Drauzio Varellza fala de experiência quase morte na Flip – 24/07/2026 – Ilustrada
“A morte quando chega vagarosamente impõe a resignação”, disse Drauzio Varella, colunista da Folha, na mesa que dividiu com a escritora alemã Carmen Stephan nesta sexta-feira (24), na Flip.
O médico diz ter se sentido porquê os pacientes que vivem com HIV que acompanhou na prisão. “O olhar não era de desespero, era resignado. Era legalização”, disse. “Eu tinha 61 anos e fiz um balanço: dei conta. Consegui ter uma vida permitido.”
Drauzio e Stephan falaram sobre suas experiências de quase morte —no caso dele, em razão da febre amarela; no dela, da malária. O enfrentamento da finitude rendeu os dois livros que foram o núcleo da conversa: “O Médico Doente”, do médico, lançado em 2007, e “Malária, um Romance”, da alemã.
Stephan disse que teve muito terror, um tanto difícil de entender. “Queria mais olvidar a história. Anos mais tarde, senti urgência de ortografar, confrontar a experiência.”
Já Drauzio contou que, em seguida se restabelecer completamente da doença, fez uma viagem para o cumeeira Rio Preto, na fronteira com a Venezuela, e, tomando uma cerveja com amigos, recebeu a sugestão de ortografar sobre o tema. “Não me interessei.”
Ambos levaram qualquer tempo para transformar a experiência em literatura. A incerteza se a doença renderia um bom livro foi o que acabou unindo os dois escritores.
“Tive muita incerteza a reverência de ortografar história de sofrimento. Se colocar porquê vítima”, disse ela. Drauzio tinha receio de que encarassem a empreitada porquê um exemplo de autopiedade.
Carmen contraiu a doença em meados dos anos 2000, quando em viagem à Amazônia. Em português (ela vive no Brasil há três anos), disse que a vontade de ortografar a reverência também nasceu no Brasil, lendo a reverência do livro de Drauzio.
“Comprei o livro. O estado do paciente é muito parecido. O isolamento”, disse. O passo seguinte foi rascunhar as primeiras ideias. “No início, pensei se seria provável me lembrar. Quando consegui penetrar a tampa através do mosquito, estava tudo lá. Foi uma maratona sentada”, disse.
Já Drauzio afirmou que, quando soube do livro de Stephan, ficou com inveja da originalidade dela.
Stephan conta a sua história por meio do mosquito, que tem relação ambivalente com seres humanos, ora debocha, ora governanta, ora é irônico. Segundo a escritora, a fórmula foi encontrada porque o mosquito se impôs. “Foi o único caminho que funcionou. E eu aceitei.”
Drauzio contou que num plantão, nos anos 1960, colegas de trabalho lhe disseram que o pior caso que haviam encarado até aquele momento era o de um rapaz que, doente de febre amarela, sangrava pelos olhos. Foi com essa imagem em mente que recebeu o diagnóstico.
Durante a doença, zero mais lhe tocava. “Nunca imaginei que a aproximação do desfecho me impusesse tanto desprendimento”, disse. Na manhã em que voltou da viagem à Amazônia, portanto quando já estava infectado, Drauzio contou que correu 12 quilômetros. “Fui almoçar fora, tomei uma cachaça de subida qualidade e à noite acordei com calafrio”, disse.
Cinco dias depois o cansaço extremo o levou ao hospital. “Aí você passa para o outro lado do balcão. E é péssimo. Primeiro porque você fica infantilizado: ‘Estica o bracinho. Vai tomar uma picadinha’. Você se sente um lorpa, um idiota. Faz um esforço e acaba assim, tudo no diminutivo. Na era tinha 62 anos, um nome a zelar”, afirmou, diante de risos da plateia.
Drauzio não acha provável erradicar uma doença porquê a febre amarela, mas vê um cenário atual mais alvissareiro. Exaltou o SUS e lembrou que é mais fácil fazer divulgação científica, com profissionais organizados até na internet. “É que com isso vem tralha de notícias falsas. Quadrilhas que usam a internet para vender remédio. Eles trabalham em parceria com a Meta, uma empresa obsceno”, afirmou sobre a big tech.
