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Jornalista revê mitos em livros sobre Gil, Caetano e Chico
Celebridades Cultura

Jornalista revê mitos em livros sobre Gil, Caetano e Chico – 31/07/2026 – Gustavo Alonso

Na semana passada, escrevi sobre a recente produção documental músico brasileira e o tanto que esse tipo de obra procura exclusivamente homenagear os artistas. Falta coragem a muitos cineastas brasileiros para abordar a música brasileira de forma mais provocadora.

Não há desculpa. Hoje em dia há segurança lícito para a produção de obras biográficas sem o aval dos próprios artistas. Em 2015, o Supremo Tribunal Federalista aprovou a “lei das biografias” (ADI 4815). Ela deu termo a processos abertos por artistas incomodados com verdades incômodas expostas em livros, peças e filmes. Muitos músicos da MPB advogavam pela “privacidade” para, na verdade, cercear a liberdade criativa e de sentença de outros artistas, escritores, teatrólogos e cineastas, que buscavam retratar nossa música popular com olhos menos endeusadores.

De 2015 para cá, poucos se aproveitaram de vestuário da garantia lícito para produzir obras interessantes, instigantes e sem rabo recluso com o entusiasmo de artistas. Logo é preciso louvar aqueles que o fazem.

Um responsável que merece menção é o jornalista Tom Cardoso. Desde que a “lei das biografias” foi aprovada pelo STF, Cardoso escreveu um livro-reportagem sobre o ex-governador fluminense Sergio Cabral, e biografias de Nara Leão e Cássia Eller. Mas a obra sobre a qual quero invocar atenção cá é a trilogia sobre a santíssima trindade da música brasileira: Gilberto Gil, Caetano Veloso e Chico Buarque.

Em 2022, Cardoso publicou “Outras Palavras: Seis Vezes Caetano”. Em 2024, foi a vez de “Trocando em Miúdos: Seis Vezes Chico”. Agora, neste ano, ele lançou “Nem Tanto Esotérico Assim: Seis Vezes Gil”. Os subtítulos fazem referência ao formato das obras. Não são biografias, mas ensaios temáticos espinhosos sobre os gênios da MPB.

Assim, o livro sobre Gil tem capítulos sobre política, poder, repreensão, negritude, família e música. O livro sobre Chico Buarque aborda política, literatura, glória, polêmicas, repreensão (e autocensura) e futebol. O de Caetano tem capítulos temáticos sobre Santo Amaro (sua cidade natal), polêmicas, liderança, vanguardismo, paixão e política.

A intensa produção de Tom Cardoso, prolífico a ponto de ter vários livros no mercado, tinha tudo para fazer a gente vacilar da qualidade da apuração. Enfim, porquê pode um responsável ortografar biografias, além das já mencionadas, de figuras tão diferentes porquê o jogador Sócrates, o jornalista Tarso de Castro e o empresário Paulo Machado de Roble, um dos maiores dirigentes esportivos do país e fundador da TV Record?

Mas não se engane, Tom Cardoso já ganhou um prêmio Jabuti em 2012 por seu livro-reportagem “O Cofre do Dr. Rui, que narra o assalto ao político Adhemar de Barros, em 1969, realizado pela luta armada durante a ditadura.

O livro de Tom Cardoso sobre Gilberto Gil, que li recentemente, começa mostrando que seu pai, o senhor José Gil Moreira, era presidente da Câmara Municipal de Vitória da Conquista e assinou a ata do dia 17 de abril de 1964, que celebrava o golpe militar.

Enquanto o rebento começava a vida artística porquê cantor de músicas de protesto e depois seria exilado porquê tropicalista, seu pai, médico sanitarista, endossava a limpeza política de sua cidade. Em 1969, em pleno governo do general Médici, José Gil louvou o ditador enquanto seu rebento vivia expulso do país.

No capítulo sobre a família, o responsável mostra as tensões dos inúmeros filhos, netos e bisnetos, além das ex-mulheres do compositor genial, sem desrespeitar ninguém.

O capítulo sobre o poder faz um balanço cru da atuação de Gil na política, desde as rasteiras que levou, que o impediram de ser eleito para a prefeitura soteropolitana, até o descompromisso com o função de vereador de Salvador nos anos 1980. Naquela quadra, Gil preferiu continuar a curso de artista concomitantemente à vereança. Sem tempo útil, esteve ausente de 63% das sessões da Câmara Municipal.

Não falta coragem a Tom Cardoso e, por isso, seus livros merecem atenção. Mas quem quer ler um tanto que incomoda, que não passa tecido? Vivemos uma quadra em que o endeusamento de artistas antecede qualquer norma lícito. Mudar a lei foi “fácil”; difícil é mudar a mentalidade de nossos produtores e evitar o lambe-lambe cultural.

O interessante das obras do Tom Cardoso é que, por meio do formato ensaístico, ele vai direto às polêmicas, vertical e valentemente, sem perda de tempo com floreios biográficos. Não é um formato exatamente novo, mas que andava sumido da estudo músico e que exacerba as qualidades do texto do responsável. Diante de tanta qualidade, por que ainda há tanta gente (público, cineastas e outros autores) com tanto pavor de encarar os mitos da MPB de frente?


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Folha

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