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Mães de desaparecidos pedem visibilidade, memória e respeito
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Mães de desaparecidos pedem visibilidade, memória e respeito

Recordar cada pormenor e não deixar que ninguém esqueça. No sobressalto de ajustar no meio de tantas noites e, muitas vezes, sem dormir. No silêncio profundo e dolorido ou entre barulhos que ninguém mais parece escutar. Mães de filhos desaparecidos tentam transcrever todos os dias o que elas muito sabem ser intraduzível. 

Mulheres ouvidas pela Dependência Brasil têm, querem e exigem esperança. Em 2025, 84.760 pessoas desapareceram no Brasil.

“Quem sabe”, elas dizem em datas uma vez que o Dia das Mães, festejado neste domingo (10). Quem sabe elas terão mais atenção, mais ação, mais olhares e fôlego. Mais luzes no labirinto que a vida se transformou.

Elas buscam filhos recém-desaparecidos ou filhos que sumiram há décadas. Sonham em receber um amplexo e um “feliz dia das mães” de quem sumiu e, assim, fazer com que a vida volte a ter o sentido de antes.

Foram a becos escuros, conheceram a indiferença em delegacias e até preconceito nas ruas. Dores tão profundas da verdade que até a ficção procura transcrever.

“Mas eu não podia desistir, não enquanto houvesse uma mínima chance”, diz a personagem Kehinde, escrava no Brasil colonial, que procura o fruto sumido no romance Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves.

Dor uma vez que da operadora de caixa Rita Preta, em Coração sem Susto, de Itamar Vieira Junior, em sua procura desesperada pelo primogênito Alcides, que desaparece em Salvador (BA).


Brasília-DF – 09/05/2026 -Mães de desaparecidos pedem visibilidade, memória e respeito
Mulheres formam grupos para gerar redes de apoio. ( Clarice mãe das crianças do Maranhão) Foto: Arquivo pessoal
Brasília-DF – 09/05/2026 -Mães de desaparecidos pedem visibilidade, memória e respeito
Mulheres formam grupos para gerar redes de apoio. ( Clarice mãe das crianças do Maranhão) Foto: Arquivo pessoal

Clarice é mãe de Ágatha e Allan, desaparecidos em janeiro, no Maranhão – Registro pessoal

Dos romances para a vida real, a dor se multiplica e requer palavras que ainda não foram criadas, uma vez que no caso de Clarice Cardoso, de 27 anos, moradora da comunidade quilombola São Sebastião dos Pretos, na zona rústico de Bacabal (MA).

Os filhos dela, Ágatha Isabelle, de 6 anos, e Allan Michael, de 4, desapareceram depois que saíram para galhofar e procurar maracujá na mata perto de moradia no dia 4 de janeiro deste ano, com o primo Anderson, de 8 – que foi encontrado.

Clarice também é mãe de André, de 9 anos. Em entrevista por telefone à Dependência Brasil, ela disse que, em meio ao pesadelo que a família vive há mais de quatro meses, tem exposto com o amplexo quotidiano do fruto mais velho.

“Ele entende tudo o que está acontecendo e temos conversado muito com ele”, afirma emocionada.

O garoto voltou para escola. Ele vê a mãe e o pai Márcio – que trabalha uma vez que montador autônomo –, com a vida em suspenso.

“A cada relação que eu recebo, penso que pode ser uma novidade, alguma pista”, diz Clarice.

Neste domingo de Dia das Mães, ela pede que o País se lembre dos filhos dela e que mais gente possa ajudar. Todo dia é a mesma rotina em procura de solidariedade e informações com a polícia. 


Brasília-DF – 09/05/2026 -Mães de desaparecidos pedem visibilidade, memória e respeito
Mulheres formam grupos para gerar redes de apoio. Foto: Arquivo pessoal
Brasília-DF – 09/05/2026 -Mães de desaparecidos pedem visibilidade, memória e respeito
Mulheres formam grupos para gerar redes de apoio. Foto: Arquivo pessoal

Papeleta para as buscas aos irmãos que desapareceram em Bacabal (MA)  – Registro pessoal

Preconceito

A delegacia fica no núcleo da cidade, distante 12 quilômetros de onde Clarice mora. Não bastasse a dor estável, ela conta que, quando vai à cidade, ouve ou percebe comentários com julgamentos maldosos. Ela admite que pode possuir racismo. “As pessoas me olham. Algumas parecem ser solidárias. Mas muitas têm preconceito sim”, lamenta.

Além do marido e do fruto, Clarice vive com a mãe, que acabou sofrendo um acidente de moto em uma das viagens até Bacabal em procura de informações sobre as crianças.

“Ela se machucou nas mãos e agora eu tenho que fazer mais coisas para minha moradia e minha família. Mas minha vida está paragem”.

À Dependência Brasil, Clarice diz que a investigação policial indica que poderia possuir um varão que teria tido contato com as três crianças na mata. No entanto, oficialmente, a polícia sítio afirma que todas as informações estão sendo averiguadas e que se empenha na elucidação dos desaparecimentos.    

