Gonzaguinha: documentário vê Brasil desigual em canções – 02/09/2026 – Ilustrada
Quando gaiato, Susanna Lira achava exagerada a letra de “Grito de Alerta”. Sua mãe, que criou sozinha três filhos de pais diferentes, recorria à gravação de Maria Bethânia nos períodos de separação amorosa.
“Ela quase furou o disco ‘Mel’ de tanto ouvir ‘Grito de Alerta’. Eu achava aquela música muito exagerada. ‘Gente, as pedras cortando, até quando?’, era tudo tão dramático”, diz Lira.
Décadas mais tarde, aquela relação afetiva ajudaria a levar a diretora a “Gonzaguinha, da Maior Liberdade”, documentário sobre Luiz Gonzaga Jr. que ganhou o Kikito de melhor longa-metragem documental no Festival de Gramado há algumas semanas e chega aos cinemas nesta quinta.
Lira não quis fazer uma biografia cronológica. O roteiro, de Rodrigo Alzuguir, privilegia a formação política do compositor e procura entender porquê sua trajetória se transformou nas canções que escreveu.
A diretora diz ter ficado principalmente impressionada ao desvendar que Gonzaguinha teve 52 obras censuradas. Para ela, a puerícia e a juventude ajudam a entender de onde veio essa produção.
Rebento de Luiz Gonzaga, Gonzaguinha foi criado no morro de São Carlos, no Rio de Janeiro, por seus padrinhos, e passou também por um internato. “Ele era rebento do rei do baião, mas estava à margem. Isso forjou muito ele”, afirma.
Lira procurou reproduzir essa perspectiva filmando trabalhadores e pessoas que circulam pelo núcleo do Rio. “Eu queria falar muito mais sobre o que ele queria proferir do que sobre ele necessariamente. O filme não é uma biografia tradicional; ele é atravessado pelas composições.”
A identificação da diretora com o personagem também é política. “Eu sempre falo que meu trabalho é minha militância. Acho que o Gonzaguinha tinha isso também. Ele escrevia aquilo que acreditava que podia mudar nas pessoas, no mundo, a consciência política que podia trazer.”
Essa escolha, diz Lira, teve consequências concretas para a curso do músico. Ela cita temporadas encurtadas por justificação do repertório escolhido, apresentações em universidades e shows destinados a recolher verba para presos políticos.
“Não é que ele tenha pago um preço porque foi injustiçado. É sobre decisões que você toma e que vão te restringindo. De alguma maneira, ele escolheu um caminho mais difícil, que é o de não querer aprazer a todo mundo.”
A pesquisa também fez Lira rever a glória de “cantor rancor”, sentença que acompanhou Gonzaguinha principalmente nos anos 1970. Antes de fazer o filme, ela imaginava que o rótulo fosse somente uma implicância da prensa.
“Quando você mergulha na pesquisa, ele realmente era muito contundente. Às vezes dava umas respostas meio atravessadas, uns olhares não tão simpáticos. Não fazia questão de ser gentil com as pessoas de quem não gostava.”
O próprio Gonzaguinha, segundo ela, tinha consciência desse temperamento e admitia que chegava a violar músicos com quem trabalhava.
“Isso me causou um ‘caramba, esse tipo de artista não existe mais’. Hoje todo mundo é performance, simpatia, todo mundo quer aprazer, está detrás do like. Ele não era esse rosto.”
Lira não enxerga uma ruptura entre esse compositor e aquele que depois se tornou publicado também por canções românticas. A intensidade, diz, permanece.
Mesmo “Grito de Alerta”, afirma, está longe de ser uma enunciação amorosa delicada. “É quase ‘eu vou aí te arrancar daí porque quero você’. Tinha uma visceralidade que se comunicava com essa pessoa intensa que ele era.”
Uma das principais interferências do documentário sobre o material histórico ocorre na recriação de duas entrevistas concedidas por Gonzaguinha a O Pasquim. Uma vez que não localizou os áudios e considerava os textos fundamentais para recontar a história, Lira decidiu encená-los com o ator André Dale.
A diretora, que afirma normalmente ser avessa a dramatizações em documentários, optou por deixar explícito que se trata de uma representação. O filme chega a mostrá-la orientando o ator.
“Eu não queria enganar o público. André não tenta imitar o Gonzaguinha, tenta transcrever a sentença desse rosto falando aquelas coisas.”
Para Lira, talvez o paisagem mais incômodo do filme seja constatar que boa secção do país descrito por Gonzaguinha continua reconhecível 35 anos depois de sua morte.
Ela relaciona letras sobre violência, desigualdade e repressão com personagens que encontrou em seus próprios documentários sobre direitos humanos, porquê mães de jovens mortos pela polícia.
“É muito lícito quando você fala que um artista é atual, mas, no caso do Gonzaguinha, é quase um peso para o Brasil continuar sendo esse país ainda tão desigual.”
A diretora diz esperar que o lançamento, em um ano eleitoral, contribua para provocar uma discussão sobre consciência social e política. Não reivindica para o filme, porém, a capacidade de modificar sozinho esse cenário.
“Ele documentou o Brasil com as letras, com as canções. Eu gostaria que as pessoas vissem esse Brasil e percebessem em que lugar dele se posicionam. O filme não tem esse poder nem essa obrigação. A gente vai fazendo as coisas.”





