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Jão retorna após hiato querendo ressignificar sua história 26/07/2026
Celebridades Cultura

Jão retorna após hiato querendo ressignificar sua história – 26/07/2026 – Ilustrada

Jão está parado no trânsito quando uma senhora de cabelos brancos quebra a janela de seu coche e o encara. “É engraçado que as coisas mais horríveis do mundo aconteçam em dias comuns. Que nascem com Sol, com cheiro de pão”, narra uma voz. “O cotidiano é traiçoeiro, leva sem aviso e depois fica ali, lembrando.”

É logo que começa o trailer que anunciou “Memórias Póstumas”, o quinto e mais recente disco do cantor Jão, lançado neste domingo (26). O vídeo, que mistura linguagem cinematográfica e referências literárias, funciona porquê uma introdução ao universo do álbum —a senhora, que em outro momento saca uma arma e atira no companheiro de almoço de Jão, seria uma personificação da morte.

O retorno acontece depois do maior momento da curso do cantor. Em janeiro de 2025, Jão encerrou a turnê do disco “Super” com shows lotados no Nubank Parque, idoso Allianz Parque, em São Paulo. Antes disso, passou por outros espaços de grande porte do país, esgotando diversas apresentações. Centenas de milhares de fãs se reuniram para vê-lo na “Superturnê”.

“Eu lembro de pensar, quantas pessoas já tiveram essa experiência? Queria fotografar aquilo na minha cabeça para relatar aos meus filhos”, diz. Pouco depois, porém, ele desapareceu dos holofotes.

Em meio ao solidão, o artista perdeu o pai. Nessa estação, deixou São Paulo e voltou a morar no interno paulista, ao lado da família. Foi ali, distante da rotina da curso, que passou a questionar a própria relação com a música.

“Eu não queria ouvir música”, afirma ele agora. “Eu estava me sentindo um pouco infeliz de estar ouvindo música, fiquei um pouco sem perspectiva da minha curso, de porquê eu queria seguir, se eu queria seguir.”

A reconciliação aconteceu de madrugada. Correndo pelas ruas da cidade onde cresceu, Américo Brasiliense, ouviu “Virgin”, álbum da cantora neozelandesa Lorde, e começou a chorar. Diz que naquele momento entendeu que a música continuava sendo sua linguagem mais proveniente. “Depois desse dia, começou um grande vômito de coisas que eu precisava manifestar.”

Transformar esse conjunto de ideias em álbum levou um ano e meio. O trabalho voltou a reunir seus parceiros Pedro Tófani, namorado do cantor, e o produtor Zebu, com quem diz ter desenvolvido uma espécie de linguagem própria. “A gente passa muito tempo escolhendo a caixa da música, o timbre da bateria, do violão. O ‘funciona’ me mata. Se funcionou, qualquer pessoa faz funcionar. Eu quero fazer o que serve melhor à música.”

Desde a estreia, em “Lobos”, de 2018, sua discografia foi organizada quase porquê uma narrativa fechada. Jão costumava manifestar que seus quatro primeiros álbuns correspondiam aos quatro elementos da natureza —terreno, ar, chuva e queima—, não unicamente na identidade visual, mas também na maneira porquê o cantor entendia cada momento da própria vida.

As mudanças de estética se tornaram uma marca da curso, replicando o que grandes divas do pop internacional fazem, com suas “eras”. A cada lançamento, mudavam as cores, a direção de arte, os figurinos e o universo simbólico que acompanhava as músicas. Para o cantor, eram uma forma de documentar quem ele era naquele momento.

“Se você pegar uma risco do tempo da minha vida, eu sou pessoas muito diferentes em todas elas, e eu acho que eu enxergo isso em mim, mas acho que todo mundo é um pouco assim”, diz. “Eu sempre acreditei em artistas que documentam quem eles são. Palato de ver porquê a pessoa cresce, muda de perspectiva, fracassa, volta. Isso é muito humano.”

Pela primeira vez, Jão diz não saber exatamente em que lugar enquadrar o próprio trabalho. “Ele tem mais poder de me relatar agora, a partir do momento em que eu o lanço, do que eu tenho para deliberar o que ele é.”

O cantor afirma que nascente é “um álbum das palavras”. Para ele, as músicas nasceram da premência de reorganizar o significado das coisas depois de um período em que a própria vida parecia ter perdido sentido.

“Eu vivi algumas coisas que me fizeram entender a insignificância das coisas, primeiro do lado negativo e depois do lado positivo. Se as coisas não têm significado nenhum, portanto eu dou significado para elas. É um álbum das palavras. Eu queria recontar a minha história da minha maneira.”

O título, inspirado em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, surgiu muito antes de o disco subsistir por completo. Jão diz que costuma desenredar o nome dos álbuns antes mesmo de saber exatamente quais músicas farão secção deles.

Desta vez, a “literatura” —termo que, aliás, batiza uma das faixas do disco— acabou servindo porquê ponto de encontro entre o tema da memória e a valimento que a linguagem assumiu durante o processo de geração.

Voltar ao interno —que tanto quis evadir um dia— também mudou a sonoridade do trabalho. Jão conta que não pretendia fazer um disco nostálgico nem prestar homenagem a uma dez específica, mas percebeu que as músicas brasileiras que ouviu durante a puerícia começaram a chegar naturalmente nas composições. “Quando eu fui para lá e comecei a virar de novo essa pessoa que era de lá, entendi que eu sou fruto daquele lugar.”

Foi nesse período que voltou a escutar “Memórias, Crônicas e Declarações de Paixão”, de Marisa Monte, primeiro disco que diz ter ouvido de cabo a rabo por escolha própria. A memória afetiva ajudou a explicar por que instrumentos, timbres e imagens ligadas ao interno aparecem de maneira quase intuitiva em “Memórias Póstumas”, porquê sons de sanfona, imagens que remetem à vivenda da avó e letras sobre uma cidade interiorana.

Apesar de o luto terçar secção do álbum, Jão evita tratá-lo porquê um processo de trato. Diz que grafar as canções não o ajudou a entender a morte do pai. “Me ajudou a viver o dia. Mourejar com o que eu podia mourejar naquele dia era fazer esse disco intercorrer.”

Quase dez anos depois de despontar porquê um dos grandes nomes do pop brasílio, o cantor diz que aprendeu, supra de tudo, a manifestar não. Afirma que as decisões mais importantes da curso foram justamente aquelas em que recusou caminhos mais rápidos ou fáceis.

O solidão dos palcos e das redes foi principalmente difícil pois significou também interromper uma relação que Jão cultivou durante quase uma dez com os fãs. “Senti muita falta deles. Me senti culpado, porquê se tivesse despovoado a crédito que eles depositaram em mim. Eu entendia que precisava daquele tempo, e acho que eles entenderam também, mas era quase uma sensação paternal.”

Seus fãs, no entanto, parecem não vigilar mágoas. Os 11 milénio ingressos para a audição pública de “Memórias Póstumas”, realizada no Vale do Anhangabaú neste domingo, se esgotaram em murado de um minuto, segundo a assessoria do cantor. Em setembro, Jão estreia seu novo show em São Paulo, dando início ao próximo ciclo do álbum.

Agora, com “Memórias Póstumas” finalmente nas ruas, Jão acredita que a obra deixa de pertencer unicamente a ele. Depois de meses escrevendo para sobreviver ao cotidiano, ele espera que as palavras encontrem novos significados nas histórias de quem as ouvir.

“Eu sei o quanto é importante florescer através do trabalho de uma outra pessoa que disse o que eu não conseguia manifestar, me mostrou o que eu não conseguia ver.”

Folha

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