Drica Moraes vive juíza em conflito na peça ‘Inter Alia’ – 03/08/2026 – Ilustrada
Na plateia, uma risada fora de hora é rapidamente engolida porque o testemunha do tentativa crédulo percebe, no meio da cena, a viradela na história contada em “Inter Alia”, peça protagonizada por Drica Moraes e dirigida por Rodrigo Portella, agora em papeleta no Teatro Vivo, em São Paulo.
Não dá para culpar o varão que riu sobranceiro na apresentação para uma plateia de convidados, no sábado (25). O espetáculo é realmente ligeiro e recreativo na primeira segmento, apesar de a juíza Jessica, interpretada por Moraes, reunir funções profissionais, maternas e domésticas.
Ela é multifuncional, mas está em plena subida no trabalho, é correta, empática com as mulheres, acolhedora, tem amigas para dançar e trocar confidências e até transa com o marido, Michael, papel de Caco Ciocler.
Com o fruto jovem, Harry —Caio Cesar Passos—, a relação é típica. O garoto não quer muita conversa, acha enfadonhas as preocupações da mãe e é tratado uma vez que “brother” pelo pai, mais desencanado e menos comprometido com tudo ao volta.
O elenco aparece no meio do palco cru, sem nenhum cenário, no início da peça, e logo Jessica começa a relatar a história da reviravolta em sua vida. É uma narrativa direta, no estilo de Portella, diretor premiado de sucessos uma vez que “Tom na Herdade”, “(Um) Tentativa sobre a Facciosismo”, “O Motociclista no Mundo da Morte” e da montagem mais recente de “Termo de Partida”, de Samuel Beckett.
Enquanto ela fala, os dois homens do elenco montam, aos poucos, o cenário. O palco é transformado em um misto de tribunal e morada da família. Ali, Jessica vive as dores e as delícias de sua rotina, com participações esporádicas do marido e do fruto, coadjuvantes na trama.
Drica Moraes domina o espaço com o novo texto da australiana Suzie Miller na ponta da língua e quase sem pausa para respirar. Ela julga, canta, dança, sensualiza, dá atenção ao fruto, sabe que o sucesso pode incomodar o marido, prepara um jantar próprio, orienta e torce pela felicidade do rebento.
A viradela, na segunda metade do espetáculo, acontece depois o envolvimento do jovem em um violação sexual e vem acompanhada de incertezas e questionamentos. É uma vida que desmorona e ganha ares de terror diante do público, a essa profundidade conquistado pelo carisma de Jessica e sua tradutor.
Portella optou por recortar o texto, que não é apresentado de forma linear e tem flashbacks o tempo todo, com metáforas para o fruto que escapa do controle da mãe. Há a fatídica culpa materna e os conflitos éticos entre a profissional competente e ocupada e a mulher protetora da cria.
O universo jurídico e feminista é o mesmo de “Prima Facie”, a peça de Miller que faz sucesso mundial. No Brasil, o solo de Débora Falabella já levou tapume de 150 milénio pessoas ao teatro desde a estreia, há dois anos. A dramaturga, uma ex-advogada criminalista, escreve a partir de casos de violência sexual observados no sistema judicial.
“O mundo das mães é um mundo de perguntas. A gente não tem resposta para zero. Vivemos com as dúvidas de uma maneira às vezes paranoica”, diz Moraes, mãe de Mateus, um jovem de 17 anos.
Apesar de reconhecer as feridas deixadas na geração de jovens que passou pela pandemia e lida com o universo do dedo o tempo todo, a atriz afirma que sua tendência é crer que tudo dará manifesto. Ela vivencia uma maternidade baseada no afeto e nas conversas —as que acontecem e as que ficam nas tentativas.
No caso da juíza, há a compreensão profunda sobre o funcionamento das leis e uma vez que as mulheres podem ser vítimas até mesmo quando não são violentadas, uma vez que é o caso da mãe de um estuprador.
“Essa mulher sabe que as leis são escritas por homens para contemplar um mundo masculino, branco e heterossexual”, afirma a atriz sobre as dúvidas de Jessica em relação ao fruto.
Moraes também enxerga na dramaturgia um feminismo sem o dedo na rosto dos homens, com o público sendo chamado para uma conversa sobre o tópico disposto em tarifa no palco. “Ninguém tem razão cá. É a impermanência das ideias mesmo.”
Ao ler o texto, Portella diz ter se interessado principalmente pela dimensão narrativa do espetáculo, com a juíza comentando o tempo todo o próprio pensamento e os sentimentos em relação ao que está acontecendo.
O contraponto masculino também é citado pelo diretor uma vez que um diferencial. Em parceria com Mina Quental, ele criou um cenário que remete às construções e desconstruções dos homens em um mundo em transformação, mas ainda muito misógino e violento.
Apesar da aspecto juvenil, Caio Cesar Passos tem 30 anos e precisou acessar lembranças do pretérito para edificar o personagem marcado por heranças do patriarcado decadente.
“Olho para os meus 18 anos e vejo o quanto também engoli certas coisas”, diz sobre a temporada de descobertas e vivências na família e entre os amigos.
No caso dele, há uma particularidade: os amigos do escola optaram pela curso militar, enquanto ele foi para o teatro. Lidou com os estigmas que acompanham os artistas iniciantes em um envolvente conservador, mas seguiu em frente.
Portella escolheu o ator depois ver ao espetáculo “Mal-parecido”, da companhia carioca Vinco, sobre um parelha surpreendido por uma invenção nas imagens de um revista. Passos interpreta a mãe.
Uma dez depois a saída da escola, ele viu os amigos de puerícia na plateia pela primeira vez. Os militares sentaram na primeira fileira e, no final, elogiaram a atuação.
No texto original de “Inter Alia”, os dois homens da história tinham uma participação mais periférica do que na montagem de Portella, que contou com o dramaturgismo da escritora e jornalista Bianca Ramoneda.
Caco Ciocler afirma ter ficado comovido com o acúmulo de serviços da personagem feminina, um tanto que é explicitado na dramaturgia. “Acabei de ler e disse ‘que maluquice é ser mulher, eu não tenho que dar conta de metade que ela tem’.”
Essa consciência o levou ao libido de ocupar um lugar de serventia, concretizado no palco com o vai e vem dos dois homens na montagem e desmontagem do cenário.
O ator é sincero ao falar sobre a sensação de falhar uma vez que pai e padrasto, às vezes na tentativa de ser muito legítimo, uma vez que é o caso de seu personagem, um varão que procura novos caminhos e confessa não saber para onde ir. “É um despir muito bonito e interessante na peça.”
Essa exposição de sentimentos fez segmento do processo artístico liderado pelo diretor, que estimula a troca de experiências. Dentro e fora de cena, o trio de atores reflete sobre as complexidades das relações familiares.
“Não é que a gente esteja representando uma incerteza, a gente está botando a nossa incerteza em jogo”, afirma Ciocler em relação à denúncia contra o fruto imaginário.
O programa da peça inclui um guia para relações mais humanas, com informações sobre violência sexual, masculinidades e caminhos para a mudança, produzido pelo escritório de advocacia Tozzini Freire.
O guia explica o que é “inter alia”, uma sentença jurídica que significa “entre outras coisas”. Em processos judiciais, indica que há mais fatos a serem considerados.
Na peça, é um chamado para prestar atenção na pressão que os jovens vivem entre a masculinidade tradicional ainda presente e a urgência de romper a dinâmica, discordar dos amigos e interromper o ciclo de violência física e psicológica contra as mulheres.





