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Futebol resgata o direito à alienação em mundo urgente
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Futebol resgata o direito à alienação em mundo urgente – 03/07/2026 – Gustavo Alonso

Porquê é bom viver insano pela Despensa do Mundo. Desde o dia 11 de junho vivo no torpor anestésico que busco há bastante tempo.

Passivamente, estatelado em meu sofá, não assisto mais ao noticiário. Enquanto me preocupo com a eliminação da Bósnia e Herzegovina, não sei zero sobre questões que até pouco tempo afligiam a humanidade.

Não há guerra da Ucrânia, transgressão do Vorcaro, escândalo do Banco Master ou eleição polarizada que me tire do marasmo. Não quero saber mais qual banheiro as pessoas trans devem frequentar. Groenlândia, hein? Não foi para a Despensa, desconheço. Não tenho mais opinião inteligente sobre o monstruosidade. A Despensa é o território ideal da desatino. Zero mais me interessa.

Já percebeu porquê o mundo do futebol parece um planeta voltado, propício a escapadelas mentais? Nele, as potências mundiais são inexpressivas. China nem se classificou e os Estados Unidos são um modesto time, sobre o qual Trump é incapaz de se gabar. A Rússia, por sua vez, nunca foi lá grande coisa no futebol.

Na Despensa, o pequeno Paraguai ganhou da tetracampeã Alemanha. Sorte a nossa! Mesmo se não ganharmos a Despensa, continuaremos o único pentacampeão do planeta. Que bênção! É com consolação que atingi leste nirvana; não me venha com preocupações mundanas!

Durante muito tempo o futebol foi tratado porquê desatino das massas. Por décadas, os intelectuais brasileiros sequer se dignaram a estudá-lo a sério, porquê se fosse um tanto sem preço no Brasil. De Friedenreich a Leônidas, de Didi a Pelé, nenhum ídolo das massas de nosso futebol despertou interesse nos universitários na quadra em que atuavam.

Nos anos 1960 e 70, nossos professores, mestres e doutores universitários reproduziam a delação fácil de que o futebol era o “ópio do povo”, mera parábola das elites para enganar as massas.

Naquela quadra, ser indiciado de “insano” era pior que matar a mãe. Significava que você era submetido mentalmente pelo sistema que tanto te explorava. Lembro de um professor de geografia de cursinho, desses militantes em tempo integral, que dizia que o brasiliano deveria lucrar o “troféu hiena”, pois estava sempre rindo, insano a tudo. A piada é boa, mas o diagnóstico é simplório.

Foi só no final dos anos 1970 que a liceu brasileira começou a se interessar pelo futebol. E, para espanto totalidade hoje, uma mulher foi a pioneira. A antropóloga Simoni Lahud Guedes, morta em 2019, defendeu a dissertação de mestrado “O Futebol Brasílico: Instituição Zero” no Museu Pátrio da Universidade Federalista do Rio de Janeiro em 1977.

O trabalho marcou oficialmente o início das pesquisas científicas sobre o esporte no país. Em formato de livro, a obra da professora só foi publicada 46 anos depois da resguardo, alguns anos depois a morte da antropóloga.

Ainda que fechada nos muros acadêmicos, a obra abriu caminho para que outros intelectuais de peso, porquê Roberto DaMatta, investigassem o tema, resultando na histórica coletânea literária “Universo do Futebol: Esporte e Sociedade Brasileira”, de 1982, que conta também com participação de Simoni Guedes.

Essas obras pioneiras abriram caminho para se superar a teoria de que o futebol seria mera forma de controle imposto pelo governo da ditadura. Guedes e DaMatta analisaram o futebol não somente porquê um jogo, mas porquê um elemento médio de informação e organização da sociedade e da identidade cultural vernáculo.

De lá pra cá, convenhamos, não há um intelectual sério que reduza o futebol ao “ópio do povo”. Mais curioso ainda, a desatino deixou de viver. A digitalização do mundo por meio das redes sociais popularizou o engajamento. Todos temos uma microcausa muito justa. Todos achamos que nosso lugar de fala é fundamental para o resto da sociedade. A revolução não morreu, ela se banalizou na teoria de que todos somos ativos revolucionários de si mesmos.

Porquê todos têm uma culpa justíssima a guiar seu caminho na Terreno, ninguém se vê porquê insano. Na internet, todos têm uma opinião sumptuoso para esculhambar e cancelar os discordantes. Todos estão empoderados de sua verdade; não há mais espaço para se alienar.

Justamente por isso é preciso restabelecer o poder alienante do futebol. É verdade que, por meio dele, podemos falar da humanidade inteira, da depravação da Fifa às desigualdades mundiais. Ainda assim, falar somente de futebol, ou somente por meio dele, já é uma distração super bem-vinda neste mundo inflado de pautas, questões, escândalos, guerras e polarizações variadas. Viva a desatino do futebol!


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Folha

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