Exposição reúne obras de Portinari no Palácio Capanema – 25/10/2026 – Ilustrada
Descrita objetivamente, a série encomendada a Candido Portinari para o salão de recepção do Palácio Gustavo Capanema, no núcleo do Rio de Janeiro, não inspira muito exaltação. O conjunto de 12 murais ilustra os “Ciclos Econômicos Brasileiros”, da colonização até a industrialização, a partir de uma palestra sobre o tema.
O resultado não é zero protocolar, no entanto. Pintadas em afresco, as obras transbordam o estilo de seu responsável, seja nas suas cores terrosas típicas, seja na desproporção dos pés e das mãos que caracterizam as suas figuras humanas.
Mais importante, elas transgridem o pedido solene do governo varguista ao mostrar a extração do pau-brasil, da cana, do moca e da borracha do ponto de vista do trabalhador. “Portinari poderia ter pintado uma colheita de algodão, sem nenhum personagem, ou uma plantação de cacau. Mas não fez isso. Fez um brasílio”, diz o curador de arte Rafael Peixoto.
Quem visitar os painéis até 12 de novembro terá a oportunidade de saber também os bastidores de sua produção. A exposição “Portinari e o Brasil Moderno”, idealizada por João Paulo Mansini, do CAU-RJ, o Juízo de Arquitetura e Urbanismo do Rio de Janeiro, reúne rascunhos e desenhos de transferência, usados para passar os esboços para a superfície onde são pintados na graduação correta, de várias partes dos murais.
Tanto Mansini quanto Peixoto —nascente, curador convidado ao lado de Marcus Lontra— afirmam que, ao revelar esse processo criativo, a mostra procura tirar o público do lugar passivo a que muitas vezes é relegado, convidando-o a refletir sobre o que o artista pensava quando concebeu a obra.
De vestimenta, secção do atrativo de “Portinari e o Brasil Moderno” é tentar identificar nas paredes as versões finais dos desenhos exibidos em cavaletes no salão. Um dos indígenas de “Pau-Brasil” tem muito mais detalhes no estudo do que na pintura acabada. De olhos fechados no traçado, a moça de “Algodão” chora no mural.
O principal objetivo da mostra é, no entanto, atrair o público para o Capanema, que só voltou a receber visitantes no ano pretérito, depois de muro de uma dezena em obras.
Construído entre 1937 e 1945 para acoitar o Ministério da Ensino e Saúde da ditadura de Getúlio Vargas, ele é considerado o primeiro prédio modernista brasílio encomendado pelo Estado.
Seu projeto é assinado por ninguém menos que Le Corbusier, pai da arquitetura moderna. Foi a ele que o ministro varguista que dá nome ao prédio recorreu depois de se negar a reconhecer o vencedor de um concurso lhano justamente para escolher o traçado do prédio.
A construção ficou a incumbência de brasileiros, no entanto, que se apropriaram do projecto e o dotaram da própria assinatura. Participaram da empreitada nomes que depois se tornariam os principais do modernismo do país, incluindo Lúcio Costa, urbanista de Brasília, Affonso Eduardo Reidy, responsável do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, e até um jovem Oscar Niemeyer.
Portinari, aliás, também colaborou com muito mais do que os “Ciclos Econômicos Brasileiros”, assinando ainda o mural em temperatura “Jogos Infantis”, de mais de 60 metros quadrados e, mais notavelmente, os azulejos com temas marinhos que revestem toda a frontispício e o marchar térreo.
O prédio continuou a servir propósitos administrativos posteriormente o término da ditadura varguista, e, quando foi fechado para reformas pela primeira vez, em 2014, abrigava uma representação lugar do Ministério da Cultura, o MinC.
Na era, seus elevadores já tinham sofrido tantas falhas técnicas que os servidores que trabalhavam ali chegaram a fazer uma paralisação para invocar a atenção para a falta de conservação dos equipamentos.
Mesmo fechado, o prédio continuou, a seu modo, figurando na história do país.
Em 2016, foi ocupado por manifestantes contrários ao término do MinC, decretado pelo governo Michel Temer (MDB). Em 2021, durante a gestão Jair Bolsonaro (PL), foi ameaçado de venda à iniciativa privada pelo logo ministro da economia, Paulo Guedes —a Justiça Federalista impediu a transação.
O Capanema só foi reabrir oficialmente no ano pretérito. Sua primeira iniciativa foi receber de volta seus moradores originais, representantes do MinC e de várias das autarquias vinculadas à pasta —hoje estão alocados ali os escritórios regionais do Iphan, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Pátrio, da Funarte, a Instalação Pátrio de Artes, do Ibram, o Instituto Brasiliano de Museus, da Livraria Pátrio e, mais recentemente, da Instalação Moradia Rui Barbosa.
Portanto, no início deste ano, o MinC estruturou uma unidade para cuidar especificamente da agenda cultural do prédio.
Patrícia Fróes, coordenadora de programação do Capanema, conta que ele recebeu diversas residências artísticas nos últimos meses. Mais recentemente, entre setembro e outubro, inaugurou três exposições temporárias em sequência: uma individual de Thaís Iroko, a coletiva “Cidade Batucada” e, enfim, “Portinari e o Brasil Moderno”, das quais subtítulo é “Os Murais do Palácio Capanema”.
A última foi concebida uma vez que secção da Conferência Estadual de Arquitetura, realizada pelo CAU-RJ a cada três anos. Mansini foi um dos coordenadores do evento —segundo ele, o recomendação entendeu que era importante ocupar o palácio recém-aberto.
Ele acrescenta que o projecto é manter a parceria do CAU-RJ com o prédio, produzindo exposições que resgatem a história da arquitetura e do urbanismo no estado do Rio de Janeiro. “Existe um potencial gigantesco. Basta ver onde estamos. Temos obras-primas à nossa volta”, diz.
Ele cita o Associação da Bahia, prédio vizinho ao Capanema que, uma vez que ele, é outro ícone da arquitetura modernista, e a sede da Câmara Municipal, desenhada por Archimedes Memória —arquiteto que venceu o concurso para a construção varguista, mas que teve seu projeto descartado em obséquio daquele de Le Corbusier.
Fróes, por sua vez, afirma que o Capanema tem uma vocação pública que nunca foi desenvolvida. “Nossa teoria é que ele deixe de ser um monumento que admiramos para ser um pouco que usamos”, ela diz. “Estamos descobrindo uma vez que se ocupa um palácio.”




