“Existe um muro cá” diz Ana Cláudia Miguel, enquanto aponta na direção da Rua do Moinho, que separa a comunidade do Pilar de um dos maiores polos de tecnologia do país, o Porto Do dedo, no coração do Recife Idoso. 
“Existia um círculo que era a repartição desse pedaço com o bairro. Mesmo o muro sendo derrubado, ainda existe essa barreira”. O muro, construído por holandeses na capital pernambucana no século 17, foi demolido no final do século 19. Mais de 100 anos depois, Ana Cláudia, líder comunitária da única dimensão residencial do Recife Idoso, explica porquê a barreira que já foi de pedra, agora é de bytes:
“A gente mora no polo tecnológico, mas tem um déficit de tecnologia”, explica Ana Cláudia.
O Pilar é uma comunidade de baixa renda que nasceu com a ocupação das ruínas do Recife Idoso por quem não tinha onde morar, ou tinha e foi expulso de outros cantos da cidade. Nos quase 600 domicílios do Pilar vivem famílias majoritariamente negras (73%), chefiadas por mulheres (76%), onde o trabalho informal é a principal natividade de renda (74%) e a remuneração média não passa de um salário mínimo e meio, segundo pesquisa feita em 2023 pela própria comunidade, com o suporte da Universidade das Nações Unidas.
Atravessando a rua, fica o Porto Do dedo, endereço de mais de 500 empresas de tecnologia que, em 2025, faturaram R$ 7,4 bilhões. Pierre Lucena, presidente do Porto Do dedo, explica o que é essa espécie de vale do silício brasílio: “Somos uma plataforma de inovação”, diz. “Cá, a gente tem seis incubadoras aceleradoras, públicas e privadas, uma faculdade própria, um conjunto de universidades parceiras e mais de 500 empresas”.
Inclusão pela metade
A disparidade tecnológica dos dois lados da rua escancara o repto que o Brasil precisa enfrentar para prometer inclusão do dedo de qualidade.
O percentual de pessoas que usam a internet no Brasil chegou a 90,5% em 2025, índice que vem crescendo ano depois ano. Em 2019, não chegava a 80%. Mas a qualidade do aproximação é desigual. Enquanto 86% dos domicílios têm orquestra larga fixa e traste ao mesmo tempo, 10,7% dependem exclusivamente dos dados da telefonia traste para conseguir acessar bancos, serviços públicos, estudar, trabalhar e se falar. A grande maioria, 59,2% dos domicílios, não tem computadores ou tablets. Os dados estão na PNAD-TIC 2026, o capítulo de Tecnologia, Informação e Notícia, da Pesquisa Pátrio por Modelo de Domicílios, do Instituto Brasiliano de Geografia e Estatística (IBGE).
“As pessoas deixam de ter computador e internet fixa em vivenda porque é dispendioso e elas acessam a internet por planos de telefonia traste com uma quantidade limitada de dados que podem utilizar por mês, explica Flávia Lefrève, advogada, profissional em telecomunicações e direitos digitais. Geralmente, uma franquia baixa, que não passa de 100 gigabytes por mês. A partir do momento em que a franquia acaba, o aproximação à internet é bloqueado”.
Flávia diz que esse tipo de limitação é ilícito, segundo o Marco Social da Internet. As provedoras não podem interromper a internet, exceto em casos de inadimplência. Na prática, o serviço é suspenso e limita a cidadania:
“A grande maioria dos serviços públicos, por exemplo, você só faz pela internet: Bolsa Família, Enem, boletim de ocorrência, o imposto de renda. Tudo o que você faz hoje é pela internet. Logo, para trenar a cidadania, precisa da internet. E o que acontece se você tem um projecto restringido? Acabou a sua franquia, porquê é que vai se virar?”, questiona.
A rotina do Pilar ajuda a entender porquê a limitação vira exclusão. Em 2023, a comunidade passou a relatar com o programa Pilar Universitário, que garante bolsas de estudos integrais nas faculdades do Senac [Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial] para os moradores numa política de universalização sem restrições: “Qualquer pessoa do Pilar que queira e esteja apta a fazer um curso superior, pode escolher qual curso quer fazer”, diz Pierre Lucena.
Ainda que o estudante não precise se preocupar com a mensalidade, ainda resta o muro do dedo: “A internet que tem é do celular. E aí acabam os dados, porquê é que faz? Uma vez que é que se mantém na universidade?”, pergunta Ana Cláudia. “Hoje, a tecnologia da universidade é muito maior. A apresentação não é naquele papelzinho pautado. Hoje tem que fazer tudo do dedo. Logo é preciso ter o mínimo de requisito de poder permanecer”, conclui .
