Equilibrium: Entenda as referências de Anitta ao candomblé – 10/05/2026 – Ilustrada
Nem tudo que é bom vem de fora, já disseram Jorge Aragão e Acyr Marques em “Coisa de Pele”. Essa é a máxima que Larissa de Macedo Machado parece não ter esquecido. A curso internacional de Anitta deu meia volta em direção aos palcos dedicados à arte popular do nosso soalho.
Em meados da Páscoa, a cantora concedeu entrevistas e foi a programas da televisão usando fios de conta —grudar religioso que identifica e carrega a robustez de um fruto de santo—, “amarrada” com contra-eguns —palhas nos braços de médiuns em preceito—, e priorizando apresentações com hits nacionais, dando início à divulgação de seu oitavo álbum de estúdio.
Em seguida uma mergulho na “era zen” de Max Tovar, de do qual livro, “Musculatura da Espírito”, assina o prefácio, Anitta transporta essa pluralidade religiosa para a estética de “Equilibrium”.
No disco, o sagrado e o temporal coexistem sem rigidez, uma vez que no sincretismo brasílico. O álbum marca um ponto de confirmação entre seus excessos e faltas, reafirmando a personalidade livre que a consolidou uma vez que ícone vernáculo.
Na primeira segmento do disco, a interação sonora entre funk, samba e simetria, com referência religiosa nas percussões, sugere o reconhecimento desses gêneros uma vez que resultado da relação com a música africana no Brasil.
A música popular passa por essa influência, em escalas rítmicas e linguísticas, e tem o instruído afro-religioso uma vez que origem, uma vez que demonstrado no sample da parceria entre Vinicius de Moraes e Baden Powell e no de Os Tincoãs —que, no disco, viraram as faixas “Mandinga” e “Nanã”, respectivamente.
Dispensa-se do álbum um fator pioneiro. Diversos cantores da música vernáculo já trataram da religiosidade uma vez que segmento de uma propriedade artística e visual. É valioso, no entanto, o alcance vasto em visualizações para contribuir com a desmistificação a reverência de uma cultura que é base da identidade vernáculo, mesmo que desvalorizada.
As colaborações com mulheres segmentadas no ramo, e também iniciadas na religião, uma vez que Luedji Luna e Liniker, dão melhor sustentação ao noção escolhido. Além da aproximação de talentos jovens uma vez que Ebony, Melly e Os Garotin.
Anitta é equede de um terreiro em Novidade Iguaçu, no Rio de Janeiro, do babalorixá Sérgio Pina. Levante é um incumbência do candomblé escolhido pela nume em sarau pública e pelo jogo de búzios, onde àquela determinada pessoa é entregue a função de ser “mãe” do orixá.
Não entra em transe e, posteriormente a “confirmação” no instruído, se torna responsável por diversas funções, uma vez que cuidar dos noviços recém-iniciados, do orixá, do espaço religioso, do preparo da comida, das vestimentas e das festividades.
Ritualisticamente, se abre o caminho com Exú. Portanto fica ao pensão da primeira cantiga do disco, “Desgraça”, transfixar os trabalhos.
No clipe, se vê o queimação, as velas, as cores vermelho e preto, um buquê de rosas com cigarros e a própria Anitta, que aparece em vestes vermelhas, segurando um tridente.
Ela dança, põe as mãos nos quadris e se arqueia para trás ao som de uma gargalhada. É uma referência direta às pombagiras. Elas, entidades femininas do instruído a Exú —entidade, e não orixá—, são associadas à solução de questões de ordem material, interrelacional e místico.
“Cruzou sete encruzilhadas só pra me encontrar/ Me deu sete saias pra me impressionar.”
Uma robustez das ruas, da liberdade feminina, da encruzilhada e do paixão —próprio e romântico. São mulheres que em vida atuaram em função da resistência, e que retornam com ensinamentos transgressores, sendo esse o roda que Anitta conecta à linguagem do clipe.
O termo pomba gira é de origem quimbundo, de “pambu-a-njila”, semelhante a “Bombogira”, do candomblé de Angola, que significa o lado feminino do inquice Aluvaiá —similar ao Exú iorubá.
