florzinha Azaleleia, o gorducho Pombolê, o roedor Raptinho ou o camarão voante Camarasa. Mas a pergunta que não quer emudecer: por que tudo é adequado, menos o título do jogo? “Yoshi e o Livro Misterioso” seria menos vendável?
Amenidades à secção, vale ainda referir a Enigmave, um pássaro mágico que move uma narrativa de fundo, já que ela é perseguida pelos vilões Bowser Jr. e o mágico Kamek.
A Nintendo nunca foi muito boa na variedade de chefões na franquia “Mario”, e cá isso se repete. Não há mais do que cinco ou seis batalhas ao longo do jogo. Tampouco há qualquer risco: uma vez que o foco é a exploração, o Yoshi não morre nem há qualquer tipo de “game over” para ameaçar a jogatina. Também faz falta qualquer modo cooperativo, para que pais ajudassem seus filhos nas investigações.
Numa era da apologia ao “gamer hardcore”, “Mysterious Book” sabe transcrever alguma coisa da ousadia dos jogos indie para um dos maiores produtos da indústria de forma ligeiro e casual. Se não vai encantar as multidões, certamente despertará a imaginação daqueles que se dispuserem a divertir por essas páginas.




