“Adeus ao meu macróbio eu/ Acorde para o novo eu/ Eu costumava manar no Worldstar/ E agora estou na Newsweek”, Kanye West canta em “Father”, a principal música de seu novo disco, “Bully”, uma parceria com Travis Scott. O verso resume muito as intenções do rapper com o álbum —voltar a figurar nos cadernos de cultura, não só nos de fofoca.
Isso porque, pelo menos de uns dez anos para cá, o artista vem empilhando declarações polêmicas que foram escalando até o ponto da exaltação a Adolf Hitler e venda de itens com suásticas. Neste ano, ele pediu desculpas, e agora tenta conseguir, se não um descancelamento irrestrito, pelo menos uma trégua, e sua música volte a ser ouvida, debatida e tocada nos palcos mundo afora.
Até “The Life of Pablo”, de 2016, ouvir um disco de Kanye West era sempre inesperado —cada música poderia apresentar uma sonoridade totalmente novidade, e uma cantiga podia dar um cavalo de pau em direções improváveis. Agora, com “Bully”, o rapper conduz o ouvinte para um passeio tranquilo por ruas conhecidas, as mesmas que ele atravessou para trilhar seu caminho uma vez que um dos maiores e mais influentes músicos deste século.
Significa que Ye, uma vez que o artista é chamado, resgata um pouco de vários elementos que já foram importantes em sua obra. O tato para encontrar samples e a maestria em os manipular, as rimas que vão da franqueza à egotrip, as batidas épicas que nunca se prenderam a um gênero, as referências a Deus e à espiritualidade, a sofrência em AutoTune —de certa forma, está tudo lá.
Acontece que, nesse passeio nostálgico, nem Ye nem as ruas a que ele nos leva são mais as mesmas. A sensação é que onde havia árvores coloridas hoje há somente concreto. Os antigos vizinhos já não moram mais ali e o melhor restaurante da região agora é alguma franquia de fast-food. Sobraram as lembranças —e mesmo elas deixam um retrogosto.
Ver Kanye West reciclar a própria genialidade é um lembrete tanto da grandeza de sua subida artística quanto da fundura de sua queda, uma vez que se quantificasse o talento que vem sendo esbanjado nos últimos anos. Será, finalmente, que Ye qualquer dia vai voltar a fazer alguma coisa com aquele nível de inventividade?
O artista viu sua popularidade e sua imagem pública caírem em desgraça conforme tentava se manter provocador em seus discos mais recentes. Os volumes de “Vultures” e “Donda”, junto aos últimos singles, são menos do que bagunçados e pouquíssimo inspirados; eles derivam do mesmo oração que levou o rapper ao cancelamento. Se para Ye o jeito de ser provocador em 2026 é propagar fascismo recreativamente, é melhor mesmo buscar refúgio num pretérito seguro.
O Ye de “Bully” decidiu parar de aventurar para tentar fazer as pessoas lembrarem por que gostavam tanto dele antes de soltarem sua mão. Seus antigos parceiros, uma vez que Pusha T e Jay-Z, não estão mais com ele, mas há gente disposta a ajudá-lo. São os casos de Travis Scott, pupilo de Ye, CeeLo Green e Lauryn Hill, voz sampleada na clássica “All Falls Down” que cantou no show do rapper para 68 milénio pessoas em Los Angeles, na quinta passada.
Eles dão um verniz de chancela à tentativa de retorno de Ye, marcada por pedidos de desculpas aos judeus que envolveram um texto publicado uma vez que proclamação no Wall Street Journal e um encontro filmado com um rabino. Ele atribuiu secção do descontrole a uma perda de contato com a veras por justificação dos problemas psicológicos que enfrenta.
No que seria uma novidade invenção, o rapper afirmou que o famoso acidente de carruagem de 2002 teria deixado lesões em seu cérebro que não haviam sido diagnosticadas na estação. Ye, na estação um produtor de rap em procura de uma curso solo, adormeceu ao volante voltando de um estúdio na Califórnia, esmagou a mandíbula e foi submetido a uma cirurgia de reconstrução que fixou sua boca com fios. Esse processo foi registrado de maneira magistral em “Through the Wire”, um de seus primeiros hits.