Rede de suporte

Formar uma rede de suporte para que ninguém se sinta sozinha no meio da luta e da dor tem feito a diferença. A paulista Ivanise Espiridião, de 63 anos, procura pela filha Fabiana desde 23 de dezembro de 1995.


Brasília-DF – 09/05/2026 -Mães de desaparecidos pedem visibilidade, memória e respeito
Mulheres formam grupos para gerar redes de apoio.  (Evanise com filha e neta) Foto: Arquivo pessoal
Brasília-DF – 09/05/2026 -Mães de desaparecidos pedem visibilidade, memória e respeito
Mulheres formam grupos para gerar redes de apoio.  (Evanise com filha e neta) Foto: Arquivo pessoal

Ivanise com a filha Fagna e a neta Eva, de 7 anos – Registro pessoal

A filha desapareceu quanto tinha 13 anos de idade e, para pacificar o sofrimento e formar uma rede de suporte pátrio, Ivanise criou o grupo Mães da Sé. Em 2026, ela passa pelo 30º dia das mães sem a filha.

“O Dia das Mães desculpa uma mistura de sentimentos, de ser lembrada pelos filhos que estão conosco e tristeza por não ter uma pessoa que faz secção dessa família e que está ausente”, afirma.

O consolo hoje virá em forma de longos abraços da filha Fagna, de 43 anos, e da neta, Eva, de 7 anos.

O grupo Mães da Sé também se transformou em uma outra família, unida pela dor e esperança por respostas. Ela começou essa ação há 30 anos com mães que ela conheceu e que passavam por situação semelhante.

Levavam cartazes para dar visibilidade às histórias: “Virou um dia muito triste para nós”. O grupo continuou por outros caminhos, mas Ivanise se sentia destruída depois do dia na escadaria da catedral. 

“A dor multiplicava. Parecia que ficava mais doída. A gente resolveu que, no dia das mães, a gente não ia mais para a Terreiro da Sé. Nós íamos dar atenção para os nossos filhos que estão ao nosso volta”. 


Brasília-DF – 09/05/2026 -Mães de desaparecidos pedem visibilidade, memória e respeito
Mulheres formam grupos para gerar redes de apoio. ( Fabiana - filha da Ivanise). Foto: Arquivo pessoal
Brasília-DF – 09/05/2026 -Mães de desaparecidos pedem visibilidade, memória e respeito
Mulheres formam grupos para gerar redes de apoio. ( Fabiana - filha da Ivanise). Foto: Arquivo pessoal

Ivanise transformou a dor de perder a filha e luta por outros desaparecidos – Registro pessoal

Atualmente, o grupo reúne mais de seis milénio mães no país – a maior secção de São Paulo. Uma estratégia que ajuda na pronunciação do grupo é o aplicativo Family Faces. A tecnologia utiliza reconhecimento facial para facilitar na localização de pessoas desaparecidas, comparando fotos tiradas pelos usuários com o banco de dados da associação. 

Ivanise transformou sua dor em ativismo e ação. Ela trabalha todos os dias para levar suporte e orientação para mães e familiares de desaparecidos. Sabe também que é necessário ter desvelo consigo mesma. 

“A nossa desculpa não tem horário nem dia específico. Mesmo quando eu viajo ou tiro férias, levo o celular da associação. Todos os dias, a gente recebe pedidos de ajuda de pessoas que tem alguém sumido”, ressalta.

Tapume de 42% dos desaparecidos são encontrados. 

Uma das orientações que ela dá ao grupo é que uma pessoa não precisa esperar um ou dois dias para procurar uma delegacia para notificar um desaparecimento.

“Ninguém tem que esperar 24 horas. Mas essa prática abusiva ainda acontece porque as famílias que são vitimadas pelo desaparecimento são muito simples e desconhecedoras de direitos”. 


Brasília-DF – 09/05/2026 -Mães de desaparecidos pedem visibilidade, memória e respeito
Mulheres formam grupos para gerar redes de apoio. ( Ivanise na escadaria da Sé). Foto: Arquivo pessoal
Brasília-DF – 09/05/2026 -Mães de desaparecidos pedem visibilidade, memória e respeito
Mulheres formam grupos para gerar redes de apoio. ( Ivanise na escadaria da Sé). Foto: Arquivo pessoal

Ivanise na escadaria da Sé – Registro pessoal

A Lei nº 11.259 determina que a mando policial que fizer a ocorrência do desaparecimento de garoto e jovem tem que fazer a ocorrência imediatamente e debutar as buscas. 

Embora sejam assuntos doloridos, Ivanise e a filha Fagna não deixam de explicar para Eva o que aconteceu com a tia Fabiana:

“Desde muito cedo a gente ensinou a ela o nome completo, o nome do pai, o nome da mãe. E diz que a avó é uma mãe da Sé, ativista e lutadora”.

