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'Inesquecíveis', sobre poesia de mulheres, é incontornável 08/05/2026
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‘Inesquecíveis’, sobre poesia de mulheres, é incontornável – 08/05/2026 – Ilustrada

“Inesquecíveis: Quatro Séculos de Poetas Brasileiras”, obra organizada por Ana Rüsche e Lubi Prates, é, para usar uma termo da voga, leitura incontornável.

A longa e detalhada pesquisa se apresenta uma vez que uma teia tecida a partir do trabalho de toda a vida das estudiosas da literatura de mulheres Nelly Novaes Coelho e Zahidé Muzart, teia a que se acrescentam elos com contribuições, teses e ensaios de estudiosas diversas.

O debate sobre os poderes do cânone surge na ateneu estadunidense partir de estudos da literatura afro-americana. Tomou corpo e se politizou nos anos 1990. Henry Louis Gates, teórico do movimento preto, inflama o debate tratando os cânones uma vez que instrumento da guerra cultural dos homens brancos e seus mecanismos de controle intelectual e educacional contra as minorias.

Lá uma vez que cá as antologias, uma vez que as diversas histórias da literatura, são frequentemente baseadas nas relações estabelecidas entre classe, gênero e raça. Todas essas produções definem currículos e pesquisas universitárias.

A história da literatura brasileira, elaborada pelos defensores do cânone masculino e branco, foi resultado de “escolhas ideológicas”, afirmam as autoras, “forças conservadoras que rondam a história brasileira”, responsáveis “pelo apagamento racial e de gênero”.

Situando as poetas nos momentos em que escreveram e nas circunstâncias de suas vidas, priorizando relações e mesmo desejos, evitam uma historiografia patriarcal, feita de heranças masculinas. A livre escolha dos século poemas oferece não unicamente a restauração de nomes esquecidos ou sufocados, mas apresentam novidades surpreendentes.

Entre as mulheres que escrevem no período colonial, a poeta Beatriz Brandão evidencia as contradições da formação social do país. Protesta em seus versos contra “o opressão infame da escravidão”, denuncia o “feroz despotismo insano” e os “ímpios decretos” que, com a repressão à chamada Inconfidência, “banhavam ondas de sangue/ os degraus do patíbulo”.

Passamos, com a seleção, a saber Adelaide de Castro Alves de Azevedo, mana do icônico poeta romântico que, se não tinha a voz do irmão, não fazia maus sonetos. E várias outras de sobrenomes famosos.

Os poemas mostram que, com os critérios a que eram submetidas, mormente para conseguir que suas obras fossem publicadas, a exclusão das mulheres do espaço literário e das antologias se deu não pela qualidade dos textos, mas pela autoria feminina.

É mal, passando por três momentos da trova brasileira com escritoras nascidas no Brasil Colônia, no Poderio e na República, chegando às que compõem o quadro contemporâneo, as sensíveis estudiosas nos oferecem uma história da literatura que corrige o rumo do que até cá constituía nosso cânone.

Os três núcleos são organizados de forma propositadamente aleatória, cada poema com uma valimento peculiar. Um trecho de Gilka Machado talvez sintetize esse ímpeto: “Ser mulher, vir à luz trazendo a espírito talhada/ para gozos da vida, a liberdade e o paixão”.

O quarto e último núcleo dá conta de escritoras que nasceram de 1940 a 1970. A partir do século 20, a maior novidade que percebemos é a ocupação, pelas próprias autoras, do processo editorial com revistas, coleções e antologias preparadas por grupos organizados e militantes.

As novas formas de veiculação permite ceder levantamentos que, várias vezes, continuam mesmo agora “afastando escritoras, principalmente as racializadas, desses lugares de prestígio e reconhecimento”.

O cânone literário, sabemos, é inevitável. Vivemos esse repto a cada lição ou seleção que preparamos. Por isso, quando Heloisa Teixeira (ainda Buarque de Hollanda) lançou, em 2021, “As 29 Poetas Hoje” (todas mulheres), afirmou que queria incluir na que seria sua última crestomatia poética “vozes fora do eixo dominante, heteronormativo e branco: são vozes lésbicas, vozes negras, vozes trans, vozes indígenas, interseccionais”.

A chegada ao momento contemporâneo, no livro, evidencia o risco que se corre ao questionar, subverter ou interromper o cânone: recriá-lo autoritariamente. O trabalho das duas poetas contorna esse risco transformando o livro num coro de mulheres que, juntas, impõem a voz da mulher poeta.

Folha

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