Sem laptop
Em 2024, Eurídize Lima de Santana, 23 anos, entrou no programa. Se matriculou no curso de Estudo e Desenvolvimento de Sistemas. Um ano e meio depois, trancou a faculdade. Eurídize não tinha o substancial: um computador. “No primeiro semestre eu não senti tanta dificuldade em não ter um notebook, porque a gente ainda não fazia códigos. No segundo, comecei a sentir. E quando chegou no terceiro semestre, tranquei”, afirmou.
Segundo ela, um equipamento substancial para quem trabalha com códigos custa, no mínimo, R$ 3,5 milénio. “Uma vez que a gente que é pobre, que ganha um salário mínimo, pode pensar em comprar um notebook? Uma vez que, se só tem o moeda pra sobreviver? Se a gente só pensa em remunerar as contas de vivenda e consumir?” pergunta.
Depois de trancar a faculdade, a jovem ainda tentou mudar de curso, mas foi informada que o programa não permitia uma segunda letreiro para alunos que trancaram a faculdade. Hoje ela estuda Gestão Financeira, na modalidade de Ensino à Intervalo (EaD), usando o celular e a franquia de dados do telefone e pagando mensalidade de R$ 170.
Ana Cláudia diz que na comunidade, a inclusão do dedo pela metade é regra: “A gente tem empresa de robótica cá dentro da ilhota [o Recife Antigo], mas não tem nenhuma párvulo sabendo disso. A gente precisa ter internet na escola, precisa trabalhar com os jovens na tecnologia”.
Desconforto
Fabi Andrade é coordenadora de ESG do Meio de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (Cesar). A instituição de ensino e incubadora de empresas é uma das precursoras do Porto Do dedo e ocupa alguns andares do Multíplice do Moinho, um prédio de mais de 100 anos que fica muito ao lado do Pilar. O prédio foi todo modernizado para apoiar empresas de tecnologia:
“O projeto arquitetônico previa uma parede para que a gente não enxergasse a comunidade do Pilar”, explica Fabi. A proposta foi recusada e no lugar foi colocada uma parede de vidro que não deixa olvidar que a desigualdade é incômoda até para quem está do lado tecnológico do muro. “Incomoda muito porque estamos cá trabalhando numa faculdade para educar pessoas em tecnologia, e não temos um único aluno da comunidade cá do lado. Isso incomoda”, conclui Fabi.
“Esse contraste é real, há uma dívida real e uma forma ainda desorganizada de todos, inclusive nossa [do Porto Digital], para agir com soluções”, reconhece o presidente do Porto Do dedo, que sabe que os vizinhos vivem veras parecida com a de muitas outras comunidades do país.
Ana Cláudia sabe que o impacto dessa inclusão do dedo pela metade tem dispêndio superior: “a gente está perdendo os jovens na comunidade”. Questionada sobre o que significa perder os jovens, ela é direta: “Perdendo os jovens para o mundo ilícito, porque não se tem oportunidade”.
Sem neutralidade
Em 2025, pela primeira vez, mais de 90% dos brasileiros usaram a internet, segundo a PNAD-TIC, mas Flávia Lefrève labareda a atenção para outro oferecido: o tipo de uso que tem sido feito da rede: “O uso principal que as pessoas fazem é de rede social. Por quê? Acabou a franquia, bloqueia o aproximação à internet e a pessoa só acessa as aplicações da Meta: Instagram, Facebook e WhatsApp”.
Segundo a pesquisa, entre as pessoas que usaram a internet, mais de 95% usaram para conversar por chamadas de voz ou vídeo, mais de 90% para enviar ou receber mensagens de texto, voz ou imagens sem ser por e-mail e 85% para usar as redes sociais (84,9%).Todos os serviços são prestados pela empresa de Mark Zuckerberg.
Flávia explica que esse tipo de “oferta” também viola o Marco Social da Internet: a neutralidade da rede, a regra que determina que os provedores não podem discriminar o tráfico de dados por origem, orientação ou por tipo de aplicativo. “Uma medida fundamental para prometer que a internet continue ensejo, democrática, que não haja discriminação”, diz Flávia. “A partir do momento em que o consumidor só tem aproximação às aplicações da Meta, isso é quebra da neutralidade. Isso é muito cruel, porque esses planos atendem mormente as pessoas das classes C,D e E”, conclui.
Em janeiro de 2023, a Coalizão de Direitos da Rede, que reúne organizações e ativistas, porquê Flávia Lefrève, que atuam pelo recta à notícia, abriu um processo administrativo na Secretaria Pátrio do Consumidor do Ministério da Justiça questionando o bloqueio ao aproximação à internet por secção das provedoras e a quebra da neutralidade da rede. Entramos em contato com o Ministério da Justiça questionando qual a situação desse processo, mas não houve resposta.









