George Saunders escreve morte de bilionário em ‘Vigília’ – 30/08/2026 – Ilustrada
Um dia, o repórter George Saunders voava tranquilo de avião quando, de repente, um dos motores parou de funcionar. Portanto era isso, pensou. Chegou o termo de tudo. Lembrando hoje esse pânico súbito, o que mais o impressiona —porque, evidente, a nave pousou e o responsável sobreviveu— são as coisas em que ele não pensou naquela hora.
Não pensou em sua família. Não pensou em seus livros. Não fez um balanço de seus sucessos e fracassos. Era um bicho, puro instinto, um outro tipo de ser vivo. Guardou dessa experiência um olhar inédito sobre a vida, desincumbido de qualquer peso ou de qualquer pose.
Muito desse incidente se decantou em seu novo livro, “Vigília”, romance sobre um magnata do petróleo que agoniza em seu leito de morte.
K.J. Boone é quase um vilão de cinema. Comandando sua empresa, teve tanta culpa no cartório da crise climática que se acostumou a ter seu nome impresso em cartazes de ativistas ambientais. Arrecadou seus bilhões pagando cientistas para produzirem relatórios afirmando que o aquecimento global era patranha. Ou que havia incerteza razoável.
Fez explorações predatórias que levaram a desastres em comunidades pobres —quando cenas assim passavam na televisão, era seu hábito desligar para não mourejar com o “sentimentalismo barato”. E virou rabino em elaborar argumentos que defendiam, com racionalidade iluminista das mais convincentes, que o progresso não pode ser parado.
O que uma pessoa assim pensa nos seus últimos momentos, diante da morte certa?
“Dizem que, quando você está prestes a trespassar do seu corpo, você se livra de um monte de merda”, afirma o responsável de 67 anos em entrevista por vídeo à Folha, do escritório de sua vivenda. “E esse me pareceu o caminho de mais vigor para elaborar meu romance.”
Preocupado, Saunders queria grafar um livro sobre a crise do clima —exatamente o que aconselha seus alunos a não fazer. Quando você usa um livro para martelar alguma coisa que defende, diz ele, o leitor se sente excluído. “Você não deve grafar para provar uma crença e, sim, para desvendar uma.”
A saída foi explorar porquê se sentiria encarnando um personagem porquê o petroleiro. Um dos mais respeitados escritores dos Estados Unidos hoje —contista admirado, responsável de livros que compilam suas aulas na Universidade de Syracuse, em Novidade York, e vencedor do prêmio Booker por seu único outro romance, “Lincoln no Limbo”—, Saunders sabia que tinha uma encruzilhada à sua frente.
Se K.J. Boone se arrependesse de todos os seus pecados, ia parecer inocência do pensamento progressista —ou seja, um repórter que apoia a pretexto ambiental buscando realizar seus desejos no papel. Mas, se o personagem continuasse teimoso e leal a tudo que sempre defendeu, ele se pareceria demais com uma caricatura plana.
“No caso dele, eu sentia ser alguém que sabia, em seu coração, que as críticas sobre ele estavam corretas. Mas não gostava disso. Porquê um varão muito inteligente, sempre tinha uma resguardo muito preparada. E talvez, no último minuto, ele se livrasse do fardo de ter que negar isso o tempo todo.”
Em um paralelo, digamos que Saunders passasse sua vida tentando se convencer de que é um grande repórter. Se esse pensamento movesse cada um de seus passos, acabaria se ligando a seu corpo e a seu cérebro. E, quando o corpo ficasse doente e o cérebro, exausto, a vigor que sustenta esse hábito também se esvairia.
“Acho que, no termo, eu perderia o vista do ego que me faz fabricar sempre uma identidade sob a qual me esconder. Eu perderia interesse nisso. E talvez, para [Boone], ele perdesse o interesse na teoria de ser tão poderoso.”
O protagonista não é fundamentado em nenhum personagem real, mas Saunders comenta que enxerga conflitos de culpa em figuras porquê o empresário Elon Musk e o presidente Donald Trump.
“É porquê perguntar se eles têm vesícula biliar. Simples que têm, mas a de algumas pessoas é muito pequena”, diz, sempre sorridente. “É por isso que [Trump] está tão rebelde o tempo todo, por isso age de maneiras tão irracionais. Ele fala o tempo todo sobre ir para o firmamento. Sempre que alguém protesta de forma tão enérgica, é a culpa agindo. Ninguém é raivoso à toa.”
Dá para pensar em “Vigília” porquê uma narrativa sobre a culpa. Diante de uma pergunta sobre isso, a explicação de Saunders é simples. “Fui criado católico”, brinca. “Se eu tenho qualquer tipo de neurose, é culpa. Que, na verdade, é uma forma de ego. Se eu faço alguma coisa falso e não consigo suportar, isso só significa que eu tenho um ego enorme.”
Mas, há 27 anos —pouco tempo depois de lançar seu primeiro livro, em 1996—, o repórter nascido no Texas se converteu ao budismo. E ele menciona a religião em diversos momentos da entrevista.
Começou a meditar aos 40 anos, instado por sua mulher, e, ao ler sobre preceitos do budismo, reconheceu muito que já praticava na escrita. Por exemplo, a teoria de que você não deve ter certeza demais do que está acontecendo na sua história, para não perder a chance de ser levado por ela, de desvendar o que ela pode relatar a você.
Sua literatura hoje é tão informada pelo budismo quanto pelo cristianismo, alguma coisa em que o responsável não enxerga a menor incongruência. Já comentou que Jesus Cristo é “o maior romancista de todos” —um narrador onisciente, capaz de empatia infinita que permite entender as motivações de qualquer pessoa.
O vilanesco K.J. Boone não é o único protagonista de “Vigília”, aliás. O bilionário divide a cena com Jill Blaine, entidade fantasmagórica que o ajuda a fazer a passagem para o lado de lá. Ela guarda a personalidade de uma jovem pobre e sonhadora de 22 anos, assassinada sem querer no lugar do marido.
O coração do livro está em Jill, responsável pelas cenas de maior fardo emocional da obra. Quando comenta a geração da rapariga, Saunders lembra o ensinamento de um rabino budista. Dilgo Khyentse disse a seus pupilos que a “orientação mais importante da vida é: seja bom com todo mundo”. “A segmento complicada é: mas o que é misericórdia?”, completa Saunders.
O responsável lembra a tradição budista das “deidades raivosas” para lembrar que é preciso ser duro para ensinar a verdadeira virtude. Não é fácil para ele —Saunders lembra quando viu uma de suas alunas enfiada no celular durante a apresentação de um colega e, em vez de invocar atenção dela, decidiu permanecer quieto para não provocar constrangimento. “Não foi gentileza. Foi só pusilanimidade.”
A gulodice Jill Blaine, que procura sempre ser cuidadosa para não machucar seu protegido K.J. Boone pode, na verdade, estar agindo com a “condolência dos idiotas”, porquê ele diz, aquela que evita brigas a qualquer dispêndio. Talvez o verdadeiro muito não esteja em ninguém do livro, completa ele.
E é vasqueiro ver um responsável tão preocupado com esse matéria. O repórter pergunta por que a misericórdia é tão importante para Saunders, um artista festejado, mas atencioso, porquê se esta fosse a primeira entrevista de sua curso. “Muito”, diz com cortesia, “acho que esse é o meu jogo”.