O instruído é associado às umbandas —de diferentes origens—, e à outras religiões afro-brasileiras e pindorâmicas que cultuam práticas a partir da interação com ancestrais por meio do transe, uma vez que quimbanda e jurema sagrada. O candomblé, em suas diferentes estruturas, aderiu ao instruído em esferas distintas.
A independência também é uma prelecção dessas mulheres, e em “Mandinga”, inspirada no clássico “Esquina de Ossanha” —referência ao orixá Ossain, possessor do conhecimento das ervas—, a cantora defende a autenticidade emocional em dupla com Marina Sena.
É importante manifestar que os cultos mencionados não praticam uma filosofia que crê na binaridade do mundo e nos valores cristãos tradicionais que compreendem o muito e o mal uma vez que dicotômicos e separados.
Exú —entidade e orixá— é um exemplo disso. Essas categorias são interativas e não moralizadas, tão pouco creem em pena eterna e na imagem frequentemente associada a elas uma vez que forma de violência, ou seja, o Diabo.
“Nem no teu jogo de búzios você vai me ver”, canta Anitta em “Desgraça”. O jogo de búzios é um oráculo divinatório, que aparece diversas vezes nos visuais e nas composições uma vez que referência. É formado de conchas africanas, que são combinadas e lidas em combinações numéricas organizadas pela filosofia de Ifá. Nelas, se lê o direcção determinado por cada odú —ou caminho.
“Tive que invocar Oxum/ No rio me banhar/ Dona das águas que guarda o tesouro/ E a minha pele refletindo ouro.”
Em clipe publicado na última quinta-feira (7), Anitta faz um compilado entre os feats do álbum, com “Ternura”, “Bemba” e “Caminhador”, articulando uma vez que narrativa contínua trechos de si e do país.
Oxum é Yabá, orixá feminina, de instruído associado às águas das cachoeiras, ao ouro, à origem do mundo, às mães e ao processo de gerar a vida. Em uma união da santa com Oxóssi –orixá caçador, ligado à saciedade, à lucidez, aos frutos e aos animais– nasceu Logun Edé, o santo de quem Anitta é filha.
O frame que exibe as caixas de som, dentro de um grande balaio de flores dentro da catarata, é uma metáfora visual para uma oferenda, um ebó, jubilidade sonoro direcionado a Oxum. Vestida de azul, segurando o abebê, o espelho de Oxum, e o roda e flecha de Oxóssi, ela é Logun, jovem que equilibra a caça e a venustidade, o mel e a firmeza. É um orixá da guerra e da chuva e de suas coabitações.
Em “Bemba”, o destaque do clipe é a cozinha, conhecida uma vez que a segmento mais importante de um terreiro. No candomblé, o preparo da comida requer conhecimento. Ou por outra, todos comem e em sociedade —os filhos, os santos, o sagrado, as árvores e a rua. É onde também se reúnem as mais velhas, uma vez que demonstrado.
A elaboração também destaca esses elementos fundamentais —as comidas de terreiro, uma vez que o abará e o vatapá, e o macassá, relva sagrada utilizada em banhos ritualísticos.
A seguir, pela imagem da puerícia, a gaiato é também sagrada. Anitta retoma às referências na crença ao direcção e ao manjar de um caminho a ser seguido. Em “Caminhador”, também as festas populares são a fé uma vez que sustentação da vida —o Mestiço de Lança, do Maracatu, e o Bastião, o palhaço nas Folias de Reis.
Ao contrário de “Funk Generation”, disco de 2024, o projeto atual prioriza o Brasil uma vez que consumidor. No entanto, a segunda metade do disco indica uma valorização da imagem brasileira em traduções para esferas internacionais, na utilização de símbolos que o Brasil conhece muito, mas envelopados em uma produção de padrão global.
Em tons de reggaeton, da música eletrônica e de “Várias Queixas” –clássico do Olodum, do samba-reggae– adaptada ao espanhol, fica a risca tênue entre “educar” o mundo sobre o candomblé, mesmo sem pretensão, ou seguir uma tendência vernáculo de utilização de identidades, uma vez que o sagrado, uma vez que um tanto de valor no mercado.





