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Didier Eribon, de 'Retorno a Reims', jamais fez autoficção
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Didier Eribon, de ‘Retorno a Reims’, jamais fez autoficção – 10/07/2026 – Ilustrada

Didier Eribon costuma ser associado à autoficção, gênero literário hoje festejado por leitores e críticos, que colocam autores uma vez que Annie Ernaux e Édouard Louis no mesmo balaio. Eribon, porém, rejeita essa relação.

“Se você usa esse termo, quer expor que segmento do meu trabalho é ficcional, o que não é verdade”, afirma. O jornalista gaulês de 73 anos está em seu apartamento em Paris, de onde conversa por vídeo com a reportagem da Folha. Há décadas, sua obra desafia mesmo as classificações.

Eribon é responsável do clássico “Retorno a Reims”, no qual descreve sua puerícia em uma família da classe trabalhadora no nordeste da França e sua subida uma vez que intelectual em Paris. É um trabalho de sociólogo, mas escrito em linguagem literária.

Nos últimos anos, o responsável passou a reivindicar um termo que lhe parece mais adequado: “sociobiografia”. Tanto que esse foi o título que deu ao seu último livro, que chega agora ao Brasil pela Âyiné, com tradução de Luzmara Curcino.

No formato de perguntas e respostas, o livro registra uma série de entrevistas que Eribon concedeu a Geoffroy Huard, seu macróbio aluno. Foram diversos encontros, trocas de email e conversas por Zoom para chegar ao texto final, no qual o jornalista reflete sobre meio século de trajetória intelectual.

“As pessoas podem ler ‘Retorno a Reims’ uma vez que quiserem. Não quero tentar controlar isso. Mas não acho que ‘autobiografia’ seja o melhor termo”, afirma. “Não é que eu reclame. Mas, quando me perguntam se aceito o rótulo, digo que não.”

Vale expor que outros autores famosos por sua “autoficção” —uma vez que Ernaux e Louis— também já rejeitaram essa descrição, preferindo termos uma vez que “autobiografia impessoal” e “romance autobiográfico”.

Eribon nasceu na comuna de Reims, se mudou para Paris na juventude e estudou na Sorbonne. Porquê jornalista, entrevistou alguns dos intelectuais mais importantes do século, uma vez que Michel Foucault e Pierre Bourdieu, dos quais acabou colega. Despontou em 1989 ao publicar uma importante biografia de Foucault.

Dez anos depois, consolidou sua curso com um experimento sobre a homossexualidade. Mas foi “Retorno a Reims”, de 2009, que o firmou de vez no quadro literário gaulês.

Eribon conta que começou com uma tentativa de autoanálise. Queria entender sua trajetória da classe trabalhadora à escol intelectual. “Percebi que toda autoanálise também é uma estudo histórica e sociológica”, afirma. “Precisei descrever minha família, meu meio social e minha instrução.”

A teoria meão de “Retorno a Reims” é que as condições sociais de largada —no seu caso, a pobreza— condicionam a vida de uma pessoa. É um tanto de que dificilmente se escapa.

“Quando cheguei a Paris, tinha um sotaque da classe trabalhadora do nordeste da França. Tive que desaprender meu modo de falar e aprender a maneira mais legítima e sofisticada”, conta.

Não é que Eribon não tenha aprendido. Mas, de alguma maneira, “o pretérito segue na gente”. Foi reprovado duas vezes no revista que lhe permitiria dar lição em escolas, o que o levou a seguir curso no jornalismo. “Eu ainda não tinha subjugado os códigos sociais do sistema de ensino. Culturalmente, não era bom o suficiente.”

Começou o doutorado, sem verba para remunerar aluguel nem comprar comida. Teve de interromper a escrita da tese e dedicar-se ao trabalho remunerado, o que significou que, à quadra, não pôde se tornar professor universitário.

Muito mudou conforme ele ganhou notabilidade no jornalismo e se consolidou na liceu. Lecionou em grandes universidades americanas e francesas. Ainda assim, o pretérito.

“Estou falando com você em um apartamento que alugo. Não estou reclamando. Mas nunca herdei zero dos meus pais e nunca consegui comprar um apartamento em Paris”, diz.

Enquanto isso, ouve alguns de seus amigos discutindo o que fazer com suas casas no interno da França. “Não digo que não podemos ser amigos. Mas há coisas em nossas vidas que foram diferentes. Quando eles contam histórias do seu pretérito, me lembro do meu próprio e vejo uma vez que somos diferentes.”

Outro ponto meão de “Retorno a Reims” é a homossexualidade. “Quando eu tinha 16 anos, não era o típico faceta durão dos subúrbios da classe trabalhadora. Já sabia que eu era gay, mas não podia descrever para ninguém.”

Decidiu buscar uma identidade que não se baseasse na teoria de masculinidade. “Comecei a ler Marguerite Duras, o que era uma maneira de ser gay sem expor isso. Queria me reinventar, aderindo a uma cultura mais sofisticada.”

Uma das razões para seu sucesso foi expor tudo isso em estilo literário, próximo ao da ficção — o que não quer expor, insiste, que escreva ficção. “Sou sociólogo, filósofo e teórico”, afirma. “O que tento fazer é retirar a sociologia da liceu. É um livro de sociologia sem as normas acadêmicas, de que me emancipei.”

Quer se chame “autoficção” ou “sociobiografia”, o gênero é hoje bastante popular. O próprio Eribon cita diversas vezes na entrevista o caso de Édouard Louis, um de seus principais herdeiros intelectuais, hoje seu colega íntimo, e elogia o trabalho do brasiliano José Henrique Bortoluci, do livro “O que É Meu”.

Credita o sucesso desse tipo de livro, em segmento, ao traje de fornecerem ferramentas da sociologia a um público espaçoso, que pode usá-las para se compreender.

Só isso explica uma cena que ocorreu dias antes da entrevista. Posteriormente uma palestra na Alemanha, Eribon foi abordado por um aluno chinês que lhe disse que “Retorno a Reims” tinha sido fundamental para ele.

“Porquê é verosímil que meus livros sejam lidos na China, no Brasil e na Argentina e que leitores me digam que eu contei suas próprias histórias? Mesmo que seus passados sejam diferentes do meu, os leitores ainda assim encontram conceitos relevantes para si.”

O repórter pergunta se isso significa que fatos sociais, uma vez que a classe e a sexualidade, têm um tanto de universal. “É muito estranho. No meu trabalho, insisto nas especificidades sociais e nacionais. Mas você tem razão: há muitas coisas que não são tão específicas.”

“Essas estruturas, experiências e emoções são as mesmas. A homofobia, a existência da classe trabalhadora, o sistema educacional… Tudo isso que está no meio dos meus livros pode ser lido da mesma maneira na Coreia do Sul, na Argentina ou no Reino Unificado.”

Também é generalidade pelo mundo, hoje, a transmigração de eleitores da classe trabalhadora para partidos da extrema direita, um tanto que Eribon analisou já em “Retorno a Reims”, mostrando uma vez que sua família trocou os social-democratas por Marine Le Pen.

O responsável culpa os próprios partidos socialistas por terem adoptado “discursos neoliberais”, deixando um vazio ocupado pela direita radical. “Chamaram-me de vaticinador do sinistro. Mas não é que eu seja um vaticinador. Exclusivamente vi esse processo debutar e entendi que era um tanto enorme e bastante perturbador.”

Folha

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