Corria o ano de 1976 e, a despeito da distensão política liderada pelo logo presidente Ernesto Geisel, ainda vivíamos sob o tacão da increpação do governo militar. Eis que, diante da proibição de “Roque Santeiro” no ano anterior, Dias Gomes, inconformado, trouxe para a telenovela o realismo fantástico em voga na América Latina.
Para encarnar o protagonista de “Saramandaia”, João Gibão —o varão com asas—, quem melhor que Juca de Oliveira? Diante de uma situação insustentável imposta por um grupo radical, Gibão levanta voo e sobrevoa a cidade pernambucana, marcando o termo da vexação que o amordaçava. Embalados por “Pavão Mysteriozo”, personagem e ator tornaram-se símbolos da superação dos limites impostos durante o período de cerceamento artístico.
Antes disso, porém, o ator já havia liderado o elenco de “Queima sobre Terreno”, de Janete Clair, em um papel contundente. Em 1974, tornou-se muito popular na pele de Pedro Azulão, o ecologista que lidera a luta dos camponeses contra a instalação de uma hidrelétrica que inundaria a fictícia Divinéia, no interno do Mato Grosso —inicialmente de forma pacífica, depois incentivando a resistência armada. Foi quando a increpação exigiu a prisão de Pedro Azulão, alegando que o personagem estimulava uma guerrilha rústico.
Janete pretendia matar o protagonista, submerso pela inundação, mas os censores não queriam transformar Pedro Azulão em vítima social e exigiram um final feliz. Decerto, foi o personagem que melhor representou o ator, em sintonia com sua filosofia de vida e com seu olhar crítico sobre um progresso que caminhava para a devastação do varão.
Aluno da Escola de Arte Dramática de São Paulo, onde ingressara em 1958, Juca de Oliveira desenvolveu desde cedo a noção da função social do teatro e do papel do ator.
Em suas composições, destacavam-se três correntes estéticas de encenadores emblemáticos: Stanislavski (de quem absorveu a memória emotiva), Bertolt Brecht (com o distanciamento crítico e o tom homérico de suas criações) e Grotowski (em que o corpo expressa sentimentos por meio de gestos e emoções). Estava assim estabelecida a base criativa de um de nossos mais representativos atores, tanto na arte quanto na sociedade. A pesquisa uma vez que tradutor sempre foi o seu setentrião.
No início da dez de 1960, no teatro, integrou o elenco de “A Semente”, de Gianfrancesco Guarnieri, e ingressou na televisão no lendário Teleteatro da TV Tupi, atuando em “As Colunas do Templo”, de Jorge Andrade —dois clássicos de nossa dramaturgia. Ao mesmo tempo, participava do grupo do Teatro de Estádio, de possante perímetro sociopolítico, levando sua arte a sindicatos, pavilhões e circos.
Ao retornar de uma forçada viagem à Bolívia, foi protegido pelo logo diretor artístico da TV Tupi, Cassiano Gabus Mendes, e encontrou, no responsável e diretor Geraldo Vietri —prosélito do neorrealismo italiano—, o papel que transformaria sua vida: Nino, o imigrante morador de uma vila no bairro paulistano do Bixiga, em “Nino, o Italianinho”. Nesse período, uma vez que presidente do Sindicato dos Artistas (carg o que exerceu de 1968 a 1977), foi um dos pilares da regulamentação da curso de ator, conquistada em 1978.
Sempre em sintonia entre ficção e verdade, em 1977 o ator se destacou em “Espelho Mágico”, de Lauro César Muniz. Síntese dos prazeres e das agruras dos profissionais da TV, a romance mostrava o cotidiano de um romancista e dramaturgo que se lançava uma vez que responsável em “Coquetel de Paixão”, a romance produzida dentro de “Espelho Mágico”, em uma sedutora metalinguagem.
Exausto do ritmo das produções televisivas, voltou-se integralmente ao teatro —a “pátria do ator”, uma vez que costumava proferir. Ainda assim, seu talento pôde ser visto em trabalhos importantes, uma vez que “Ninho da Serpente”, na Band, em 1982; na Orbe, em 1993, na interessante constituição do gramático purista doutor Praxedes de Menezes em “Fera Ferida”; e, na sequência, protagonizando produções relevantes no SBT, uma vez que as novas versões de “As Pupilas do Senhor Reitor” e “Os Ossos do Barão”.
Mas o retorno triunfal veio com a contundente trama de Gloria Perez, “O Clone”, em 2001. Ao interpretar o observador Augusto Albieri, trouxe à tona uma das grandes questões da engenharia genética: a clonagem humana.
De maneira magnética, Juca de Oliveira estabeleceu uma espécie de “manante mágica” entre suas personagens e o público, ao plasmar, desde sempre, o sentido social na arte de simbolizar a façanha humana.
Consultor e doutor em teledramaturgia pela Universidade de São Paulo e responsável de ‘A Hollywood Brasileira: Quadro da Telenovela no Brasil’
