Flip: Katie Kitamura vê família como encenação em Audição – 19/06/2026 – Ilustrada
Katie Kitamura queria grafar um romance que fosse uma vez que uma ilusão de ótica presente no imaginário de todo mundo: aquele traçado que pode ser visto uma vez que um coelho ou uma vez que um pato, a depender do ângulo que você escolhe.
As duas diferentes versões da imagem coabitam, sem ser antagônicas nem depender de uma tendência inata de cada pessoa. Oscilando os olhos para lá e para cá, todos conseguem ver os dois animais, uma vez que se a mesma figura fizesse dois papéis ao paladar do freguês. Porquê fabricar um livro assim?
O resultado do experimento chega agora no Brasil em “Audição”, um artefato literário que se tornou a obra mais admirada de uma escritora nipo-americana em franca subida, cativando críticos e premiações —a autora foi finalista do Booker e do Pulitzer pela primeira vez com leste seu quinto livro.
Agora no catálogo da Fósforo, editora que também promete o inédito “Intimidades” para o próximo semestre, Kitamura virá ao Brasil uma vez que uma das convidadas de destaque da Flip, a Sarau Literária Internacional de Paraty, que acontece de 22 a 26 de julho.
“Audição” é protagonizado por uma atriz próxima à lar dos 50 anos, casada há décadas com seu parceiro Tomas. No romance, sua história é fatiada quase exatamente ao meio.
Na primeira secção, a mulher é abordada por um jovem, Xavier, que diz suspeitar ser seu fruto desprezado há muito tempo —só que ela nunca deu à luz. Na segunda metade, começa outra trama paralela em que o mesmo Xavier é, de vestuário, fruto reconhecido da protagonista, e anuncia o libido de voltar a morar com ela.
As duas narrativas soam reais. Alguma delas é falsa? Será um sonho nascido dos desejos inconfessáveis da protagonista ou uma peça na qual ela atua sem que saibamos? Há pistas em todos os sentidos. Onde está a verdade?
Segundo a autora, onde o leitor quiser. “Eu entendo a vontade de encontrar uma solução”, diz, sorridente, em entrevista por vídeo. “Mas escrevi um livro que pode ser interpretado de pelo menos três ou quatro maneiras. Queria que fosse uma obra feita, de um jeito muito fundamental, pelos leitores. E que, possivelmente, eles percebessem isso.”
Kitamura lembra que, ao estudar literatura —ela hoje dá aulas de escrita criativa na Universidade de Novidade York—, suas experiências mais profundas foram com livros em que a intenção de quem escreveu não importava zero. Aqueles em que você não se pergunta “o que o responsável está pensando?”, mas “o que esse texto está fazendo?”.
Cá, ela propõe uma espécie de “teste de Rorschach” para saber o que cada pessoa enxerga na justaposição dessas duas histórias. Há quem veja uma mulher imaginando uma vez que seria ter um fruto; e há quem veja o contrário, uma mulher fantasiando uma vez que seria não precisar ser mãe.
Ainda há outra leitura verosímil de “Audição” uma vez que a história de uma pessoa que não reconhece o próprio fruto. “Esses momentos de totalidade estranheza sempre me interessaram”, diz Kitamura. “Quando você olha para alguém que conhece intimamente e essa pessoa parece um estranho. É uma das sensações de maior desorientação que se pode viver.”
É uma teoria que a autora já tateava em seu único romance já publicado no Brasil, “Uma Separação”, editado há cinco anos pela Companhia das Letras. Com o enredo de uma mulher que vai procurar o marido sumido na Grécia, o romance explora uma vez que a rescisão gradual de um relacionamento pode fabricar abismos guturais entre as pessoas sem que elas percebam.
É uma sensação horripilante, digna do gênero terror, mesmo. Kitamura diz que uma inspiração frequente para “Audição” foi “O Bebê de Rosemary” —o livro de Ira Levin, que precedeu por um ano o filme de Roman Polanski com Mia Farrow. Segundo a escritora, é a história de uma mulher que sofre “gaslighting” e passa a ver o mundo pelo olhar demonizante do marido.
Estranhar o que há de mais familiar é uma teoria aterradora que, mesmo assim, acontece com praticamente todo mundo —veja uma vez que nossos pais e nossos filhos mudam diante de nossos olhos.
“Meu fruto tem 13 anos e, se você for pensar, ele já foi dúzias de pessoas desde que nasceu”, diz Kitamura, também mãe de uma moçoila três anos mais novidade. “Principalmente agora, quase todo dia, eu olho para ele e é uma vez que se um incógnito tivesse entrado na sala. Isso não é unicamente normal, é necessário. Segmento de crescer é se tornar estranho para seus pais.”
Jogar com essa incerteza, tornando pastoso o terreno de relações que deveriam ser sólidas, é a maior habilidade da autora. Entre suas técnicas para saber esse efeito, está a economia na informação sobre as personagens, com pouquíssima história pregressa —você não sabe qual a origem, a raça ou o nome da protagonista de “Audição”.
O que pode parecer inconsistência se torna a força de seu projeto literário. “É uma representação mais autêntica de uma vez que as pessoas são. É útil ter uma história linear de uma vez que nos tornamos quem somos, com características e episódios definidores, mas para mim isso é sintético. Precisamos dessas histórias para subsistir, construímos nossas identidades assim, mas eu me interesso mais por personagens que não recorrem a isso.”
Suas criações são voláteis, mutáveis, papéis esperando para serem escritos —alguma coisa mais leal às pessoas da vida real. Não à toa, a narradora deste romance mais elogiado de Kitamura é atriz, circulando entre sua lar e as coxias do teatro com igual naturalidade.
“Nós nos apoiamos em vários artifícios de performance para subsistir no mundo”, aponta a escritora, que diz ter tido a sensação de iniciar a “interpretar a maternidade” quando teve seu primeiro fruto.
Pense também nas cerimônias de consórcio, rituais em que você sacramenta seu paixão pronunciando falas roteirizadas sobre saúde e doença, alegria e tristeza. Milhões de casais seguindo uma narrativa universal.
“E quando alguém diz ‘eu te senhor’? Só há uma fala que você pode manifestar de volta”, brinca a autora, rindo . “Ainda me surpreende uma vez que as nossas relações seguem um roteiro tão claramente delineado.”





