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Edson Celulari volta aos palcos após 14 anos; veja
Celebridades Cultura

Edson Celulari volta aos palcos após 14 anos; veja – 30/07/2026 – Mise-en-scène

No asfalto, o varão morria. Não um sujeito qualquer, mas o ignoto sem nome que sangrava na via pública enquanto a cidade assistia com a habitual e metódica indiferença dos transeuntes. E logo, no meio da material fria e da poeira da rua, veio o ósculo. Não um gesto de devassidão, entenda-se, mas o gesto puro, o susto misericordioso do rapaz Arandir diante da morte do outro. Pois foi esse ato de dor que bastou para acionar a grande e hedionda maquinaria do mundo.

É essa a tragédia que em papeleta no Teatro Gláucio Gil, em Copacabana, na encenação de “O Ósculo no Asfalto” dirigida por Marco André Nunes e produzida por Rafael Raposo. Nelson Rodrigues escreveu a peça em 1960 a pedido de Fernanda Montenegro para o “Teatro dos Sete”, mas o que se vê no palco carioca é a anatomia exata da nossa devassidão cotidiana.

O varão contemporâneo imagina ter inventado o tribunal do cancelamento, a moca que vira veste consumado antes do amanhecer e a proliferação descontrolada de versões. Ilusão. O texto já havia desenhado cada engrenagem desse processo há mais de sessenta anos. Na montagem, fica cristalino que a ruinoso de Arandir não nasce da mesocarpo, mas do verbo. A vocábulo, no universo rodriguiano, transcende o ornamento para trucidar reputações.

Cada figura em cena ostenta sua própria emissão vocal uma vez que quem empunha uma arma. O representante Cunha, feito por Ernani Moraes, encarna a truculência da mando que não procura a verdade, mas o culpado útil. O repórter Estremecido Ribeiro, na pele de André Mattos, destila o descaramento calculista da prelo sensacionalista, transformando a dor alheia em mercadoria.

Luisa Arraes confere a Selminha a titubeação da esposa corroída pela incerteza semeada dia a dia. Nina Tomsic, uma vez que Dália, atua nas frestas do dito e do não dito, desestabilizando o lar com a força devastadora da sugestão. A montagem compreende que o texto é ritmo, pausa e respiração, mostrando que a moca ganha status de verdade irrefragrável quando dita com a crença do microfone ou da farda.

Se a dramaturgia é implacável, a encenação procura extrair do espaço uma voltagem física e sufocante. A iluminação de Renato Machado projeta sombras pesadas sobre o solo, desenhando a mancha invisível do defunto e banhando o espaço com tonalidades rubras.

Os figurinos sóbrios de Ronald Teixeira mantêm o rigor da quadra de ambientação, ressaltando o espartilho moral da classe média carioca do século pretérito, enquanto a trilha de Felipe Storino resgata “De Frente pro Delito”, de João Bosco e Aldir Blanc, para sublinhar a vocação voyeurística da turba diante do sangue alheio.

Há, porém, um impasse técnico na física do espetáculo. A montagem propõe ocupar o Teatro Gláucio Gil em uma disposição de estádio, cercada pela plateia. No entanto, a movimentação do elenco e a cenografia de Aurora dos Campos preservam a leitura do palco italiano frontal. O resultado é um ponto cego real: quem se senta nos setores laterais perde elementos visuais vitais, uma vez que o pintura de fotografias que ornamenta a cena.

Por ironia do orientação, o defeito espacial vira uma metalinguagem involuntária, pois em uma obra sobre a impossibilidade de se enxergar a verdade inteira diante dos relatos editados, secção do público é forçada a observar a uma versão parcial da própria encenação.

No elenco, a grande virtude reside na recusa do escândalo histérico. Eduardo Sterblitch constrói um Arandir desprovido dos excessos do melodrama tradicional, optando pela moderação do varão geral tragado por uma engrenagem que não compreende, o que torna sua derrocada moral ainda mais dolorosa. Ao seu lado, Edson Celulari marca seu retorno ao teatro em seguida catorze anos de privação, estreando na dramaturgia rodriguiana no papel de Aprígio, o sogro.

Celulari edifica sua atuação nos silêncios, na contenção dos olhares furtivos e no peso dos desejos reprimidos que desaguam no desfecho trágico. Nos papéis secundários, Nina Tomsic oferece a formação mais sutil da noite ao jogar com a malícia dos subtextos, Pedro França evita a caricatura ao dotar o submisso Aruba de uma humanidade patética, e Fernanda Dias resgata em rápida participação o timing exato da fofoca de vizinhança.

