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Edyr Augusto transforma leitor em cúmplice em novo livro
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Edyr Augusto transforma leitor em cúmplice em novo livro – 14/08/2026 – Ilustrada

A prosa veloz de Edyr Augusto não economiza cenas violentas. Sua literatura, povoada pelas vozes do submundo de Belém, é uma insídia para quem lê.

“É segmento da gaudério que eu faço para nós vivermos aquela história toda juntos. A minha teoria é invocar o leitor uma vez que cúmplice, uma vez que se nós dois estivéssemos assistindo àquilo”, diz, em entrevista.

O pacto de cumplicidade surge já no início do seu novo livro, “Não nos Deixeis Tombar em Tentação”, da Boitempo.

O que os leitores testemunharão é o assassínio encomendado de dois jovens seminaristas. O ritmo é vertiginoso. O jornalista não prorroga a ação construindo antes um cenário nem apresentando as personagens. O romance não é levantado aos poucos —é para já.

“A primeira página, para mim, tem que ser muito matadora, sabe? Porque é ela que vai provocar. Quando tenho essa primeira página, mergulho. Daí em diante é uma vez que desenrolar um fio”, conta.

Mas que o leitor não cometa o vício de confundir responsável com personagem. “Eu não sou ligado na morte e também não sou uma pessoa violenta, pelo contrário.”

Quem já leu o sucesso “Pssica” e seu romance anterior, “Belhell”, está habituado à regularidade frenética de Edyr Augusto. “Pssica” foi transformado em série pela Netflix, em uma produção filmada no Pará, com direção de Fernando Meirelles e Quico Meirelles, mostrando a atuação dos “ratos d’chuva”, bandidos que percorrem os rios do Pará cometendo atos bárbaros.

Características do responsável, a velocidade da trama e a linguagem marcada pela oralidade aparecem também em “Não nos Deixeis Tombar em Tentação”. É o primeiro livro dele depois da estreia de “Pssica” no streaming, em que chegou a permanecer entre as séries mais vistas em 68 países.

No novo romance, o clérigo de Belém contrata um matador de aluguel para fuzilar dois alunos do seminário que comanda. Os garotos foram assediados e ameaçam denunciá-lo.

“Posso mandar dar uma surra e nunca mais chegarão perto do senhor”, diz Buiú, o contratado. “Acho que só tem um jeito, e por isso vim cá, muito encabulado, mas claro de que compreenderá minha urgência e de que Deus cuidará de nos proteger”, responde o clérigo.

A moralidade dupla das personagens é uma ordenado na obra do responsável. A devassidão das instituições, uma vez que a polícia e o governo, também. “Os Éguas”, por exemplo, é um thriller policial que rendeu a Edyr Augusto um prêmio da Universidade de Lyon, na França. Lá, o livro recebeu o nome de “Belem”.

“Eles têm uma curiosidade [pela Amazônia] e se deparam ali com uma outra coisa, que provoca muito. Os franceses são muito curiosos a reverência do Brasil. Às vezes, vinham procurando uma coisa até exótica [nos livros], mas não é”, diz ele sobre o fenômeno de recepção de sua obra em língua francesa.

Augusto reconhece também a valia da sua editora brasileira para a circulação dos seus livros em outros países. Ivana Jinkings, que comanda a Boitempo, apostou no responsável de ficção mesmo primeiro de uma editora dedicada sobretudo a livros críticos, alinhados a um pensamento de esquerda.

“Eu podia ter ficado no primeiro livro. Mas não. Ela apostou em mim e lançou todos os meus livros. O que é uma bênção de Deus, né? Porque espalha você por todo o Brasil”, diz o responsável.

Em “Não nos Deixeis Tombar em Tentação”, Augusto rege um coro de muitas vozes. Personagens surgem, em diálogos inseridos nos parágrafos sem eminência do oração indireto, com alternância dos pontos de vista. Assassinos, radialistas, delegados, uma estudante de jornalismo, funcionários respeitáveis que à noite abusam de drogas e sexo —todos aparecem intercalados no enredo.

“Sempre digo que um personagem nunca vem sozinho. Ele tem mulher, filhos, irmão e mana, amigos, pais, inimigos. Chega sempre junto com a turma toda. Tudo tem repercussão”, diz.

Há uma poderoso presença da atmosfera do rádio. Os capítulos narrados pelo radialista criam a tensão na investigação da morte dos rapazes e um repertório em generalidade com o leitor, que passa a “escutar” as mesmas coisas. O efeito não é aleatório. Augusto trabalhou por mais de 50 anos com rádio.

“Vi todos esses tipos de rádio, os populistas e os mais comportados. O rádio ainda é muito poderoso. A mulher fica cozinhando em moradia e tem aquele rádio no fundo tocando brega e o apresentador gritando.”

O jornalista costuma coletar histórias da verdade para usar em seus livros. Aconteceu em “Belhell”, com a notícia de que um “submarino artesanal” voltado ao tráfico foi encontrado nos rios amazônicos. O método também integrou a escrita do novo livro.

“Sou uma pessoa muito observadora de costumes, de pessoas, de uma vez que agem, por que agem. Aí, inevitavelmente, essas anotações vão surgindo. São coisas que a gente guarda na cabeça e vai procurando na hora em que está escrevendo”, diz.

Para Edyr Augusto, é no momento da escrita que tudo acontece. “É ali, no ato de ortografar, que está tudo. É o toque dos dedos nas teclas.”

Folha

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