João Rock reúne 65 mil dias após chuvas em Ribeirão Preto – 02/08/2026 – Ilustrada
Uma semana depois de Ribeirão Preto viver um dos maiores temporais de sua história recente —que deixou uma pessoa morta, centenas de árvores derrubadas e levou a prefeitura a estatuir estado de emergência—, o Parque Permanente de Exposições reuniu milhares de pessoas. Com tempo firme e sol poderoso, o João Rock recebeu murado de 65 milénio espectadores neste sábado (1º), em uma edição com ingressos esgotados.
O resultado representa uma recuperação em relação ao ano pretérito, quando o festival não conseguiu vender toda sua capacidade. Depois de uma edição marcada pelo público reduzido, o João Rock voltou a lotar, reafirmando sua posição uma vez que um dos principais festivais dedicados exclusivamente à música brasileira.
Distribuído entre os palcos João Rock, Brasil, Aquarela, Fortalecendo a Cena e Eisen Rock Station, o festival reuniu mais de 30 atrações de diferentes gêneros. Ainda assim, a edição de 2026 apresentou um retrocesso na presença feminina. Unicamente seis artistas eram mulheres, contra dez no ano anterior. No maior palco, o João Rock, não houve nenhuma apresentação feminina. As artistas permaneceram concentradas quase integralmente no Aquarela, espaço devotado às mulheres.
Quem abriu o palco principal foi Chico Chico, seguido por Lagum e Detonautas, orquestra que aproveitou o festival para estrear a turnê do álbum “Rádio Love Vernáculo”. Entre sucessos uma vez que “Você Me Faz Tão Muito”, “Só por Hoje” e “Outro Lugar”, o vocalista Tico Santa Cruz fez um exposição sobre espiritualidade e criticou o excesso de tempo gasto nas redes sociais.
“Se Deus não estiver em você, ele não vai estar na igreja, no pastor, no padre, em nenhum líder religioso”, afirmou o cantor antes de pedir que o público se abraçasse. Antes, disse ter percebido que estava “se intoxicando” com o excesso de telas e que passou a priorizar o convívio com as pessoas próximas.
O momento mais contemplativo da programação veio com Zé Ramalho. Aos 77 anos e celebrando cinco décadas de curso, o paraibano mostrou que poucos recursos bastam quando o repertório atravessa gerações. Com formação enxuta —violão, saxofone, teclado, bateria e contrabaixo—, apresentou clássicos uma vez que “Margem-Mar”, “Táxi Lunar”, “Avôhai”, “Vida de Manada” e encerrou com “Sinônimos”, mais conhecida na voz de Chitãozinho & Xororó.
Na sequência, Alceu Valença reafirmou o espaço de encontro entre o rock e a música nordestina. Abriu com “Que Grilo Dá”, passou por “Pagode Russo”, “Estação da Luz”, “Girassol”, “Flor de Tangerina”, “Pisa na Fulô” e “Belle de Jour”, mostrando uma vez que guitarras, sanfona e flauta podem coexistir no mesmo espetáculo. Ao interpretar “Táxi Lunar”, fez questão de homenagear Zé Ramalho e Geraldo Azevedo, antigos parceiros de “O Grande Encontro”, embora uma reunião entre Valença e Ramalho no palco não tenha ocorrido.
No palco Brasil, a Região Zumbi, com duas alfaias, guitarra, insignificante, bateria e percussão, apresentou um repertório centrado na obra de Chico Science, incluindo “Computadores Fazem Arte”, “Um Sonho”, “Cidadão do Mundo”, “A Praieira” e “Maracatu Atômico”. Houve poucas interações com o público, mas Jorge Du Peixe arrancou aplausos ao indicar para bandeiras de Pernambuco na plateia e declarar que os pernambucanos são “muito bairristas”. Ao longo da apresentação, gritos de “Viva Chico” surgiam espontaneamente entre o público.
Já o palco Aquarela, contou com Marina Sena protagonizando um dos shows mais concorridos ao apresentar músicas do álbum “Coisas Naturais”, lançado no ano pretérito. Vestindo figurino metálico resguardado por pedrarias, a cantora sustentou a apresentação com o magnetismo que marca sua novidade período artística. Foi também um dos poucos espetáculos do dia em que os leques —cada vez mais populares em shows com público LGBT+— apareceram em peso entre os espectadores.
Foi justamente na transição entre o fechamento do show de Marina Sena e o início da apresentação de Djonga que ficou evidente um problema na infraestrutura do festival. Dispostos perpendicularmente um ao outro, os palcos Aquarela e Fortalecendo a Cena atraem públicos distintos, e a movimentação simultânea de milhares de pessoas entre os dois espaços acabou provocando pontos de estrangulamento, dificultando a circulação.
Ainda se apresentaram no Aquarela as cantoras Urias, Rachel Reis, Luedji Luna e Ana Carolina.
No Fortalecendo a Cena, Djonga reuniu uma plateia visivelmente mais jovem do que a observada no palco principal. O rapper apresentou sucessos uma vez que “Penúria”, “Real Demais”, “Hat-Trick”, “Penumbra” e faixas de “O Menino que Queria Ser Deus”, reafirmando a força do hip-hop dentro do festival, que ainda contou com a presença de Ajullicosta, Criolo, Marcelo D2 e Rael.
Veterano na programação do festival, o CPM 22 esteve presente na primeira edição do João Rock e também na de 2024. Agora, a orquestra apresentou a turnê comemorativa de seus 30 anos de curso. Clássicos uma vez que “Tarde de Outubro”, “O Mundo Dá Voltas” e “Um Minuto para o Termo do Mundo” embalaram o público, com participação peculiar de Di Ferrero na reta final do show.
Se em 2025 o debate girava em torno da dificuldade de atrair público em um cenário de saturação dos grandes festivais, a edição de 2026 mostrou que o João Rock recuperou sua capacidade de mobilização. Ao mesmo tempo, expôs um desequilíbrio que vai na contramão das discussões recentes sobre flutuação. Enquanto o festival voltou a lotar, a presença feminina diminuiu e permaneceu praticamente restrita a um palco secundário, deixando o principal escravizado por atrações masculinas.





