Flip: Escritoras fazem alerta sobre direitos das mulheres – 24/07/2026 – Ilustrada
Que ninguém se iluda: os direitos das mulheres ainda estão a transe. “Cada vez mais temos que estar vigilantes, porque a cada progresso existe um recuo, e às vezes o recuo é maior do que o progresso”, afirmou a escritora franco-mauriciana Nathacha Appanah nesta sexta-feira (24), na Flip.
“Se pensávamos que alguns direitos já estavam adquiridos, uma vez que votar ou sentenciar sobre o próprio corpo, vêm as ondas contemporâneas antissufragistas e antiaborto mostrar que a verdade é muito menos otimista para o movimento feminista.”
Ao seu lado, a brasileira Bethânia Pires Amaro reforçou o alerta citando Simone de Beauvoir: basta uma crise política, econômica ou social para que os direitos das mulheres voltem a ser colocados em xeque. A conversa reuniu duas autoras cujos romances percorrem diferentes formas de violência contra as mulheres.
Appanah segmento de dois feminicídios e uma tentativa, contra ela própria, para refletir sobre poder masculino em “Noite no Coração”, vitorioso em premiações francesas de relevo, uma vez que Femina e Goncourt des Lycéens. “Ressalga”, de Bethânia, nasceu de um projeto interrompido de Jorge Estremecido.
Em 1966, a pedido do baiano, o fotógrafo Flávio Damm registrou mulheres que trabalhavam na prostituição em Salvador para ilustrar “Mulher-Mulher”, livro de Estremecido que sucumbiu à repressão da ditadura militar. Décadas depois, essas imagens serviram de ponto de partida para uma ficção sobre três gerações de mulheres na Bahia.
Ao comentar seus livros, as duas convergiram na teoria de que a violência contra mulheres deixa marcas não exclusivamente físicas. São as violências que passam despercebidas, às vezes na forma de juízo ou desvelo, e entre mulheres, “porque, justamente, é uma mulher que vai normalmente ensinar a outra a ser mulher”.
Aquela história de ser bem-comportada para não ser julgada, para se encaixar. “A gente passa essa legado de vergonha, de terror estável, e de inadequação.”
Alguma coisa que se reflete no meio literário, inclusive, diz a pernambucana que cresceu na Bahia. “A gente vê as mulheres com muita dificuldade de se assumir uma vez que escritoras, de apresentar os seus trabalhos.”
E ainda tem as cobranças, feitas de maneira explícita ou não. “Por que não está cuidando da vivenda? Por que não está cuidando das suas filhas? E as filhas estão com quem? É o tipo de pergunta que os homens não ouvem.”
A vergonha, aliás, é uma questão que persegue Appanah. A escritora lembrou o julgamento de um feminicida retratado em sua obra. Ele compareceu ao tribunal vestindo um terno que parecia de nubente. “Uma vez que ele consegue olhar as pessoas no rosto?”, ela se perguntou. “Por que as mulheres são mais suscetíveis à vergonha do que os homens?”
Lembra de ter pensado na hora: “Meu Deus, ele matou a mulher, queimou a mulher, e no primeiro dia [de julgamento] aparece uma vez que se chegasse ao seu conúbio”. Appanah definiu a vergonha “uma vez que um cachorro deitado nos pés, que às vezes é gentil, às vezes começa a latir”.
Ela contrapôs esse comportamento ao de mulheres que matam companheiros. “Quando uma mulher decide matar, ela toma a decisão e executa. Quando um varão mata uma mulher, há um elemento de punição, de apagamento do corpo, de propriedade.”
Para Appanah, o atacante age uma vez que se aquele corpo lhe pertencesse. “No momento em que ela quer partir, esse corpo precisa ser destruído.”
Uma vez que revelar-te se me revelas? O verso do poema “Forma”, de Orides Fontela, homenageada da 24ª edição da Flip, serviu uma vez que título da mesa com três autoras que também se debruçaram sobre processos de apagamento de mulheres, neste caso de suas mães e avós, pelo Alzheimer.
A mineira Flávia Péret é autora de “Coisas Presentes Demais”, em que costura fragmentos de memórias, ensaios e trova para falar da avó, uma mulher enxurrada de personalidade cuja memória se dissolve com a doença há anos, e que hoje vive numa vivenda de repouso em Belo Horizonte.
A argentina Julieta Correa escreveu “Por Que São Tão Lindos os Cavalos?”, seu primeiro livro, a partir de um mergulho nos diários da mãe, Sari, que padecia de uma progressão rápida e avassaladora do Alzheimer, ao mesmo tempo em que reflete sobre a solidão do trabalho de desvelo. Sari morreu pouco antes do lançamento do livro na Argentina, em 2024.
A conversa entre elas foi mediada pela paulista Natalia Timerman, que recentemente lançou “Antes que Apague”, sobre a demência da mãe. Ela partiu dos processos de escrita fragmentada destas obras e da preservação das histórias dessas mulheres, cuja linguagem já lhes faltava, para chegar nas memórias coletivas da Argentina e do Brasil.
“A Argentina foi pioneira na região ao julgar os crimes da ditadura e edificar uma tradição de resguardo dos direitos humanos da qual sempre tivemos orgulho. Hoje vivemos o contraste de um presidente que nega esses crimes e trata essa história uma vez que se não tivesse prestígio. Isso mostra que a memória nunca está garantida: ela precisa ser exercida permanentemente, porque pode ser revertida até por um governo eleito”, disse Correa sobre o atual presidente prateado, Javier Milei.
“Morei na Argentina entre 2005 e 2007, quando aconteciam os julgamentos dos crimes da ditadura, e convivi com pessoas diretamente afetadas pelos desaparecimentos. Ver hoje um presidente negar os 30 milénio desaparecidos mostra que a memória é um manobra político incansável”, completou Péter.