Diante da doença, Stephan disse que teve terror de não ver mais a família, mas que houve também um momento de “deixar ir”. “E o que descobri é que quando você não se segura mais, um tanto te segura.”
Segundo Drauzio, um velho carcereiro da penitenciária do Carandiru, com uma história pessoal muito difícil, lhe disse que a vida, sabendo levar, é uma sarau. “Eu gravei essa coisa tão simples. É uma sarau. A sarau um dia acaba. Por isso que você tem que ter o recta de deliberar porquê será o termo da sua sarau. Quer transpor tranquilo ou bêbado, sobrecarregado?”
Ditadores são autores fracassados, diz Kamel Daoud
“Um redactor não é um político, mas ele se torna político em países onde não há liberdade. Já os ditadores são escritores fracassados”, afirmou no dia anterior o redactor argelino Kamel Daoud, em mesa que dividiu com a escritora angolana Djaimilia Pereira de Almeida.
“Você escreve um livro, você pode confiar nele ou não confiar. Um ditador diz: ‘Levante papel não é vermelho, é virente.’ Se você não acredita, te prendem. Na verdade, um ditador tem uma relação turva com a ficção”, afirmou Daoud.
Daoud venceu o Goncourt por “Língua Interno”, que dá voz à sobrevivente de uma tentativa de degola em um massacre que dizimou sua família ocorrido durante a guerra social argelina. O conflito opôs grupos radicais islâmicos ao governo entre 1992 e 2002 e causou entre 200 milénio e 250 milénio mortes.
“É por isso que às vezes digo a mim mesmo que os escritores, nós, não somos seres importantes, somos exclusivamente pessoas que contam histórias. Mas penso que se os ditadores, que são muito idiotas, nos dão tanta relevância, talvez sejamos pessoas importantes. Mas não sabemos.”
Daoud, que é também jornalista e cobriu a guerra social na Argélia, disse que, em meio ao conflito, em 1997, foi enviado a um lugar —do qual fala no romance— e que, em uma noite, reuniu milénio mortos, todos massacrados e destroçados. E que ninguém acreditou no que contou.”
“Logo eu era jornalista durante a guerra social e sempre quis descrever a guerra social, mas não consegui porque não havia palavras. E, um dia, tive o estalo, disse a mim mesmo: vou descrever a guerra, vou descrever a impossibilidade de contá-la.”
Se Daoud relacionou o que lhe impede o sono às proibições legais e literárias ligadas a um cenário de guerras, morte e privações, Almeida, por sua vez, falou sobre a perda de seu pai.
A escritora disse ser inexacto imaginar que seu livro, “O Livro de Meu Pai”, começou com a morte dele. Na verdade, disse, a teoria segmento de outro livro que o pai ambicionou ortografar e foi contando a ela.
Quando ele morreu, ela buscou o manuscrito e percebeu que não havia livro, o que a deixou atônita. “Foi aí que percebi que um livro não existe só quando é escrito, pode subsistir dentro do espírito de uma pessoa. Um livro pode ser um sonho, uma teoria. Há livros que nunca foram escritos e não deixam de ser livros por isso”, afirmou. “Meu pai me deixou com as mãos cheias de zero.”
Em sintonia com a teoria de Almeida, Daoud disse que um livro é porquê um sonho. “Você pode escolher o hotel, pode escolher o travesseiro, pode escolher os lençóis, pode escolher o colchão, mas não pode escolher o sonho. Depois, ele vem sozinho.”
Para Daoud, todos os romances são o inverso da vida. “A vida começa com o promanação e vai em direção à morte. O romance começa com a morte e vai em direção ao promanação. Começa com: ‘perdi minha mãe, estou triste, perdi meu pai, não tenho sorte, não sou mais estremecido, não paladar da vida, não sirvo para zero.’ E logo vai se construindo, vai se construindo e caminha para a ressurreição”, diz.
Para o redactor, a literatura é boa, é necessária porque conta o que a história não pode descrever. “A literatura conta a singularidade e o universal ao mesmo tempo. A literatura não precisa do real, ela é o real.”





