Para Adriana Lisboa, trasladar é uma vez que dançar. Ora se aproxima, ora se afasta do texto original, sem perder o ritmo das palavras.
Ao trabalhar com “As Noites Frias da Puerícia”, a tradutora teve que aprender novos passos: escrito originalmente em turco, língua que ela não domina, o livro da escritora Tezer Özlü foi traduzido com o auxílio de ferramentas de lucidez sintético.
O gesto de Lisboa está no núcleo de um dilema que opõe tradutores e lucidez sintético no campo da literatura, uma relação equilibrada entre a viabilidade da IA uma vez que utensílio de pedestal e sua prenúncio à qualidade e ao mercado de trabalho desses profissionais.
Quando a Autêntica Contemporânea decidiu publicar Özlü, conta a editora Rafaela Lamas, não tinha relação de crédito com nenhum tradutor de turco. Ao convocar Lisboa para o trabalho, a proposta era partir da tradução em inglês, feita por Maureen Freely e consagrada pelo prêmio do National Book Critics Circle.
Desconfiada da prática de tradução indireta, a tradutora buscou a versão em espanhol do texto, para confrontação, o que revelou divergências de tom e significado. Portanto, recorreu à IA.
“Quando eu encontrava discrepâncias com o original em turco, pedia que a IA me explicasse o original e as opções dos dois tradutores. Ou por outra, tive a fundamental colaboração do diplomata Marcus Vinícius Oceânico, fluente em turco e leitor de Özlü, que leu não somente o original uma vez que também as traduções ao inglês, ao espanhol e ao teuto.”
Frequentemente comparado com “A Redoma de Vidro”, de Sylvia Plath, por seu retrato brutal do feminino, “As Noites Frias da Puerícia” é o primeiro romance da autora turca, originalmente lançado em 1980 e com previsão para transpor em junho no Brasil.
Experiente, Lisboa já traduziu clássicos uma vez que “O Morro dos Ventos Uivantes” e “Jane Eyre”, das irmãs Emily e Charlotte Brontë, e obras de vanguarda uma vez que “Hiroshima Meu Paixão”, de Marguerite Duras, e “Vidro, Ironia e Deus”, de Anne Carson.
A experiência com a máquina ensinou à tradutora que não é preciso optar pelos extremos. Entre aqueles que entregam tudo à IA e os que não querem ouvir falar na tecnologia, sua escolha é usá-la “uma vez que mera utensílio, que não substitui o pensamento e as decisões criativas, mas pode ajudar a chegar a uma visão panorâmica de um tema, para aprofundar as pesquisas e a compreensão necessárias ao trabalho”.
“É um campo a ser explorado”, diz ela. “Uma novidade forma de dançar.”
A lucidez sintético, no entanto, inquieta tradutores pela prenúncio existencial que representa para a categoria no mundo todo. Na Europa, empresas de tecnologia uma vez que Fluent Planet e Nuanxed estão sendo empregadas por editoras uma vez que HarperCollins France e Veen Bosch & Keuning para realizar traduções automáticas de romances.
Uma pesquisa realizada pela Society of Authors, no Reino Unificado, apontou em janeiro do ano pretérito que mais de um terço dos tradutores havia perdido trabalho para a IA generativa.
No Brasil, o mercado ainda é conservador, mas traduções com IA sem autoria humana já figuram em obras de editoras comerciais uma vez que a Manole.
Lenita Maria Rimoli Pisetta, professora de estudos da tradução na Universidade de São Paulo, considera contraproducente a postura de negação da tecnologia. Mas, uma vez que Lisboa, vê na IA “uma utensílio, não fórmula mágica”.
Se antes a tradução literária era descartada em pesquisas sobre tradutores automáticos, uma vez que o Google Translate, hoje, com o progressão dos modelos de linguagem de larga graduação (LLM), ela está em foco. É esse o objeto de estudo de Natália Carolina Resende, professora do Trinity College, na Irlanda.
Segundo ela, a utensílio é eficiente no processo de tradução porque serve à “automação do corpus de pesquisa”, isto é, substitui a procura em dicionários ou glossários.
Apesar de otimista, Resende compartilha resultados que problematizam o uso da utensílio. Sua pesquisa mostra que textos traduzidos por IA têm características distintas das traduções humanas, uma vez que o uso de vocabulário restringido, frases longas e muitos adjetivos, marcas que fazem com que leitores prefiram o texto humano.
Outro vista negativo está no efeito que a IA tem sobre o tradutor. Ao receber a solução da máquina, ele acaba não conseguindo pensar em alternativas. “É o que a psicologia labareda de ‘priming’: o comportamento linguístico é influenciado por um fomento anterior”, um processo que mina o potencial crítico do profissional.
Alison Entrekin, australiana que trabalhou por mais de dez anos em uma versão em inglês de “Grande Sertão: Veredas” a transpor em breve, critica esse tipo de uso. “Quem terceiriza a primeira lanço da tradução deixa de exercitar essa segmento do cérebro. A tendência é perdermos a habilidade de percepção. Se passo menos tempo com o texto, tenho menos compreensão.”
O consenso entre tradutores é que a máquina não tem uma vez que substituir o humano. Nos termos de Lisboa, “ela não pode simular a experiência vivida da linguagem e da leitura literária, nem a inserção do tradutor no tempo e na cultura uma vez que um sujeito histórico”.
“A tradução é um trabalho fundamentado na artesania” define a poeta e tradutora Prisca Agustoni, que traduz de italiano, gaulês, teuto, inglês e espanhol para português. Hoje, também se proeza na tradução do russo, linguagem que não domina, em um processo parecido com o de Lisboa —a russa Maria Vragova faz uma tradução literal do texto, retrabalhada por Agustoni para apurar a sonoridade em língua portuguesa.
Esse interesse a quatro mãos “permite trabalhar na fronteira movediça que é a tentativa de reproduzir a atmosfera do texto, mobilizando questões contextualizadas no tempo de quem as vive”. “A IA não tem essas variantes”, aponta Agustoni.
Por mais que não use a tecnologia, a poeta a descreve com otimismo comedido. “Não sou das que acham que o mundo vai finalizar por desculpa dela. Todo instrumento é útil para alguma coisa. Depende do uso que se faz.”
Resende reforça a visão das tradutoras: a IA sempre precisará da supervisão humana. Mas a opinião não é compartilhada por todos na indústria. “O problema é a anseio de empresas que, em vez de vê-la uma vez que utensílio para estender a capacidade humana, incentivam a ideologia da substituição.”
O risco do tarefa da IA uma vez que forma de trinchar custos na cárcere do livro, pressionando por maior produtividade e precarizando o mercado, convive com a possibilidade de usá-la para expandir os horizontes da literatura, uma vez que fez Lisboa. Cautelosa, ela defende que seu exemplo não é generalizável. “Foi um processo trabalhoso, eticamente orientado e com supervisão de um colega fluente em turco.”
A tradutora também atenta para o verosímil “achatamento” dos textos por desculpa da tradução mediada. Entrekin usa sua experiência com Guimarães Rosa para tutelar que, quanto mais idiossincrático o texto, menos adequada é a ajuda da IA. “Ela procura o meio do caminho, que não é o da literatura. Queremos aquilo que a deixa fulgurar e saltar da página.”
Piedoso de que a IA já domina o mundo criativo, Pisetta, a professora da USP, diz que a única maneira de controlar a máquina é conhecê-la, por isso incentiva o uso da tecnologia nas aulas. Face aos riscos, o que Lisboa propõe é “ir contra a manante e falar cada vez mais sobre tradução, dar mais voz e destaque aos tradutores”.
