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'Ganhei viagem para a Copa do Mundo e tive o
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‘Ganhei viagem para a Copa do Mundo e tive o visto negado’ – 17/06/2026 – Esporte

A enfermeira Raphaela Coiado, 24, não chorou quando ouviu que seu visto para os Estados Unidos havia sido rejeitado. Nem quando o marido e os quatro outros parentes que foram com eles ao consulado, no Rio de Janeiro, saíram com o mesmo papelzinho branco na mão.

Ela chorou na porta de moradia, quando camisetas amarelas da seleção brasileira chegaram em uma mala temática da Coca-Cola. O presente fazia secção de um kit que ela e o marido ganharam em uma promoção para viajarem à Despensa do Mundo.

Aquilo a deixou emotiva.

“Mexeu comigo porque olhei e falei: ‘Nossa, realmente está acontecendo. E a gente não vai”, disse ela. “Eu chorei muito.”

Uma viagem conquistada

No início do ano, a Coca-Cola lançou uma promoção para seus parceiros: quem batesse as metas estipuladas e ficasse em primeiro lugar no ranking ganharia uma viagem para a Despensa do Mundo em condições bastante especiais.

Porquê o marido de Raphaela, Vitor, gerencia o setor mercantil do supermercado da família, eles entraram na competição. E ficaram em primeiro lugar quase o tempo todo.

“Perto do final, chegou um momento que a gente quase perdeu a viagem. Mas na última semana deu para restabelecer”, conta Raphaela.

A bonificação incluía duas passagens aéreas de ida e volta, cinco dias de hospedagem e um ingresso no torrinha da Coca-Cola com comida e bebida de perdão para o jogo entre Brasil e Haiti, no dia 19 de junho na Filadélfia.

“Fiquei decepcionada pela perda da experiência. Eu ia para uma Despensa do Mundo que a gente sabe que é uma edição lendária, que muitos jogadores incríveis estão se aposentando e não vão jogar mais. Era minha oportunidade de vê-los.”

O dispêndio de tentar – e de não ir

O prêmio da Coca-Cola valia para duas pessoas, mas nenhum dos seis membros da família que poderiam usá-lo tinha visto. Raphaela, que vive em Hortolândia, no interno de São Paulo, não tinha nem passaporte.

Ela correu para atualizar o nome no CPF e no RG —recém-casada, ainda não havia feito a mudança nos documentos— conseguiu tirar o passaporte em tempo pequeno e entrou no processo de solicitação de visto americano com o marido, duas cunhadas e seus companheiros.

A família contratou uma assessoria de vistos para os trâmites, uma vez que o preenchimento do formulário obrigatório e a lista de documentos a serem levados na entrevista.

Mas a preparação para a entrevista ficou a função de cada um. Raphaela conta que passou semanas pesquisando na internet, assistindo a vídeos e simulando respostas com o ChatGPT.

“Não sei quantas simulações fiz pelo ChatGPT. E, pelo visto, não ajudou muito.”

Porquê as vagas no consulado de São Paulo só estavam disponíveis para setembro —e a viagem era em junho—, todos foram para o Rio de Janeiro para uma viagem de dois dias.

No consulado, o parelha foi questionado sobre o proporção de parentesco, tramontana e razão da viagem, qual a profissão de cada um e qual a renda familiar.

“Foi todo mundo reprovado. Não salvou um para passar.”

O consulado americano não informa o motivo da recusa. Raphaela tem suspeitas: interrupções do marido durante a entrevista, o veste de ele trabalhar uma vez que Microempreendor Individual (MEI) e o de nenhum deles nunca ter viajado ao exterior antes —mas nenhuma certeza.

Além da viagem perdida, a família contabilizou um prejuízo de aproximadamente R$ 5.000 no processo: as taxas do visto (tapume de R$ 900 por pessoa), o dispêndio da assessoria, as passagens aéreas para o Rio de Janeiro, a hospedagem e a alimento durante a estadia.

