Democratização das mídias com cem anos de atraso – 05/11/2026 – Djamila Ribeiro
Centena anos se passaram desde que o pesquisador escocês John Logie Baird apresentou publicamente, pela primeira vez, um sistema capaz de transmitir imagens em movimento, momento que é considerado um dos marcos fundadores da televisão. Desde logo, uma pergunta segue expondo uma disparidade que se aprofundou com essa invenção —quem conquistou o poder de mostrar o mundo aos outros?
A maioria de nós que lê levante jornal vive no Brasil e assiste à televisão brasileira desde que se entende por gente. Para quem é da minha geração: Orbe, Jornal Pátrio, romance das oito, futebol às quartas e aos domingos. Entre tantas outras imagens, acompanhamos nossas avós ligarem a televisão nas manhãs de domingo para observar à missa.
Em outros canais, acompanhamos durante décadas Silvio Santos vender jogos de contratempo. À tarde, programas policiais —”porta-voz do bangue-bangue e da polícia mediano”, uma vez que canta Roberto Silva— consagraram apresentadores, lançaram carreiras políticas e, há bastante tempo, preparam a audiência para os cultos cristãos que vêm a seguir.
Basta trocar de via na televisão oportunidade para que a maioria deles esteja transmitindo qualquer sábio cristão, seja ele católico ou evangélico. Na madrugada, idem. Há canais exclusivamente dedicados a isso. E, inspirada no intelectual preto Osmar Teixeira Gaspar, que dedicou sua curso para pensar a exclusão de pessoas negras na televisão, pergunto —por que não há um único devotado a religiões de matriz africana?
Será que as religiões de matriz africana não têm visão? Ou será que faltam meios materiais para tanto?
Em tese, em um país livre e democrático, não há problema nenhum em conceder meios de informação em volume para igrejas. Todavia, desde que o Estado zele pela laicidade e pelo pluralismo religioso, sem estimular desigualdades de qualquer natureza, sobretudo aquelas que já vêm de quase quatro séculos de escravidão.
O Estado não deve escolher conteúdos, e sim prometer condições de concorrência e circulação, uma vez que uma medida de justiça. Mas na prática política recente, as comunicações no Brasil funcionam uma vez que balcão de negócios para organizações religiosas que operam emissoras e se articulam politicamente.
O resultado é um giro de sujeição que começa na entrega de concessões a grupos religiosos que se fortalecem e lucram fortunas com a atividade empresarial, que, vale expressar, é branca. Esses grupos também cativam segmento significativa da população que, de tempos em tempos, é chamada a votar nos líderes cristãos exibidos nas telas.
De outro lado, para não melindrar os pastores milionários donos dessas mídias, o governo progressista adia pautas históricas dos movimentos de base. “Não é hora de discutir isso”, dizem sempre.
Só que, ao final, renova-se a licença mais uma vez, e não se desenvolvem mídias feministas, antirracistas, candomblecistas e outras tantas. De quebra, o governo faz o seu próprio pacote de publicidade e investe moeda suado do trabalhador nesses espaços. E o ciclo vicioso recomeça, com Congressos cada vez mais reacionários.
Se a cantiga dos escravizados diz “vovó não quer casca de coco no terreiro, casca de coco faz lembrar o cativeiro”, programas cristãos na televisão brasileira fazem-me lembrar o cativeiro ao qual a militância negra é submetida neste país.
Uma política vernáculo de comunicações é necessária. E ela não seria inédita. A Rede Orbe —representante maior do monopólio midiático brasílico— não se explica unicamente por préstimo empresarial: contou com grande escora estatal desde a ditadura militar, ultrapassando a redemocratização.
Até hoje, nas redes sociais, políticos que deveriam ser impessoais comentam e aplaudem cortes de programas da Orbe, uma vez que se tudo fosse proveniente e oferecido da providência divina. Esquecem-se de que há uma luta histórica pela democratização das mídias, o que vai muito além da representação de pessoas negras nas telas —em que pese essa tarifa ser muito importante.
Pois não bastasse ver representada segmento importante da autoestima de um povo, quem está representado está empregado. E quem está empregado tem condições de vida para matricular os filhos em um bom escola, ter comida na mesa e formar uma geração de classe média, coisa que nem isso o Brasil deixou a população negra ser.
Centena anos depois da exibição de Baird, um governo progressista no Brasil deve assumir uma vez que missão a geração e o fortalecimento de mídias negras e feministas de ampla espalhamento, com autonomia editorial, financiamento seguro e regras que garantam circulação pública.
Trata-se de restituir à democracia brasileira um poder compartilhado em edificar imagens de mundo.
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