Suporte

Concordar-se na família é fundamental. Mas ter aproximação a suporte psicológico profissional também é muito importante. Em casos assim, é generalidade ocorrerem transtornos mentais uma vez que depressão ou crises de pânico e sofreguidão. O grupo Mães da Sé conta com cinco voluntários que atendem pessoas de forma remota. 

A psicóloga Melânia Barbosa, que também pesquisa o tema dos desaparecidos, explica que a dor da pouquidade tem características particulares. Por isso, ela entende ser muito importante que o poder público proporcione suporte emocional aos familiares. Cabe, de outra forma, às pessoas próximas estar ao lado, escutar e acomodar sem querer dar uma resposta que não existe. 

“O principal é você saber que tem alguém ao seu lado e não se sentir sozinho”. Para a pesquisadora, os grupos de suporte fazem com que as pessoas recordem que não estão sozinhas.

“Que tem pessoas que a amam e que elas amam e dão motivos para elas enfrentarem essa luta”.

Ela considera que, culturalmente, as mulheres sempre estiveram ligadas ao desvelo do outro – supra de tudo, dos filhos. “Por isso, elas permanecem vinculadas aos seus, mesmo doentes, presos ou desaparecidos”.

Ela acrescenta que os profissionais da psicologia também precisam se capacitar mais para atender esses casos.

“Existem mais pesquisas atualmente sendo desenvolvidas, mas ainda tem muito a ser revelado. Portanto, não é secção habitual da formação do psicólogo ou do médico. É um matéria incógnito”, explica. 

Choque de verdade

Quem também procura cuidar de pessoas em dor é outra paulista, Lucineide Damasceno, de 60 anos, que integra o Mães da Sé. Ela, que era cabeleireira, também criou uma ONG chamada Abrace, a termo de proporcionar suporte (inclusive de sustento) a familiares mais necessitados de pessoas desaparecidas.


Brasília-DF – 09/05/2026 -Mães de desaparecidos pedem visibilidade, memória e respeito
Mulheres formam grupos para gerar redes de apoio.( Felipe filho de Lucineide) Foto: Arquivo pessoal
Brasília-DF – 09/05/2026 -Mães de desaparecidos pedem visibilidade, memória e respeito
Mulheres formam grupos para gerar redes de apoio.( Felipe filho de Lucineide) Foto: Arquivo pessoal

Felipe, fruto de Lucineide desapareceu em 2008 – Registro pessoal

O fruto de Lucineide, Felipe, sumiu aos 16 anos, em 3 de novembro de 2008, depois que saiu de moto para encontrar um colega chamado Vinícius (que também desapareceu). 

Foi em 2013, depois de uma crise de pânico, que ela resolveu ir além da procura por seu fruto. Resolveu se tornar ativista: “Quando eu conheci mulheres que procuravam seus filhos há muito tempo, foi um choque de verdade”.

Com o grupo, ela conta que se sentiu amparada durante a procura. Às vezes, ela vai para a Terreiro da Sé “destruída por dentro”, mas o amplexo de outras mães muda o que sente. Ela se reconhece nas outras pessoas. 

Apesar da dor e das lembranças, há sempre a esperança. “Eu não quero mudar daqui porque eu tenho a esperança de o Felipe espancar no portão e proferir: ‘mãe, estou cá’”.


Brasília-DF – 09/05/2026 -Mães de desaparecidos pedem visibilidade, memória e respeito
Mulheres formam grupos para gerar redes de apoio. (  Lucineide na escadaria da Sé.). Foto: Arquivo pessoal
Brasília-DF – 09/05/2026 -Mães de desaparecidos pedem visibilidade, memória e respeito
Mulheres formam grupos para gerar redes de apoio. (  Lucineide na escadaria da Sé.). Foto: Arquivo pessoal

Lucineide na escadaria da Sé com outras mães de desaparecidos pessoal – Registro pessoal

Além de Felipe, Lucineide tem mais dois filhos, Amanda e Anderson, e dois netos, Gustavo, de 11 anos, e Gabriel, de 9. “Explico para não conversar com estranhos e não entrar no coche de ninguém”.

A família se acostumou ao traje de Lucineide evitar eventos festivos no dia das mães. Mas a família costuma buscá-la para almoços.

“Eu comecei a admitir. Eu faço um esforço muito grande para que eles entendam que, apesar de eu estar triste, de eu estar ali naquela situação, eles também fazem secção da minha vida e são especiais para mim”, diz.

Zero uma vez que receber o amplexo dos netos. Zero uma vez que receber alguma notícia de outra mãe que teve a alegria de encontrar um fruto sumido.

Lucineide gosta de recordar o fruto entusiasmado, em seus sonhos de jovem, da escola e do prazer que tinha em jogar futebol.

No final do ano, Lucineide Mantém um hábito: há duas décadas coloca o presente do Felipe embaixo da árvore de Natal. Guarda um por um, todos os anos, na esperança de que Felipe volte um dia e receba os mimos.

Por enquanto, aguarda também notícias, abraços e apelos para que ninguém se esqueça.

 




Fonte EBC

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