A produção viabilizada por Rafael Raposo prova que o Rio de Janeiro continua sendo o palco para a obra de seu maior dramaturgo. “O Ósculo no Asfalto” reitera que a canalhice humana não envelhece, unicamente troca de roupa e muda de endereço. No asfalto de Copacabana, o varão continua morrendo. E nós continuamos assistindo.

Três perguntas para…

… Edson Celulari

Você esteve 14 anos ausente dos palcos. O que tornou o invitação para “O Ósculo no Asfalto” o momento ideal para esse reencontro com o público no teatro?

O que me instigou foi o cheiro de duelo. Reler o Nelson Rodrigues e ver a força daquele texto, num projeto que reúne gerações diferentes, com um elenco grande, foi irresistível. Ele é o maior dramaturgo do século 20, revolucionou o teatro com suas tragédias cariocas, essa investigação da hipocrisia e dos valores sociais. A linguagem dele é fascinante e dificílima para o ator. E, depois de 14 anos, estar de volta com uma obra que te exige tanto e te alimenta tanto tem sido fortificante. É um processo lindo, e estou muito feliz com o sucesso que o projeto está fazendo.

A peça coloca Aprígio em direta fricção com o genro, Arandir (Eduardo Sterblitch), e com a filha, Selminha (Luísa Arraes). Uma vez que foi edificar essa dinâmica sufocante de intimidade e suspicácia em cena ao lado desse elenco?

O Nelson constrói uma chave dramatúrgica muito interessante: o pai protegendo a filha e desconfiando do genro, sem nunca reportar o nome dele. Isso dá uma viveza ao texto, com muitas camadas, que vão se descascando até revelar a núcleo trágica de cada personagem. E, para isso, o teatro exige compromisso com a obra, e verdade. O Nelson exige verdade. É um texto realista, mas não naturalista, e exige disponibilidade de jogo de todo o elenco, são 14 atores em cena, três atos, cada cena um tijolo novo. As diferentes gerações se encontram ali, e a gente aprende e se diverte a cada dia. O jogo forçoso do teatro é esse.

O Eduardo vem da comédia, é um clown, e quem faz comédia muito é capaz de fazer qualquer coisa – ele é um ator incrível, generoso, e estou adorando esse contato. A Luisa, que conheci párvulo, se mostra uma atriz dedicada, inteligente, com uma lucidez cênica maravilhosa. E a Nina também constrói a mana mais jovem de forma muito inteligente. Todo o elenco está luzidio, inclusive no universo da delegacia e da redação, com André Mattos e Ernani Morais. E o diretor Marco André Nunes foi muito feliz nas escolhas de cenografia, luz e música. Os dois músicos em cena, que também viram atores, integram tudo de forma sutil. O espaço Gláucio Gil, semiarena, dá um charme peculiar. É um projeto que deu evidente.

Nelson Rodrigues afirmava que as misérias do ser humano são as mesmas desde o Gênesis. Ao interpretar essa obra escrita em 1960, uma vez que você enxerga a relação entre o sensacionalismo daquela quadra e os linchamentos virtuais e a disseminação de fake news de hoje?

Nelson está evidente: as misérias são as mesmas. Avançamos muito pouco. A Renata Sorrah foi observar e disse: “nossa, os homens de hoje estão melhores”, mas será que estão? O que ele retrata nessa peça – o julgamento público, o esquartejamento moral – é o que vivemos hoje com o cancelamento e as fake news. O Arandir é uma vítima no meio disso, sem resguardo. É impressionante uma vez que a narrativa vai crescendo uma vez que um telefone sem fio. E eu acho lindo quando ele diz que não se arrepende do ósculo, porque achou bonito. A visão do Nelson foi genial, profética. Ele é um gênio que tivemos a sorte de ter no nosso teatro. Sempre quis fazer um texto dele, chegou a hora, e espero que o projeto tenha vida longa para que mais pessoas possam ver essa força.

Teatro Gláucio Gil – Rossio Cardeal Arcoverde, s/nº – Copacabana. Quarta a segunda, 20h. Até 3/8. Duração: 90 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. R$ 20, disponíveis na bilheteria física ou pelo site da FUNARJ

Folha

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