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László Nemes faz filme sobre próprio pai no Holocausto
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László Nemes faz filme sobre próprio pai no Holocausto – 20/06/2026 – Ilustrada

A paternidade é um tema de grande prestígio na obra do húngaro László Nemes. Em seu filme mais famoso, “O Rebento de Saul”, de 2015, um judeu encontra o sucumbido do seu rebento, morto pelos nazistas, e faz o verosímil para enterrá-lo dignamente. E em seu novo trabalho, “O Órfão”, que acaba de chegar ao catálogo da Mubi, é uma moço que fica obcecada por desenredar o paradeiro do pai, que sumiu durante o Sacrifício.

Mas o filme, exibido no festival de Veneza do ano pretérito, tem um paisagem muito mais pessoal —e que envolve paternidade para além dos fatos da trama. É que a história se inspira na puerícia do próprio pai do diretor, o também cineasta e dramaturgo András Jeles, que passou por uma situação muito semelhante à do protagonista.

“Na verdade, foi a mãe dele quem me contou a maior segmento do que está no filme. Meu pai até ajudou no roteiro, mas quem transmitia a história para mim, antigamente, era a minha avó”, disse Nemes, em Veneza. Alguns detalhes, porém, nem mesmo ela chegou a relatar, logo o cineasta tomou certas liberdades, mas manteve o importante de sua história familiar. “Com o filme, estou tentando compreender meu próprio ser, minha origem.”

A trama começa pouco em seguida o termo da Segunda Guerra, quando o pequeno Andor reencontra sua mãe, judia que precisou se esconder em um vilarejo húngaro para evadir do Sacrifício, enquanto o menino ficou em um orfanato. Dez anos mais tarde, mãe e fruto levam uma vida mais estabelecida, embora sem luxos, em Budapeste. Mas Andor sofre com a falta de informações sobre o pai, que aparentemente teria morrido na guerra.

A situação se agrava quando reaparece o varão que escondeu a mãe de Andor durante o nazismo. Ele agora se envolve amorosamente com ela e quer assumir oficialmente a paternidade do garoto. Que, no entanto, recusa-o porquê pai.

Nemes diz ter um paisagem shakespeariano ali. “Acho que as grandes tramas humanas se baseiam em uma história arquetípica. ‘Hamlet’ é assim: tem o fantasma do pai, o rei usurpador e o príncipe sozinho. É uma narrativa edipiana. Acho que as histórias arquetípicas têm sua própria lógica e são, de certa forma, míticas”, diz o cineasta, mencionando que quanto mais se debruçava sobre a história de seu pai, mais detectava nela traços hamletianos.

A trama de “O Órfão” se passa imediatamente em seguida a Revolução Húngara de 1956, quando um levante popular tentou livrar o país da influência extrema soviética. Que foi prontamente massacrado, inclusive com aumento de militares russos na região.

Visto em 2026, quando a Rússia quer manter influência à força na Ucrânia, o ressurgimento desse incidente pode tanger porquê uma referência ao autoritarismo de Vladimir Putin, mas o cineasta nega. “É procedente surgirem essas comparações, mas não é um tanto que foi buscado”, diz.

“O cinema não é uma utensílio política. Não deveria ser. Talvez no subtexto, mas não no texto”, dispara o cineasta, de claro modo antecipando a polêmica fala do diretor germânico Wim Wenders no último Festival de Berlim, quando disse que artistas “têm que permanecer fora da política”.

Nemes também vai na contramão de vários colegas em sua postura sobre os conflitos de Israel, dizendo em entrevistas que há antissemitismo espalhado pelo mundo ocidental. E, esteticamente, discorda de quem acha que o cinema deve evitar mostrar excesso de sofrimento humano, preferindo representações mais positivas sobre quem vivencia tragédias.

“Mas o sofrimento é real e aconteceu a muitas pessoas”, diz Nemes. “Onde está a esperança em um filme porquê ‘Chinatown’ [de Roman Polanski, de 1974]? Você precisa ter esperança em ‘Chinatown’?”

“Acho que o cinema tem o responsabilidade de narrar histórias humanas que sejam arquetípicas. Não é político. É uma repetição das mesmas histórias, várias vezes. Fazer um tanto dissemelhante disso não cumpre seu propósito principal.”

O húngaro diz confiar que, nos últimos 20 anos, houve uma capitulação da arte em nome de certas demandas, “para aprazer ao público e à mídia, para lucrar prêmios”. “De certa forma, os cineastas traíram um pouco a arte. Há uma pressão industrial, há uma autocensura, há essa digitalização que tem efeitos absolutamente terríveis, inclusive no processo criativo.”

Aliás, a liberdade para fabricar parece inegociável para o diretor, que, desde o sucesso de “O Rebento de Saul”, tem flertado com Hollywood, mas tentativas de controlá-lo artisticamente teriam impedido projetos. Mas Nemes já alça voos internacionais —no mês pretérito, lançou no Festival de Cannes “Moulin”, produzido na França, sobre um herói antifascista do país. E seu novo projeto será em língua inglesa, “Outer Dark”, estrelado por Jacob Elordi. Ao que parece, porém, deverá impor seus ímpetos artísticos.

“O cinema mundial está cada vez mais parecido com um resultado simplificado de um código hollywoodiano, feito sob medida para o que os executivos e jornalistas consideram bom para o mundo”, diz. “Há muito moralismo, um neopuritanismo. E acho que isso simplesmente mata a arte.”

Folha

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