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Documentário revê fraude da Theranos e de Elizabeth Holmes
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Documentário revê fraude da Theranos e de Elizabeth Holmes – 13/10/2026 – Ilustrada

Elizabeth Holmes é uma pessoa esquisita. Seu rosto, submetido por gigantescos olhos azuis, remete a um Picasso cubista sobreposto à figura enigmática da Gioconda de Leonardo da Vinci. Por trás dessa arquitetura habita uma mulher de magnetismo uno que, aos 19 anos, fez uma das promessas mais ambiciosas da medicina moderna —salvar vidas com uma pinga de sangue.

A promessa era colocar a medicina preventiva literalmente na ponta dos dedos. Uma picada, um aparelho miniaturizado e centenas de exames capazes de diagnosticar até 200 doenças a tempo de serem tratadas.

O Vale do Silício comprou esse sonho —e pagou custoso. Entre 2013 e 2015, a Inc. e a Fortune estampavam suas capas com Holmes chamando-a de “o próximo Steve Jobs”. Ela levou a conferência tão a sério que adotou as blusas pretas de gola subida, marca registrada do fundador da Apple, e uma voz artificialmente grave em palestras e reuniões com investidores.

Ao lado de Sunny Balwani, seu parceiro de negócios e ex-namorado, Holmes convenceu investidores a financiar uma companhia avaliada em bilhões. Só Murdoch colocou tapume de US$ 125 milhões. Ela se tornou a mais jovem mulher bilionária self-made do Vale do Silício, apresentada uma vez que uma supercientista que teria revolucionado o sistema de saúde. Os investidores acreditavam também em si mesmos, convencidos de que eram capazes de reconhecer um gênio —o golpe uma vez que colaboração, fenômeno dissecado por Maria Konnikova no livro “The Confidence Game”.

Mas a revolução era uma fraude extraordinária. A caixa simplesmente não funcionava, e os resultados frequentemente eram enganosos. Em 2015, o repórter John Carreyrou, do The Wall Street Journal, alertado por um patologista, investigou o caso e revelou que a Theranos usava aparelhos convencionais de outras empresas. Porquê essas máquinas exigiam volumes maiores de sangue do que a picada no dedo rendia, funcionários eram instruídos a diluir as amostras, o que comprometia os resultados. A empresa, que chegou a valer US$ 9 bilhões, passou a valer praticamente zero e terminou na falência e na pena de Holmes por fraude.

Toda essa história é contada em “You Can See Everything”, documentário que estreia nos cinemas americanos em 16 de outubro e mergulha na mente da ex-empresária. Exibido no Festival de Cinema de Telluride, no Colorado, foi elogiado por críticos e espectadores. O filme não tem data confirmada no Brasil.

O documentário começa um mês antes de Holmes se apresentar à prisão federalista para executar pena de 11 anos. Ela própria fez um invitação inusitado a um dos diretores, Nathan Fielder, de “O Tentativa” —morar em sua mansão com a família, na esperança de convencer os cineastas, e quem sabe o mundo, de que ela foi injustiçada.

Fielder, que dirige o filme ao lado de Lance Oppenheim —a dupla surpreendeu o mundo do cinema com o longa filmado em sigilo—, acaba arrastado para dentro da história, tentando, o tempo todo, interpretar se Holmes está sendo sincera ou tenta manipulá-lo. A partir daí, a obra toma rumos cada vez mais surreais. Para Owen Gleiberman, da revista Variety, é um “circo psicodramático único”.

Sentado diante de Holmes, Fielder disse tê-la invento “de certa forma honesta e encantadora”, mesmo com o seu cérebro avisando —”Não, não confie”. Essa desconexão entre o que ele sabia sobre Holmes e o que sentia em sua presença é o meio do filme.

Phyllis Gardner, professora de medicina de Stanford e uma das primeiras a ouvir os planos de Holmes, resumiu. “Ela não entendia de medicina e tinha conhecimentos rudimentares de engenharia. E tinha 19 anos. Mas não queria ouvir especialistas. Achava que sabia tudo.”

O que Holmes dominava era o poder das relações públicas. Formou um recomendação de gestão poderoso com ex-secretários de governo, ex-senadores e nomes uma vez que George Shultz, Jim Mattis e Henry Kissinger, e buscou investidores ricos que pouco entendiam de biotecnologia.

Quando o logo vice-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, visitou a Theranos, ela montou um laboratório principalmente pronto para a ocasião. “Nascente é, de certa forma, o laboratório do porvir”, Biden comentou.

Grande secção do caso só chegou aos tribunais graças aos denunciantes. Adam Rosendorff, ex-diretor do laboratório e testemunha-chave do julgamento, conta que até o terapeuta teve dificuldade para confiar no que ele dizia. “Quem não teria? Imagine um médico relativamente jovem dizendo que uma das maiores histórias de sucesso do mundo era uma fraude.”

Erika Cheung, ex-funcionária, afirma que, enquanto o moeda entrava, os resultados do laboratório pioravam. Os exames apresentavam imprecisões recorrentes, colocando a saúde das pessoas em risco. Isso incluía testes para hepatite C, tireoide e até exames relacionados ao cancro. Mas Elizabeth Holmes não parava, mesmo sabendo que o aparelho não funcionava. O que mais chocou foi o uso da “tecnologia” em pacientes reais, com doenças reais.

Cheung e Tyler Shultz, outro ex-funcionário, tentaram alertar internamente sobre os problemas, mas Holmes e o sócio reagiram de forma agressiva e chegaram a ameaçá-los com processo caso denunciassem as irregularidades.

Em 2015, eles decidiram denunciar e procuraram o jornalista do Wall Street Journal. Tyler, neto de George Shultz, que fazia secção do recomendação da Theranos, chegou a comprar um celular descartável para falar secretamente com ele. Um dia, ao visitar o avô, encontrou dois advogados da empresa à sua espera. “Eles basicamente fizeram uma emboscada.”

O pesquisador Darrem Saunders, que acompanhou de perto a subida de Holmes, diz que “tinha vontade de gritar: ‘O rei está nu’”, e queria retrair aquelas pessoas de lado e perguntar: “Não há zero cá. Por que vocês estão gastando tanto moeda em um pouco cuja existência sequer foi provada?”.

Ao ouvir a sentença, Holmes disse estar devastada por seus “fracassos” e assumiu responsabilidade pela Theranos, mas sem consentir qualquer delito. Para o promotor, o problema nunca foi o fracasso, foi a peta. Fracasso é a termo do empreendedor; peta é a termo do tribunal. Escolher o vocabulário é uma forma refinada de negação.

Gógol já tinha escrito essa cena em 1836, em “O Inspetor Universal”. Numa cidadezinha russa, autoridades entram em pânico com a notícia de que um fiscal do governo viaja incógnito. Quando um varão simples se hospeda na estalagem, todos decidem que ele é o fiscal e passam a bajulá-lo. Emprestam-lhe moeda, oferecem-lhe a filha e confessam seus pecados.

O rapaz nem precisa se dar ao trabalho de mentir, a cidade já trabalha por ele. No término da peça, o verdadeiro fiscal chega, e aqueles que bajularam não se perdoam por ter ficado de joelhos diante de um zé-ninguém.

Holmes só inventou uma grande peta. O resto, o Vale do Silício fez sozinho.

Folha

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