O parelha cogitou estender a estadia no Rio e tentar novamente antes da Despensa. Decidiram que não valia o risco financeiro e emocional. A família optou por vender a viagem pelo valor de R$ 25 milénio. O negócio foi fechado em menos de um dia.

“Eu ainda estou sofrendo muito”, diz ela. “Eu devolveria esse moeda se falassem: Rafaela, a gente vai te dar o seu visto agora”, diz. “Acho que nenhum moeda no mundo compra a experiência que a gente viveria.”

“Eu não queria nem observar ao jogo da Despensa levante ano. Eu estou muito chateada.”

Vários países afetados

A história de Raphaela não é exceção —é secção de um padrão que afeta torcedores de todo o mundo nesta Despensa.

Uma estudo do BBC World Service com dados do Departamento de Estado americano mostrou que torcedores de mais de um quarto dos países classificados para o torneio enfrentam proibições de viagem, restrições mais rígidas ou altas taxas de repudiação de visto para entrar nos Estados Unidos.

Ao contrário das quatro últimas Copas do Mundo —realizadas na África do Sul, no Brasil, na Rússia e no Qatar—, que implementaram regimes especiais de visto para os torcedores, os Estados Unidos não criaram nenhum processo específico para o torneio.

A Fifa desenvolveu o chamado Fifa Pass, um sistema que direciona os portadores de ingressos para agendamentos prioritários nas entrevistas consulares, mas a medida acelera o processo sem aumentar as chances de aprovação.

“O sistema de vistos é o porteiro invisível da Despensa do Mundo”, disse ao BBC World Service Céline Atallah, advogada especializada em imigração que atua próximo a Boston.

“A Fifa pode vender um ingresso, mas o governo americano decide quem recebe o visto —e a Proteção de Fronteiras e Alfândegas decide quem de veste entra.”

A assimetria é estrutural. Quarenta e dois países —em universal os mais ricos— têm isenção de visto para os Estados Unidos e podem viajar mediante uma autorização eletrônica online que custa US$ 40 (tapume de R$ 204).

Nenhum país africano está nessa lista. Para os demais, o visto de turista recomendado pela embaixada para os torcedores custa US$ 185 —tapume de R$ 945— e exige entrevista presencial.

Onze dos 48 países classificados para o torneio têm taxa de repudiação de visto americano supra de 40%: Senegal, Gana, República Democrática do Congo, Irã, Jordânia, Argélia, Haiti, Egito, Cabo Verdejante, Uzbequistão e Equador. No Senegal, a taxa supera 70%.

Quatro países estão na lista de restrições de viagem do governo Donald Trump —Haiti, Irã, Senegal e Costa do Marfim—, o que impede seus cidadãos de obter o tipo de visto recomendado para os torcedores. Para os senegaleses e marfinenses, havia um prazo suplementar: eles precisavam prometer o visto antes de dezembro, quando as restrições entraram em vigor.

O torcedor senegalês Aliou Ngom esteve nas duas últimas Copas do Mundo —no Qatar e na Rússia. Para 2026, nem tentou o visto. O presidente da associação de torcedores da Costa do Marfim, Julien Kouadio Adonis, foi além ao descrever as restrições: para ele, trata-se de “uma forma de segregação que não ousa expor seu nome”. “Nenhum país europeu enfrentou esse tipo de restrição. Por que a África?”, questionou.

No Iraque, o torcedor Abdulla Adnan comprou ingressos para os jogos de sua seleção contra Noruega e França logo posteriormente a classificação —a segunda vez na história do país. Mas os Estados Unidos suspenderam os serviços consulares de rotina no Iraque por questões de segurança posteriormente a escalada do conflito regional.

Sem a possibilidade de fazer a entrevista presencial, Adnan viajou até a Jordânia para tentar o visto lá — onde foi informado de que a embaixada americana jordaniana não poderia exprimir vistos para não-cidadãos jordanianos. Gastou tapume de US$ 1.800 (R$ 9.204) no processo e desistiu.

