Existe uma notória diferença entre esta edição do Festival de Veneza e outras mais recentes: desta vez, quase não há na disputa filmes badalados para o Oscar do ano que vem. O único longa a chegar ao Lido já na real exigência de provável concorrente à estatueta dourada, segundo sites especializados, é “Cavalo Selvagem Nove”, do inglês Martin McDonagh, exibido nesta quinta.
E, a depender das reações exaltadas do público e da prensa, o longa irá mesmo para a sarau hollywoodiana –e com força. É a história de um agente veterano da CIA, Chris, que por décadas trabalhou em zonas de conflito de países periféricos, tendo um invejável currículo de assassinatos e outras atrocidades. Ele agora está no Chile, a poucos meses do golpe contra Salvador Allende, em 1973, que iniciaria uma sanguinária ditadura militar no país.
Mas Chris enfrenta problemas de saúde e um patente nível de senilidade –inclusive, de uns tempos para cá, deu para falar por aí mais coisas do que um membro de um serviço de perceptibilidade deveria. Cabe a um companheiro de profissão, Lee, tentar contê-lo –e, ao mesmo tempo, investigar um sigilo de seu pretérito. Os dois fazem uma viagem à Ilhota de Páscoa, onde se conhecem melhor e, apesar dos temperamentos díspares, desenvolvem uma poderoso amizade.
O roteiro é habilidoso e repleto de falas mordazes, que garantem a comicidade do filme –embora pretérito nos anos 1970, o longa dialoga com as guerras culturais de hoje em dia, ao contrapor o velho e politicamente incorreto Chris e duas garotas de esquerda, de mente ocasião e meio hippie, que se chocam com as barbaridades que ele diz.
Chris é vivido com exuberância por John Malkovich, e desde a primeira cena se percebe que é um papel moldado para que ele finalmente ganhe seu Oscar. É um sujeito sem quase nenhum caráter, mas que tem lá seu tino de moral privado. Diz as coisas mais abomináveis na frente dos outros, mas faz isso com tamanha falta de hipocrisia que, estranhamente, apesar de ser uma pessoa execrável, acaba sendo um varão por quem é fácil ter dedicação.
E aí, talvez, esteja o grande risco do filme –e que talvez espante alguns espectadores: mostra uma dimensão humana, até deleitável, de um sujeito teratológico. E convida o testemunha a se emocionar e até, de patente modo, torcer por ele. Mas punir o filme por isso seria uma tolice, porque “Cavalo Selvagem Nove” está longe de ser uma apologia à malvadeza ou ao “opressor”: mostra Chris uma vez que o que ele é, um ser humano que passa por uma situação complicada, sem solução. E o trajo de nos comovermos com ele não quer proferir que apoiamos o que ele já fez; exclusivamente nos mostra que nós, também, ainda somos humanos.
O filme eleva Malkovich à profundidade onde ele merece ser alçado, mas a grande performance, no fundo, é a de Sam Rockwell, que não é exclusivamente uma “escada” para os grandes momentos do colega de cena. Suas reações –perplexo diante das sandices que o companheiro fala, mas também dolorosamente ferido diante do sofrimento do colega– demonstram o quanto ele é um ator melhor que o simples maneirista que muitos costumam considerá-lo. Os dois fazem uma formidável parceria.
Mas talvez ainda mais impressionante seja a colaboração entre Rooney Mara e sua mana na vida real, Kate Mara, em “Bucking Fastard”, outro filme exibido na competição. Dirigida pelo boche Werner Herzog, a trama se inspira nas gêmeas Chaplin, estranho duo de irmãs inglesas que eram tão unidas que só falavam em uníssono, não desgrudavam uma da outra e tinham crises de histerismo se afastadas.
No filme elas se chamam Holbrooke, e a trama começa quando respondem à Justiça por seu comportamento depois que um varão –que namorava as duas literalmente ao mesmo tempo–as despacha. Sem concordar o termo do romance, as irmãs começam a fazer arruaças para infernizar a vida do rapaz –traquinagens leves, mas que por vezes iam longe demais, uma vez que quando ateiam queimada ao carruagem dele.
Livres do imbróglio judicial, mudam-se de cidade, mas a bizarrice de seu comportamento as havia tornado famosas. Não eram más, exclusivamente estranhas. O filme mostra as duas tentando qualquer estabilidade nessa complicada vida em dueto, até que decidem cavar um túnel que elas acham que pode levá-las a um lugar em que viverão em sossego.
A insanidade, seja em seus aspectos mais excêntricos, espetaculares, ou nos mais vitimizantes, que aludem ao quanto a “normalidade” pode ser opressiva, sempre despertou interesse em Herzog. Que por sua vez tratava do tema em filmes com tamanho fascínio pela loucura que eles próprios sugeriam ser obra de um artista ensandecido –ou, na melhor das hipóteses, com alguns parafusos a menos.
“Bucking Fastard” não parece propriamente o filme de uma mente perturbada, mas a de alguém não muito patente de qual caminho percorrer para transmitir sua mensagem. Tem uma serenidade que demonstra que Herzog mudou bastante em relação aos tempos de suas grandes obras-primas delirantes, uma vez que “Fitzcarraldo”, de 1982.
Ele ainda se diverte com a maluquice de seus personagens, mas o foco cá é em sua inocência e fragilidade. O filme se deixa contaminar por essa visão demasiadamente romântica sobre a pureza e ingenuidade das irmãs, e o excesso de virgindade torna o filme por demais edulcorado, quando não fastidioso. Mas salva-se o trabalho de mímese que as irmãs Mara fazem em cena, um pouco sem par na história no cinema.





