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Flávio explorou o antipetismo, mas subestimou o antibolsonarismo 27/10/2026
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Flávio explorou o antipetismo, mas subestimou o antibolsonarismo – 27/10/2026 – Wilson Gomes

A surpreendente vitória de Flávio Bolsonaro no primeiro vez pode ter sido o evento que tornou verosímil sua rota no segundo. O resultado produziu um choque que segmento do eleitorado teve três semanas para assimilar. A hipótese pode parecer paradoxal, mas dá para explicar.

Em psicologia política, chama-se “priming” o processo pelo qual acontecimentos reativam lembranças e avaliações, aumentando seu peso nos julgamentos. Não é necessário que alguém mude de opinião para mudar de voto. Basta que razões anteriormente secundárias passem a ser consideradas decisivas. O votante pode continuar insatisfeito com Lula, preocupado com o dispêndio de vida, mas, diante da possibilidade concreta de outro Bolsonaro na Presidência, passar a dar relevância muito maior àquilo que recorda do governo anterior.

E havia muito a recordar. As mortes da pandemia, os ataques às instituições, a tentativa de golpe de Estado, a brutalidade da taxa ambiental, a agressividade, as afrontas, o desprezo por adversários e críticos. Tudo aquilo que, para muitos, havia transformado os anos Bolsonaro numa experiência política exaustiva e angustiante. A eleição deixou de ser exclusivamente um julgamento sobre o governo Lula e passou a envolver também a pergunta que não se imaginava precisar fazer novamente: vamos viver tudo aquilo outra vez? Essas pessoas que mudaram de foco talvez representem numericamente uma segmento da diferença de votos.

A reação pode ter ocorrido de duas maneiras. Entre lulistas até portanto desanimados ou convencidos da própria insuficiência, a perspectiva da rota teria produzido uma mobilização defensiva extraordinária. Entre eleitores independentes, sem peculiar apreço pelo lulismo, pode ter reativado a repudiação ao bolsonarismo. Os primeiros encontraram razões urgentes para agir. Os segundos, razões suficientemente fortes para vetar Flávio.

A campanha bolsonarista, embalada pelo primeiro vez, talvez tenha ajudado involuntariamente nesse processo. O clima de vitória antecipada tornou-se preponderante. Flávio anunciou que receberia a filete presidencial das mãos do próprio pai, uma vez que se a sucessão fosse um objecto de família e o eleitorado já tivesse cumprido sua segmento. Nos bastidores, aliados já disputavam ministérios, enquanto integrantes da futura equipe se apresentavam publicamente uma vez que se já estivessem no poder. Para os apoiadores, tudo isso podia parecer crédito na vitória. Para outros eleitores, porém, podia despertar lembranças da arrogância, da insensibilidade e da voracidade associadas aos bolsonaristas no poder.

Os debates forneceram outros estímulos. No primeiro, Flávio era um combo. Marçal nas provocações, ataques pessoais e tentativas de substituir a discussão política pelo espetáculo da hostilidade. Trump na projeção corporal intimidatória e vexante do competidor. No pausa, Nikolas e Pavanato davam o toque “zoeiro e moleque” no tratamento dos adversários. No segundo debate, Flávio chamou Lula de “nove dedos”. Pediu desculpas, mas o incidente já havia exposto o estilo malcriado associado ao bolsonarismo.

Para segmento dos espectadores, aqueles comportamentos poderiam ser reconhecidos uma vez que sinais familiares de uma maneira de fazer política que julgavam superada. Quanto mais seu comportamento evocava o repertório do pai, mais podia despertar as lembranças que sua campanha precisava neutralizar. O pretérito reaparecia uma vez que antecipação do que poderia voltar a sobrevir.

Vi pessoas profundamente angustiadas, algumas em verdadeiro estado de tortura, diante da possibilidade de retorno do bolsonarismo. Quando a campanha e os apoiadores de Flávio passaram a se comportar uma vez que “bolsonaristas empossados”, para muitos o temor deu lugar ao pânico. Surgiu portanto uma pergunta urgente: o que posso fazer para impedir isso? Janones ofereceu uma resposta, com instrumentos e oportunidades de mobilização. Mas de onde veio a disposição extraordinária para utilizá-los? Minha hipótese, ainda a ser testada, é que a surpresa do primeiro vez reativou a memória dos anos Bolsonaro, enquanto o comportamento dos próprios bolsonaristas tornou o retorno daquele pretérito assustadoramente próximo.

Empolgados com a vitória no primeiro vez, Flávio e seu entorno talvez tenham subestimado o horror que a memória do bolsonarismo no poder ainda desperta em muitos. Tão concentrados em explorar o antipetismo, não perceberam que o antibolsonarismo podia ser decisivo. Flávio talvez tenha começado a perder a eleição quando sua vitória pareceu iminente, mas ainda podia ser impedida.


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Folha

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