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José Henrique Bortoluci publica livro 'Geração Democracia' 23/08/2026
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José Henrique Bortoluci publica livro ‘Geração Democracia’ – 23/08/2026 – Ilustrada

Em 2024, o sociólogo e noticiarista José Henrique Bortoluci fez 40 anos. Chegou ao mundo no ano em que a ditadura militar brasileira morria.

“Somos desse grupo de brasileiros que nasceu com a democracia, num país em que ela mais parece uma roupa gasta que herdamos de um parente distante”, ele escreve em “Geração Democracia”, seu novo livro, que lança posteriormente estrear na literatura com o laureado “O que É Meu”, ambos pela Fósforo.

Tudo muito que o sistema político que Winston Churchill resumiu em 1947 porquê “a pior forma de governo, à exceção de todas as outras”, não está em sua melhor forma. Não posteriormente a “reemergência de uma visão autoritária no Brasil que sempre existiu, mas que voltou à tona de forma mais potente na última dezena, com o bolsonarismo”, afirma Bortoluci à Folha.

Mas, por muito tempo, a democracia pareceu um vestuário consumado para sua geração, “porquê o ‘Programa Silvio Santos’ aos domingos ou a nossa supremacia no futebol mundial”.

Ah, a ironia. A atração perdeu fôlego posteriormente morrer o proprietário do SBT, e a seleção brasileira não ganha uma Despensa do Mundo há quase um quarto de século. Já a ilusão democrática desbotou para quem nasceu no miolo dos anos 1980 e cresceu sob a égide da redemocratização e da Constituição de 1988.

Há um sentimento de refrigério por ter vindo posteriormente o regime militar, alheios ao pânico da exprobação e das prisões arbitrárias, mas isso gera também uma “melancolia de quem chegou tarde demais às grandes lutas coletivas do pretérito”, segundo Bortoluci.

Mas quem é, por fim, essa turma para quem a democracia é o “ponto de partida”, e não o “ponto de chegada”?

Ele prefere escutar do que teorizar. Ziguezagueou o país para entrevistar personagens tão distintos quanto uma policial militar que admira Paulo Freire e um ex-traficante que, hoje pregador evangélico, converte criminosos. Conversa com a militante de esquerda e o “patriota até o osso”. Interessa-lhe “a gente miúda, os sujeitos que, na Atenas clássica, teriam ficado de fora da ágora, e que, no Brasil contemporâneo, frequentemente seguem alijados das narrativas sobre a democracia de que fazem segmento”, diz.

O responsável se questiona se suas “armas intelectuais” porquê sociólogo estão “perdendo o golpe”. Reflete se a esquerda universitária possui “teorias demais e aprendizados de menos”. E admite “um patente cansaço com uma fábrica de análises” que diz não desprezar, mas que domina “o cenário intelectual brasílico desde 2013” e tenta dar sentido a fenômenos correlatos —da reconfiguração da classe trabalhadora, uberizada e precarizada, à amplificação de vozes autoritárias.

Bortoluci opta pelo papel de “arquivista desorganizado”, coletando os “cacos de histórias” de gente da sua idade. É a postura que lhe parece mais honesta num momento em que “o porvir é um buraco no asfalto que pode nos derrubar, e a sátira é um cão sem proprietário, que lambe as patas enquanto espera que alguém o adote novamente”.

A dificuldade em conceber futuros viáveis entra porquê patologia geracional. “Tenho dito que o porvir é uma ficção política. Aquela visão dominante dos anos 1990, de que havíamos de certa forma chegado ao termo da história, e agora o que tinha que ser feito era administrá-la, é quase o negativo daquilo que surge recentemente”, afirma, evocando a tese de Francis Fukuyama.

Fica difícil enxergar um horizonte quando “vivemos uma quadra de crise permanente, com uma série de colapsos: o climatológico, o civilizacional, o da lucidez sintético”, diz. Essa falta de perspectiva é um tecido de fundo importante para definir segmento da identidade da tal geração democracia. Ele incluso.

Bortoluci falou com muita gente para ortografar o novo livro, relatos que inicialmente publicou, de forma parcelada, na revista piauí. Também falou um fatia de si, numa prosa supra de tudo ensaística. Uma vez que já havia feito em sua estreia, explora a tensão permanente entre a história coletiva e a individual, definindo uma geração porquê “essa coisa estranha que vive na passagem entre aquilo que é meu e aquilo que é nosso”.

Enfileira memórias de puerícia que não são exclusivamente suas. Lembra o “presidente engomadinho” que fazia cooper, usava gel e confiscou poupanças. Também não esquece do vice dele, de topete, posando ao lado de uma protótipo sem calcinha na Sapucaí.

Bortoluci cresceu analógico. Faz segmento da última leva de brasileiros que foi saber a internet só na mocidade e já era adulta quando acessou as redes sociais.

A TV oportunidade dos anos 1990 reinava porquê uma “ilusão de unidade” vernáculo. Uma vez que tantos de seus contemporâneos, o fruto de caminhoneiro e dona de mansão assistiu a filmes da Sessão da Tarde, à banheira com celebridades seminuas no programa do Gugu, concursos para optar a loira e a morena do Tchan. Soube que o Brasil havia ganhado a Despensa do Mundo de 1994 com Galvão Bueno gritando “é tetra!”. Temeu pelo folclórico chupa-cabra e pela epidemia de Aids.

As lembranças individuais viram memória geracional. Esse repertório generalidade atravessa trajetórias muito distintas entre si, que tantas vezes formam o que o responsável labareda de “roteiro do quase”. É a percepção de que a firmeza no Brasil é frágil e que qualquer imprevisto, porquê uma enchente, uma crise de saúde ou um incidente de violência, pode empuxar o sujeito de volta à penúria.

A história de Camila, cozinheira, camareira e cuidadora de idosos em Fernando de Noronha, ilustra muito essa sensação. Ela engravidou do primeiro fruto aos 12 anos e é mãe de um rapaz diagnosticado com esquizofrenia, epilepsia e autismo. Uma mulher semi-alfabetizada que usa o microfone do celular para ortografar mensagens e chega a dormir só três horas por noite para juntar verba e, quem sabe, um dia montar seu próprio negócio, uma panificação.

Camila contou que largou para trás duas casas que comprou numa ocupação em Fortaleza, uma para ela e outra para a mãe. Fugiu posteriormente ser ameaçada de morte por traficantes.

O responsável reconhece que abraçou esse projeto de inventar um quadro da sua geração “porquê se buscasse uma espécie de bote salva-vidas em meio à tempestade dos últimos anos”. Ainda não achou onde se concordar.

“Mas consegui ver com mais perspicuidade que a tempestade é coletiva, e que as pessoas seguem inventando maneiras de atravessá-la.”

Folha

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