Hollywood volta a se render a cirurgia estética e magreza – 02/08/2026 – Ilustrada
Antes mesmo de “A Odisseia”, de Christopher Nolan, estrear nos cinemas, um pormenor das primeiras imagens do filme dominou secção da conversa nas redes sociais —o rosto de Anne Hathaway.
Em vez de discutir a adaptação do poema de Homero, usuários debateram se procedimentos estéticos comprometeriam a credibilidade de uma personagem de quase 3.000 anos detrás ou se as habilidades de atuação da americana estariam comprometidas.
Em meio a comparações do seu rosto no início da curso e agora, Hathaway disse que não havia feito lifting facial, procedimento que reduz a flacidez do rosto para rejuvenescê-lo, mas que não descarta passar pelo bisturi no porvir.
Charlize Theron, também em “A Odisseia”, não escapou da discussão e foi acusada de ter um “rosto de Instagram” —caracterizado por “olhos de gato”, mais alongados, maçãs do rosto altas e lábios volumosos, inspirado nos filtros que influenciadores popularizaram na plataforma.
Casos semelhantes envolveram Ariana Grande, pela magreza em “Wicked” ou no recém-lançado clipe “Petal”, com ossos aparentes no peito e nas costas; Millie Bobby Brown, por um suposto preenchimento labial na quadra da temporada final de “Stranger Things”; e Jim Carrey, que no prêmio César gerou especulações de que havia sido substituído por um sósia, tudo graças às bochechas redondas e à pele lisa —agentes do ator negaram a conspiração.
Entre um caso e outro, a discussão alcançou os bastidores do audiovisual. Botox, cirurgias plásticas e medicamentos agonistas de GLP-1, porquê Ozempic e Mounjaro —as canetas emagrecedoras—, agora interferem na construção de personagens e afetam a percepção do testemunha em relação à obra.
“É por meio do rosto e de suas microexpressões que as emoções chegam ao testemunha”, afirma Vanessa Veiga, diretora de elenco de projetos porquê “Venustidade Irremissível”, ambientado no universo das cirurgias plásticas. “Quando um procedimento compromete a mobilidade facial ou labareda mais a atenção do que a tradução, ele pode interferir na construção do personagem e até limitar determinadas escalações.”
Um franzir de testa ou contração dos lábios projeta emoções que antecedem o diálogo, secção significativa da construção de sentimentos em filmes. Luciano Baldan, diretor de elenco de produções porquê “O Fruto de Milénio Homens” e “Bruna Surfistinha”, diz que “os procedimentos têm deixado as pessoas com o mesmo rosto, sem expressões, o que dificulta que emoções sejam identificadas”.
A repetição de padrões de formosura contemporâneos em diferentes atores pode tornar difícil transmitir individualidade e verossimilhança aos personagens, limitando suas carreiras. Nicole Kidman, por exemplo, tem se restringido a papéis de mulheres da escol, em títulos porquê “Expatriadas” e “Babygirl”, em seguida uma série de procedimentos estéticos nos últimos anos.
A preparadora de atores Estela Sabiá é mais drástica. “Quando um artista usa um procedimento desse, ele está mexendo na sua principal instrumento de trabalho, que é a frase”, afirma. “Isso tira a verdade cênica e a vulnerabilidade.”
Segundo o cirurgião plástico Alexandre Piassi, secretário-geral da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, a SBCP, o perfil e a procura dos pacientes mudaram. “Hoje, um bom procedimento é aquele que melhora a fisionomia sem denunciar que foi realizado”, afirma. “A cirurgia plástica moderna não procura fabricar um rosto novo, mas preservar a identidade e promover um envelhecimento mais harmonioso.”
O técnico afirma que os medicamentos para emagrecimento também alteraram a rotina dos consultórios. Com canetas emagrecedoras cada vez mais disponíveis, pacientes que perderam muito peso passaram a buscar tratamentos para emendar flacidez, perda de volume facial e excesso de pele, fenômeno que ficou espargido porquê “rosto de Ozempic” —sobrenome que Ariana Grande recebeu nas redes em seguida “Wicked”, junto das colegas de elenco Cynthia Erivo e Michelle Yeoh.
Para a historiadora Denise Sant’Anna, pesquisadora da história do corpo e autora do livro “Gordos, Magros e Obesos – Uma História do Peso no Brasil”, o progresso desses medicamentos responde a mudanças culturais mais profundas. “Hoje a magreza fala em nome da saúde, do controle do corpo, da produtividade. É dissemelhante da magreza de 1990, com o ‘heroin chic'”, diz ela sobre o padrão disseminado por supermodelos da quadra.
