O teatro, em sua origem, é um invitação ao encontro, mas o que Marcella Muniz propõe nesta transposição da obra de Valérie Perrin é uma reunião de natureza distinta: um mergulho no silêncio que habita o luto e, surpreendentemente, na luminosidade que dele pode dimanar. A montagem brasileira de “Chuva Fresca Para as Flores” não se limita a transpor um fenômeno editorial para o palco; ela estabelece um ritual de trato que humaniza a perda através de uma estética de extrema delicadeza.
A premissa, embora ambientada em um cemitério na Borgonha, leste da França, subverte o que se espera do lúgubre. Violette Toussaint, a zeladora interpretada por Marcella, transforma o campo santo em um jardim de reticências. Ela não cuida exclusivamente de lápides; faz a curadoria das saudades alheias enquanto preserva, no recôndito da espírito, suas próprias feridas. É no gesto cotidiano de oferecer um moca quente ao incógnito ou de registrar meticulosamente as histórias de quem já partiu que a personagem revela sua resistência. Violette nos ensina que a dor não precisa ser um grito; ela pode ser a chuva mansa que rega as flores todas as manhãs.
Há uma munificência rara na atuação de Marcella Muniz. Em seu primeiro solilóquio posteriormente décadas de curso, a atriz habita Violette com uma pundonor sóbria, fugindo do melodrama óbvio. Sua atuação é feita de sutilezas: o peso de um olhar, a precisão de um silêncio, a economia dos movimentos. Em vez de expor a dor uma vez que espetáculo, Marcella convida o público a senti-la nos intervalos, permitindo que cada testemunha preencha as lacunas da cena com suas próprias vivências e memórias.
A direção de Bruno Costa compreende que certas narrativas exigem o saudação ao tempo interno do maduração. O ritmo do espetáculo, meditativo e propositalmente moroso, funciona uma vez que um contraponto necessário ao sonido e à pressa do mundo contemporâneo. A visualidade da peça, onde o doméstico e o lúgubre se fundem em uma cenografia simbólica, reforça essa sensação de tempo suspenso.
Ao transitar por temas uma vez que o desabrigo, a violência silenciosa de um tálamo tóxico e a perda irreparável, a montagem evita o desfaçatez. O que se vê em cena é o gabo à resiliência e a investigação de uma felicidade que, embora obstinada, teima em florescer mesmo nos terrenos mais áridos.
Três perguntas para…
… Marcella Muniz
Violette Toussaint vive cercada pela morte, mas transborda vida e desvelo. Uma vez que foi para você, uma vez que atriz, encontrar o estabilidade para que essa luminosidade da personagem não se perdesse diante do cenário lúgubre?
Meu encontro com a Violette foi quase inopino. Quando estava na metade da leitura do livro eu já visualizava aquela história, que tem mais de 20 personagens, exclusivamente com ela no palco. O que me fascinou foi justamente o veste de ela passar pelas dores mais pesadas e conseguir me convencer a seguir em frente com a leveza que ela escolheu ter. Porque é exatamente sobre isso: são escolhas.
Violette faz a escolha consciente pela delicadeza. Para levar isso ao palco, contei com o Bruno Costa, que fez a adaptação e a direção com maestria, captando exatamente o que eu visualizei: uma mulher que não ignora as dores, mas as acolhe com flores, fazendo dessa atitude uma semelhança para a própria vida. Eu me tornei fã da Violette antes de interpretá-la. Idealizei o espetáculo porque senti a urgência de propagar essa mensagem de que é verosímil conduzir nossos lutos e términos com mais suavidade. A luminosidade dela não se perde no cenário lúgubre porque ela é o próprio jardim que cultiva.
A peça toca em feridas profundas, uma vez que a perda de um fruto e relacionamentos tóxicos. De que forma dar vida a essa jornada de libertação da Violette ressoa na sua própria visão sobre a resiliência feminina?
A jornada da Violette é um espelho de muitas realidades que, às vezes, preferimos não olhar. Para mim, a resiliência feminina cá não é sobre ‘sustentar tudo’, mas sobre a capacidade de transmutar. Dar vida a essa libertação me faz reafirmar que a nossa força reside na reconstrução.
A Violette vive o luto mais insuportável que existe, a perda de um fruto, e sobrevive a um relacionamento tóxico que a anulava, mas ela não se torna amarga. O que me move nessa história, além da resiliência, são os temas tão pertinentes. Falamos da maternidade em suas faces mais cruas, do desabrigo, e de alguma coisa que me toca profundamente: a profissão invisível. A Violette é uma zeladora de cemitério; ela representa milhares de mulheres que mantêm o mundo funcionando nos bastidores, sem serem vistas, mas com uma pundonor inabalável.
E tem também a razão bicho, que aparece na peça de forma tão orgânica e afetuosa, mostrando que o desvelo dela se estende a todos os seres. Para mim, interpretar essa jornada é entender que a libertação feminina acontece quando validamos todas essas nossas camadas: a dor, o trabalho, o luto e, finalmente, o nosso recta à alegria.
A peça exige uma “disponibilidade afetiva” de quem assiste, já que o ritmo é meditativo e não procura catarses fáceis. Uma vez que tem sido a troca com o público ao final de cada sessão? Você sente que as pessoas saem do teatro diferentes do que entraram?
Não tem um dia sequer em que alguém não venha me recontar alguma coisa posteriormente a sessão. As pessoas sentem uma urgência genuína de compartilhar uma vez que a peça as fez enxergar o luto de outra forma, ou uma vez que as ajudou a processar uma separação dolorosa. Eu já ouvi de tudo; se eu fosse apontar cada relato, precisaria redigir um livro só com esses depoimentos.
É exatamente onde eu queria chegar. Ver que toda a minha garra, e também a do Bruno Costa na produção, está alcançando o coração das pessoas é a maior recompensa. O objetivo sempre foi plantar um pouco da Violette em cada um que assiste. Sinto, sim, que o público sai dissemelhante, porque o espetáculo não oferece respostas prontas, ele oferece companhia para a dor. Ninguém sai incólume, nem o público, nem eu, que vivo essa história todos os dias no palco.
Teatro UOL – avenida Higienópolis, 618 – Higienópolis, região oeste. Sábado e domingo, 18h. Até 26/4. Duração: 75 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. R$ 160 (inteira) setor A, em
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