Masp: Como Damián Ortega vê forças invisíveis das artes – 19/05/2026 – Ilustrada
Pneus, portas e painéis pendem do teto. O fusca de Damián Ortega flutua, uma vez que um veículo que deixou a avenida Paulista e veio se esfrangalhar em uma sala do Masp, em São Paulo. Obra célebre do mexicano, “Cosmic Thing” é o meio gravitacional desta que é a primeira mostra panorâmica dedicada a ele na América do Sul.
Publicado por esculturas monumentais, que desmontam objetos de diferentes formas, Ortega diz buscar o incógnito no cotidiano. Daí surgem os espaços entre as peças suspensas, que sugerem as forças invisíveis e as engrenagens sociais que preservam estruturas de poder.
Exemplo disso é o também presente “Controlador del Universo”, em que serras, machados, marretas e outras ferramentas rodeiam um meio vazio. Juntos, os instrumentos desafiam um mesmo ponto no espaço e apontam para direções alternativas.
“Há um pouco político na capacidade de mudar seu contexto. É necessária a vivência pública e o testemunha para que a obra exista politicamente”, afirma o artista, que iniciou a curso uma vez que cartunista nos anos 1980. Na era, suas sátiras à exploração dos proletários imprimiam vermelhos saturados e corpos estilizados sobre jornais diversos.
Com o tempo, desprendeu-se do papel e especializou-se em remodelar itens de paisagens urbanas, uma vez que foices de fazendeiros e produtos uma vez que garrafas de Coca-Cola —uma parede da mostra aglomera variações delas, e Ortega descasca, perfura, alonga e refaz o símbolo pop. Para ele, não há material que escape das possibilidades artísticas.
“O resultado dos meus quadrinhos já era físico, impresso em um pouco que as pessoas carregavam. A estátua estabelece relação com a verdade. Não se trata de falar sobre um tema, mas de apresentar o trajo.”
Menos interessada numa verdade objetiva do que naquela escondida por trás das aparências, a exposição “Material e Força” reúne desde feitos grandiosos de Ortega, uma vez que as dezenas de pedras que se expandem em um salão e simulam o núcleo terrestre, até trabalhos minimalistas, caso da lâmpada em que uma vela de cera substitui o filamento elétrico.
Ainda sobra espaço para exercícios em vídeo, uma vez que os que complementam o fusca fétido. No primeiro, cordas tiram da terreno um fusca virado de cabeça para insignificante. O tremular da lataria se assemelha ao de um inseto pávido, subordinado a testes científicos.
Noutra performance, pessoas travam uma disputa de cabo de guerra com o veículo. Para Yudi Rafael, um dos curadores da exposição, os experimentos vêm do libido de antropomorfizar o inanimado. “Ortega cria a chance de vermos outras coisas a partir do concreto. Ele permite que uma mangueira seja uma serpente [em ‘Serpiente’, um tubo se enrola ao redor de si], e que uma picareta se torne um réptil cansado.”
O pesquisador compara esse processo a investigações anatômicas. É uma vez que se o mexicano estudasse a natureza dos objetos, separando componentes, identificando limites físicos e catalogando propriedades biológicas. “As ferramentas recorrentes nos projetos dele, por exemplo, atentam para a poderoso presença delas na história da humanidade”, diz Rafael.
“Ele o faz para revelar outra face da teoria de trabalho —o trabalho lúdrico, por vezes tido uma vez que improdutivo.” Enfim, muitas das obras disponíveis subvertem ícones laborais, uma vez que a bateria automotiva que se desfaz em pintura, a mão cujos dedos se confundem com lâminas e tesouras e a estátua erguida por tortilhas.
Junto de uma espiga de milho, que tensiona o comida perecível e a permanência das artes plásticas, a última recupera raízes de povos pré-colombianos. Mesmo que a cultivação e a produção rústico possam resgatar hierarquias ultrapassadas, cá elas se tornam a base de esculturas modernas.
“É um privilégio poder revisitar a história. Embora ela tenha sido profundamente influenciada por colonizadores e pelo mercado internacional, há muito a se extrair de uma trajetória prévia, dos povos originários”, diz Ortega, que continua o ciclo do Masp devotado a expoentes latinos.
“No México, existe o prática de se transmigrar para o Setentrião. Me sinto honrado de poder firmar uma ponte de informação a partir do Sul.”
Em meados da dez de 1990, aliás, o mexicano trocou a formação tradicional pelo Taller de los Viernes, ou oficina das sextas-feiras. Com nomes uma vez que Gabriel Orozco e Abraham Cruzvillegas, o grupo evitou sintetizar ideais num manifesto e priorizou a experimentação livre, atenta a objetos mundanos.
Anos depois, Ortega se viu adiante do Alias Editorial, selo que traduz textos artísticos de grande influência, antes restritos à saber acadêmica e às suas línguas de origem.
Heranças dessas iniciativas são evidentes em produções de Ortega que envolvem tijolos. Seja em fotos de bairros periféricos, seja em filmagens de instalações, eles aparecem amontoados, enfileirados e em disposições variadas, que exploram a potência de um material que gera novas construções.
Já em outra coleção fotográfica, Ortega vê rastros deixados em gramados, carpetes gastos e assoalhos de madeira, entre outras superfícies. São pegadas e demais vestígios humanos, imperfeitos, que questionam a arquitetura calculada de espaços uma vez que a cidade de Brasília e apartamentos luxuosos.
Outra obra célebre é “Harvest”, que agrupa ferros retorcidos que, uma vez iluminados, inscrevem letras cursivas e mensagens escondidas sobre o solo. Nesse encontro entre signos cotidianos e jogos de luzes e sombras, surgem ainda contornos difíceis de se descrever.
É ainda o caso de “Monster”, aglomerado de blocos de concreto, pedregulhos de dimensões variadas e sobras de tijolos. Contrários às peças flutuantes do fusca que aparenta ter sofrido uma explosão, os materiais se apertam uns contra os outros e tentam dar forma ao impossível.
“Hoje, hábitos digitais impõem uma postura passiva, oposta à experiência tridimensional”, afirma o artista. “É a imaginação que rompe essa barreira. Ela leva dúvidas ao público, que podem levá-lo a suas próprias obras. Esses materiais indicam que a arte também está nas mãos do testemunha.”




