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Felipe Hintze faz monólogo sobre apatia e violência 08/09/2026
Celebridades Cultura

Felipe Hintze faz monólogo sobre apatia e violência – 08/09/2026 – Mise-en-scène

Em um tempo saturado de estímulos visuais, sentir qualquer coisa tornou-se uma tarefa quase árdua. “Proibido para Menores de 18 Anos”, concebido e escrito por Felipe Hintze e Nicolas Ahnert, segmento exatamente desse ponto cego da sensibilidade moderna.

Em edital no Teatro Estúdio, em São Paulo, o espetáculo coloca Hintze no meio do palco em seu primeiro solilóquio, interpretando um varão que trabalha na última lan house sobrevivente de uma metrópole. O espaço, já anacrônico, serve porquê metáfora para uma existência que perdeu a conexão com o mundo real. Ali, a vida corre mediada pelo clarão azulado dos monitores.

A ruptura dessa rotina monótona surge com um acidente de trânsito visto por contingência na rua. Diante da lataria retorcida e do morto do motorista, o protagonista experimenta um estalo que a vida generalidade já não lhe oferecia. O choque transforma-se em fascínio.

O atendente passa a vasculhar a vida do morto, descobre suas senhas, persegue seus rastros digitais e telefona repetidamente para a ex-namorada da vítima, cuja presença surge na voz de Débora Falabella em off. A dor do outro vira incitamento, um empréstimo de adrenalina para quem já não consegue produzir a própria.

A montagem bebe de referências claras, sem se tornar refém delas. Há um repercussão direto de Susan Sontag na forma porquê a plateia é confrontada com o consumo voyeurístico da tragédia, e uma legado de J. G. Ballard ao cruzar mesocarpo, metal e libido na esteira do sinistro.

A direção de Ahnert costura essa descida ao queda com câmeras ao vivo e projeções que remetem à crueza do horror documental, transformando o testemunha em testemunha do delírio. A luz cortante de Nicolas Caratori e o ilustração sonoro de Paulo Ocanha reforçam a sensação de enclausuramento dentro de uma mente em pane.

O préstimo do trabalho, todavia, repousa na recusa à afetação. Hintze, divulgado na televisão por papéis carismáticos e de refrigério cômico, constrói seu personagem a partir de um mecanismo próprio. Não há explosões teatrais. O colapso do protagonista manifesta-se no ritmo arrastado da fala, nos silêncios incômodos e na titubeação dos gestos dirigidos por Fernanda Salla.

Ao bancar a própria viradela artística com uma figura tão ambígua, o ator entrega um estudo sedento e preciso sobre a insensibilidade contemporânea, lembrando que a tragédia da nossa era talvez não seja a violência em si, mas a urgência desesperada de usá-la porquê prova de que ainda estamos vivos.

Três perguntas para…

… Felipe Hintze

A decisão de autofinanciar e encabeçar o projeto reflete uma urgência de gerar o próprio espaço diante da escassez de convites para papéis com essa densidade psicológica?

Proibido nasce de uma inquietação, de uma urgência de mostrar pro mercado facetas pessoais que em qualquer lugar eu já tinha investigado (porquê em “Verdades Secretas” e “Dupla Identidade”), mas que estavam adormecidas por ter feito trabalhos recentes mergulhados na comédia e na leveza.

O papel do gordinho engraçado já não me bastava mais. Também queria fazer um tanto dissemelhante no teatro, estava vendo muita repetição no cenário teatral e eu queria investigar um tanto dissemelhante. Ao determinar falar sobre violência e temáticas tão profundas percebi que a autonomia era o melhor caminho, há um risco gigantesco mas a liberdade é absoluta.

Uma vez que funcionou na prática a dinâmica de escrita a quatro mãos com Nicolas Ahnert? Em que momento a pesquisa teórica — principalmente o diálogo com Susan Sontag e J. G. Ballard — deixou de ser concepção e passou a moldar a voz desse atendente?

Fizemos meses de pesquisa sobre o tema violência, depois juntos montamos a estrutura da história e construímos os personagens. Depois dividimos: ele escrevia uma cena, depois eu escrevia outra, depois revisávamos o que cada um tinha escrito até finalizarmos o texto antes de entrar na sala de experiência.

Sontag e Ballard entraram inicialmente porquê referências onde investigamos a relação do consumo das imagens de violência e o libido porquê sátira principal do projeto, mas ao nos debruçarmos no cotidiano desse atendente percebemos que ele, ao se deparar com o acidente de trânsito, começa a viver de indumento as consequências da erotização da violência.

Eu vejo o público embarcando na vida pacata desse atendente depois desse indumento fatídico e se questionando o quanto consome esses conteúdos de violência no dia a dia.

Nesse momento a pesquisa deixa de ser uma referência e se torna narrativa e a catarse com o público acontece. E assim a mágica do teatro se faz, a história é contada. É isso que me fascina e me completa porquê artista, descrever boas histórias e trazer reflexão para o público.

O cenário da lan house aborda uma tecnologia quase obsoleta em meio a um debate bastante contemporâneo sobre hiperconectividade. O que essa penumbra analógica/do dedo diz sobre o isolamento do varão urbano hoje?

Fazer esse paradoxo de um varão hiperconectado em tecnologia com a lan house, que praticamente sobrevive porquê uma papelaria, serve para provar uma solidão profunda desse atendente. O excesso de informação, a facilidade do do dedo para resolver qualquer pendência, a dopamina liberada pelo cérebro que a internet provoca, tudo isso colabora para o isolamento do varão urbano.

Na nossa história, quando esse varão sai do seu lugar de trabalho e encontra na rua uma acidente com uma vítima trágico, ele se depara com um tanto tão real que enxerga vida e prazer em um tanto terrivelmente trágico. Esse é o ponto de partida para ele investigar a erotização da violência e sua provável desumanização.

Teatro Estúdio – Rua Mentor Nébias, 891, Campos Elíseos. Quinta, 20h30. Até 24/9. Duração: 65 minutos. Classificação indicativa: 18 anos. A partir de R$ 40 (meia-entrada e moradores do meio) em sympla.com.br


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Folha

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