A rossio em frente à Basílica Santuário do Senhor Bom Jesus, na cidade de Iguape, no litoral de São Paulo, ficou tomada na noite de sábado (28) para a pré-estreia de “A Conspiração Condor”. Em cadeiras montadas ao ar livre, moradores se misturavam a autoridades locais —porquê o prefeito e representantes da escol lugar— para ver ao filme rodado ali mesmo, no Vale do Ribeira.
Ao longo da sessão, a reação era imediata —comentários em voz subida, risos pontuais e, sobretudo, reconhecimento de ruas, fachadas e até conhecidos que aparecem porquê figurantes. Em alguns momentos, o público parecia antecipar as imagens, porquê quem espera ver na tela um pedaço da própria rotina.
Dirigido por André Sturm e protagonizado por Mel Lisboa, o longa estreia nos cinemas nesta quinta (9). Ambientado na ditadura da dez de 1970 —porquê “Ainda Estou Cá” e “O Agente Secreto”—, o filme acompanha uma jornalista que, ao revestir o velório de Juscelino Kubitschek, começa a duvidar da versão solene sobre a morte do ex-presidente.
A investigação a leva a cruzar informações sobre os casos de João Goulart e Carlos Lacerda, mortos em sequência nos meses seguintes, em circunstâncias que permanecem objeto de debate. No filme, Lacerda é interpretado por Pedro Bial, em participação próprio.
Kubitschek morreu em agosto de 1976, em um acidente de sege na Via Dutra. João Goulart morreu em dezembro do mesmo ano, oficialmente vítima de um infarto, no exílio, na Argentina. Carlos Lacerda morreu em maio de 1977, também por problemas cardíacos, no Rio de Janeiro.
A proximidade entre as três mortes, mera questão de meses, alimenta, desde logo, suspeitas e hipóteses de ação coordenada contra adversários do regime militar, ainda que sem desenlace definitiva.
Os três tinham, além do peso político, um ponto de convergência —a chamada Frente Ampla. No final dos anos 1960, Kubitschek, Goulart e Lacerda, até logo adversários, se articularam em torno de uma proposta generalidade pela redemocratização do país.
A iniciativa foi interrompida pelo regime, mas permanece porquê um incidente mediano para entender a aproximação entre os três líderes e o contexto político em que suas mortes ocorreram.
No cinema, Sturm opta por uma abordagem indireta. Em vez de reconstituir os fatos de maneira linear, inventa uma personagem fictícia que conduz a narrativa. “Criei uma jornalista que não existiu para percorrer um caminho entre personagens reais”, diz o diretor.
Sturm é diretor do MIS, o Museu da Imagem e do Som de São Paulo, e foi secretário de Cultura da cidade, na gestão de João Doria. Ele também coordena o Cine Belas Artes e a distribuidora Pandora Filmes. No cinema, havia dirigido dois longas, “Sonhos Tropicais”, em 2002, e “Bodas de Papel”, em 2008.
Inicialmente distante do tema, a repórter Silvana e a mais experiente Marcela vão sendo impactadas pelas informações contraditórias sobre as causas do acidente de JK e as mortes dos outros dois políticos, supostamente por intoxicação. “Quero que o testemunha saia se perguntando se aquilo poderia ter realizado”, afirma Sturm.
O filme ainda traz o curiosa personagem de um censor que trabalha na mesma redação que as moças. Interpretado por Nilton Bicudo, ele lê reportagens antes de serem publicadas e corta trechos que considera contrários ao regime.
É interessante o vestuário de ele não ser retratado porquê um monstro, mas sim porquê o colega mais próximo de Silvana, com quem divide vários cafés e cervejas ao longo do filme.
A origem do projeto, segundo Sturm, está na percepção de um padrão que o intrigou. “Quando descobri que eles tinham morrido com poucos meses de diferença, pensei: porquê é que ninguém nunca fez um filme sobre isso?”
Mas haviam escrito livros. Esse mesmo conjunto de suspeitas já foi explorado em “Operação Condor”, obra póstuma de Carlos Heitor Cony em parceria com a jornalista Anna Lee, publicada em 2019. Nele, a investigação combina documentos, depoimentos e elementos de ficção para reconstituir os casos e discutir a possibilidade de pronunciação entre regimes sul-americanos.
O livro amplia “O Ósculo da Morte”, também assinado pela dupla, em 2003, e reforça o interesse contínuo sobre esses episódios. Sturm, porém, afirma que não leu esses livros, justamente para não se influenciar demais. Há ainda o documentário “Condor”, de Roberto Mader, que explora as conexões entre as polícias secretas e a participação da CIA.
A partir da teoria, Sturm passou a reunir informações e construiu um argumento que relaciona os episódios ao contexto real da Operação Condor, ação coordenada entre ditaduras sul-americanas, com espeque dos Estados Unidos, para perseguir opositores políticos. O roteiro foi desenvolvido em parceria com Victor Bonini.
Sem tutorar uma desenlace definitiva, Sturm trabalha com a teoria de incerteza. “Não acho que foi exatamente porquê mostro no filme, mas acredito que houve alguma coisa”, diz. “São muitas coincidências para serem ignoradas.”
O filme assume o formato de thriller político, gênero pouco frequente no cinema brasílio. Sturm cita porquê referência direta “A Trama”, dirigido por Alan J. Pakula em 1974 e estrelado por Warren Beatty, um dos marcos do cinema político paranoico daquela dez.
“Quis filmar porquê se fosse um filme dos anos 1970”, afirma. A opção inclui câmera no ombro, uso de zoom uniforme e planos mais longos, além de uma luz menos contrastada, criando um envolvente de instabilidade e tensão.
A narrativa mistura ainda material de registo —imagens de velórios, registros de quadra e manchetes de jornal— a cenas ficcionais, reforçando a sobreposição entre verdade e reconstrução. “Isso ajuda a gerar essa incerteza entre o que é vestuário e o que é invenção”, afirma o diretor. O recurso contribui para borrar as fronteiras entre documento e dramatização.
Filmado quase integralmente em Iguape, o longa utilizou a cidade para recriar diferentes cenários, incluindo Rio de Janeiro, São Paulo e até locações na Argentina. Exclusivamente duas sequências foram rodadas fora dali.
“A gente conseguiu fazer tudo cá”, afirma Sturm. Segundo ele, a escolha teve impacto direto na produção. “Iguape é uma cidade que nasceu para o cinema.”
Com orçamento de tapume de R$ 6 milhões, viabilizado pela Lei Paulo Gustavo, o filme foi rodado em cinco semanas. A logística concentrada e o espeque lugar facilitaram as filmagens. E esse pioneirismo de filmar em Iguape rendeu frutos. Outro longa já foi feito ali e há mais a caminho, em pré-produção.
“A cidade abraçou o filme”, diz o diretor. Moradores participaram porquê figurantes e acompanharam o processo de perto, criando expectativa pela estreia e estabelecendo uma relação direta com a produção.
A pré-estreia na rossio da basílica, diz Sturm, foi pensada porquê uma forma de retorno. “Eu tinha que repor isso para a cidade”, afirma. Sem salas de cinema na região, a exibição ao ar livre reuniu um público que dificilmente teria chegada subitâneo ao filme. E assim retomou uma história que, décadas depois, ainda levanta perguntas.
O jornalista viajou a invitação da produção do filme