“Perdi o contato com a veras. As coisas pioraram quanto mais ignorei o problema. Eu disse e fiz coisas das quais me arrependo profundamente. Algumas das pessoas que eu mais senhoril, tratei da pior forma. Vocês suportaram pânico, confusão, humilhação e o esgotamento de tentar mourejar com alguém que, às vezes, era irreconhecível. Olhando para trás, eu me afastei do meu verdadeiro eu”, ele disse na epístola de desculpas.
Sem levar em conta as partes em que ele se diz pesaroso e diz que vai mudar, potencialmente secção da estratégia de lançar “Bully” e voltar à relevância, as palavras de Ye casam com o que os fãs acompanharam ao longo dos anos.
Essa desconexão crescente com a veras, o solidão dos amigos, a paranoia, as declarações absurdas e até os sintomas de transtorno bipolar, tudo isso foi bastante público —o documentário “Jeen-yuhs”, que o rapper tentou proibir de entrar na Netflix, é o melhor retrato disso tudo.
O ano de 2018 foi marcante nessa trajetória. No álbum “Ye”, o rapper rima de maneira sinistra sobre a bipolaridade, dizendo que “esse é meu superpoder, não é nenhuma deficiência”. Em “Kids See Ghosts”, ele e Kid Cudi criaram uma obra-prima sombria que nasce da dor. Foi também o mesmo ano em que Ye passou a estribar Donald Trump, num processo que o levaria a lançar uma candidatura própria à presidência dos Estados Unidos, a perder diversos contratos com marcas e, por término, ao delírio nazista.
A verdade é que Ye sempre foi polêmico, mas também sempre soube usar a persona pública para promover sua obra, muitas vezes entrelaçando esse personagem em suas próprias letras e videoclipes. De certa forma, a construção de sua curso foi um grande grito por atenção, que acabava correspondido por um novo grande disco. Mesmo quem não gostava se sentia atraído a saber por onde andava a mente tão perturbada quanto criativa desse gênio torto de Chicago.
Ouvir “Bully” é, ao mesmo tempo, lembrar dessa magia e constatar que ela se esgotou. Com exceção dos fãs que ficaram —e, no bom português, bateram palma para maluco dançar, incentivando e acentuando a desconexão do rapper com a veras—, ninguém parece muito interessado em receber Ye de volta de braços abertos.
Assim uma vez que não conseguiu se apresentar em São Paulo no ano pretérito, posteriormente um veto da prefeitura da cidade, nesta semana foi o governo do Reino Uno quem bloqueou a permissão de ingresso do rapper no país para shows no Wireless Festival, em Londres. A própria prelo americana não vem cobrindo seus últimos discos com o mesmo interesse de um pretérito não tão distante.
Um texto do noticiarista Ta-Nehisi Coates chamado “I’m not black, I’m Kanye” —ou “não sou preto, sou Kanye”, referência à famosa frase de O.J. Simpson—, publicado na revista The Atlantic em 2018, fazia um bom diagnóstico desse processo vivido por Ye. Ele falava da procura do rapper por ser um varão preto livre, capaz de fazer o que muito entendesse.
Para Coates, no entanto, tratava-se de liberdade branca —em suas palavras, um tipo de liberdade “sem consequência”, “sem sátira”, “sem responsabilidade”, liberdade “do petróleo e das guerras invisíveis”, liberdade para ser “orgulhoso e ignorante”, para o “estupro” e para “lucrar com o povo num momento e abandoná-lo no momento seguinte”, entre outras coisas. Enfim, ele escreve, uma liberdade desconectada de seu eu.
Esse caminho de liberdade desconexa acabou levando Ye para uma prisão, a mesma da qual ele agora tenta trespassar. “Bully”, uma vez que trilha sonora desse movimento, soa uma vez que os pedidos de desculpas do rapper —insuficientes.
Será preciso mais que um disco emulando seus sons familiares, shows em estádios americanos e uma epístola publicada num jornal para desfazer o sentimento de engano que o artista alimentou ao longo de anos.