Segundo a pesquisadora, num mundo marcado por guerras, instabilidade política, mudanças climáticas e instabilidade econômica, “o corpo é visto porquê a última fronteira que ainda se pode controlar.”
A mudança ajuda a explicar o extenuação do body positive, movimento que dominou secção da cultura pop na dezena de 2010 ao proteger a valorização de diferentes corpos e questionar padrões de formosura considerados inalcançáveis.
O exposição ocupou grandes premiações e desfiles de voga, levou a Mattel a lançar uma risco mais diversa da Barbie e contribuiu para preceituar o termo do Victoria’s Secret Fashion Show, passarela pop marcada por modelos magras em lingerie. O evento voltou em 2024, em seguida um hiato de seis anos.
Durante alguns anos, artistas, marcas e estúdios pareciam obrigados a aderir ao debate. Artistas porquê Jonah Hill, Meghan Trainor e Rebel Wilson ficaram populares com obras que exaltavam o plus size.
Agora, com um caminho mais pequeno para emagrecer, o corpo magro voltou a ser um ideal, embora atingível para os que podem remunerar por ele. Boa secção da indústria abandonou silenciosamente um exposição que, poucos anos antes, parecia inegociável. Hill, Trainor e Wilson emagreceram e passaram a exibir silhuetas cada vez mais próximas do ideal estético dominante.
Há uma incoerência entre o exposição da indústria, que passou a proteger maior inconstância de corpos e identidades, e a crescente pressão pela sublimidade estética, diz Estela Sabiá, a preparadora de atores. “Há alguns anos a dramaturgia começou a buscar pessoas reais, atores com ‘face de gente’. Agora vemos um movimento contrário. Se artistas passam a esconder aquilo que os torna únicos, perdemos secção da potência da atuação.”
Essa mudança também reorganizou a maneira porquê grandes produções cinematográficas encaram o envelhecimento —porquê alguma coisa a ser combatido. O etarismo, historicamente dirigido às mulheres, passou a atingir também os homens, à medida que a juventude deixou de ser somente um atributo estético e passou a funcionar porquê sinônimo de bom desempenho.
Hoje, homens recorrem cada vez mais a aplicações de botox, preenchimentos faciais e cirurgias para retardar o envelhecimento, com procura crescente entre figuras públicas porquê Vini Jr., Zac Efron e Tom Cruise.
“As mulheres ainda representam a maioria dos pacientes, mas a procura masculina cresce de forma consistente”, diz Piassi, da SBCP. No entanto, apesar de popular entre homens, atrizes ainda sentem mais a pressão estética e as críticas pela realização de procedimentos.
A transformação também aparece na maneira porquê a masculinidade passou a ser representada. Durante décadas, galãs porquê Marlon Lento e Harrison Ford simbolizavam virilidade associada a traços rudes e envelhecidos.
Hoje, atores porquê Timothée Chalamet, Paul Mescal ou Jacob Elordi projetam uma masculinidade sensível. Piassi diz que pedidos frequentes envolvem melhorar o paisagem de cansaço, tratar as pálpebras e definir melhor a risco do maxilar.
Se antes Hollywood ditava tendências estéticas, hoje perde espaço para redes sociais, com a indústria adotando padrões de influenciadores, filtros e imagens de lucidez sintético.
“Ela também virou uma espécie de esponja do que circula na internet. Os filmes reforçam determinados padrões, mas esses movimentos já não nascem necessariamente ali. Eles são produzidos em diferentes comunidades das redes sociais e depois acabam sendo absorvidos pela indústria”, afirma Sant’anna, a historiadora.
Há ainda uma questão tecnológica envolvida. Sant’anna lembra que, com o progresso de tecnologias de captação e projeção de imagens, rugas, flacidez e imperfeições da pele se tornaram mais visíveis, seja nas salas de cinema ou na televisão de mansão, mexendo com o ego e a autoestima de muitos artistas.
Na contramão, quanto mais os rostos caminham para um mesmo ideal de juventude e simetria, maior parece ser a valorização de atores capazes de transmitir emoção por meio das pequenas imperfeições.
“O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Fruto, por exemplo, foi comemorado lá fora por ter personagens com “face de gente”. “A padronização nunca foi uma aliada da direção de elenco”, diz Vanessa Veiga, a diretora de elenco. “O público quer se reconhecer nas histórias e nos personagens que vê nas telas”.