O presidente da associação de torcedores da Jordânia, Abu Kass, levou mais de 42 documentos à sua entrevista consular em Amã. O visto foi rejeitado, sem explicação. Segundo diz, ele não conhece nenhum torcedor jordaniano que tenha conseguido a aprovação. “Esta Despensa não é nossa. É para eles.”

Quem tem visto guardado, pode perdê-lo

Mesmo torcedores de países historicamente bem-vistos pelas autoridades americanas foram surpreendidos às vésperas do torneio.

Na Escócia, dezenas de torcedores que haviam recebido a autorização eletrônica de viagem americana (Esta, nas siglas em inglês) —o mecanismo simplificado disponível para cidadãos de países com isenção de visto, válido por dois anos— viram o status da autorização mudar de “confirmado” para “viagem não autorizada” sem aviso prévio, poucos dias antes da estreia da seleção.

Scott Braid, 43 anos, de Kirkcaldy, na Escócia, havia organizado uma viagem para toda a família depois de ter a Esta aprovada. “Desde que fiz a Esta, absolutamente zero mudou nas minhas circunstâncias”, disse à BBC Escócia.

Os irmãos Andrew e Nelson Speirs, também de Kirkcaldy, haviam feito a autorização em dezembro e recebido aprovação no dia seguinte. Em junho, o status foi revogado. O dispêndio totalidade da viagem planejada era de £ 10 milénio (R$ 68 milénio).

A resposta do governo americano foi que o sistema continua verificando involuntariamente todas as autorizações em bancos de dados de segurança, e que uma Esta aprovada não garante a ingressão no país.

Na Argentina, uma empresa decidiu dar televisores de perdão para torcedores que provassem ter o visto rejeitado —para que pudessem ao menos observar à Despensa de moradia.

Os outros anfitriões e o visto

O problema não se restringe aos Estados Unidos, que sediará 78 das 104 partidas, incluindo a final.

O Canadá, coanfitrião do torneio, teve uma taxa universal de repudiação de vistos de 54% em 2025. O país exige dados biométricos para os pedidos de visto —mas há dois países classificados para a Despensa, Irã e Cabo Verdejante, onde o Canadá não possui instalações para que os candidatos sejam escaneados.

O México, terceiro anfitrião, não divulga suas taxas de repudiação. Há oito países classificados para o torneio —entre eles Cabo Verdejante, República Democrática do Congo, Costa do Marfim, Senegal e Iraque— onde o México não tem presença diplomática, impossibilitando que seus cidadãos sequer solicitem o visto mexicano localmente.

O Departamento de Estado americano afirmou à BBC estar “pronto para receber visitantes de todo o orbe para a maior e melhor Despensa do Mundo da Fifa da história”, e que a maioria dos torcedores estrangeiros não precisaria do processo próprio porque são cidadãos de países com isenção de visto ou já possuíam uma autorização.

Em relação às negativas, o governo disse examinar cada pedido “caso a caso, posteriormente revisão rigorosa e triagem minuciosa para instaurar se o tipo é elegível segundo a lei americana”, e que “em todos os casos, levaremos o tempo necessário para prometer que o solicitante não represente um risco à segurança dos Estados Unidos”.

A BBC News Brasil enviou perguntas ao consulado americano no Brasil sobre as taxas de repudiação de vistos de brasileiros, os tempos médios de espera para entrevistas e eventuais medidas especiais adotadas para a Despensa do Mundo. Até a publicação desta reportagem, não houve resposta.

Raphaela planeja tentar o visto americano de novo —mas não antes de viajar para a Europa, para erigir um histórico de viagens internacionais. Ela acredita que a falta de viagens anteriores pode ter pesado contra ela.

De qualquer forma, não será para esta Despensa.

“Essa era uma oportunidade única. A gente sabe que isso não vai suceder de novo. Nem tão cedo. Perdi a vontade de observar aos jogos.”

Folha

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