Laura Cardoso, no teatro, sabia ir do trágico ao patético – 18/08/2026 – Ilustrada
É geralmente no teatro que a maior segmento dos grandes intérpretes dá seus primeiros passos e aprende as primeiras lições. Mas não é a regra. Com algumas reprimendas dos pais, que temiam a curso artística, Laura Cardoso, morta nesta segunda-feira (17), fez sua estreia no rádio aos 15 anos.
Foi no veículo, ainda no auge naqueles anos 1940, que trocou o Laurinda de batismo pelo nome artístico de Laura. Ali, aprendeu e treinou aquilo que antes fazia em vivenda, sem compromisso, quando montava um palco improvisado de caixotes para declamar textos e inventar histórias diante da avó portuguesa —sua primeira espectadora.
Da rádio Cosmos passou logo à televisão, da qual foi uma das pioneiras. Na nascente TV Tupi, em 1952, estreou no programa “Tribunal do Coração”, e não parou mais. Passou pelo Grande Teatro Tupi, pela TV de Comédia e por muitas emissoras, uma vez que Record, Bandeirantes, Cultura e Orbe.
Sua formação atravessa praticamente todos os meios de representação do século 20 —da radionovela ao teleteatro, do teatro aos novos formatos da televisão. Nos primeiros anos, lidava com as ferramentas que tinha às mãos e construiu um trajectória de técnicas mais intuitivas do que formais.
Criada por Décio de Almeida Prado para profissionalizar o ofício da atuação, a Escola de Arte Dramática estava ainda nos primeiros anos. Em testemunho para o livro “Laura Cardoso: Contadora de Histórias”, de Julia Laks, a atriz relembra que muito do que “foi fundamentado num estudo muitas vezes solitário, em erros e acertos. Atuávamos porque víamos os colegas no teatro, no cinema e tentávamos repetir o que faziam”.
A trajetória, mais baseada na prática do que na teoria acadêmica, não fez da artista uma inimiga dos livros. Ao contrário, a jovem Laura sempre complementou as lições aprendidas no dia a dia com uma sede pela leitura. Acreditava que o ator tem a obrigação de ser literato, saber o mundo.
E conectou-se ao espírito de mudança na arte de atuação trazido por iniciativas uma vez que o TBC, o Teatro Brasílio de Comédia, instalado no bairro do Bixiga, e o Teatro do Estudante do Brasil.
Sua sucessão de trabalhos —sempre foram muitos— e a dedicação com a qual encarava cada um deles não podem ser lidos, portanto, unicamente uma vez que um trajectória profissional, mas também de formação. Um caminho de encontro com novas técnicas e com novo material humano.
Colega de geração de outras grandes, uma vez que Cacilda Becker, Maria Della Costa e Fernanda Montenegro, Laura nunca ocupou o lugar de estrela ou diva. Contava que um colega de profissão a definiu certa vez uma vez que uma ‘operária’ e ela aderiu ao rótulo com alegria: “Operária, sim. Quem sou eu para não ser? É uma honra ser uma operária”.
Sua estreia no teatro foi tardia. Já tinha mais de 30 anos e era uma tradutor tarimbada quando atuou pela primeira vez sob a batuta de Antunes Rebento. A peça “Plantão 21”, que chegou aos palcos em 1959, era uma obra realista do teatro estadunidense e chamou atenção pela técnica de seu portanto jovem diretor. A parceria com Antunes Rebento foi certamente um ponto de maduração e inflexão na trajetória da atriz.
Com ele, fez também “Venha Ver o Sol na Estrada” (1973) e “Vereda da Salvação” (1993). O drama de Jorge Andrade ganhava uma dimensão expressionista no olhar de Antunes e a fabuloso versão de Laura uma vez que Dolor rendeu-lhe o Prêmio Shell de Melhor Atriz naquele ano.
A atuação em muitas frentes e o libido de saber sempre mais fizeram de Laura Cardoso uma artista muito sensível ao seu tempo e às suas transformações. O teatro declamatório do final do século 19, marcado por exagerados gestos e onusto de artificialidade, foi cedendo espaço aos ventos novos trazidos pelo realismo.
Laura viveu o auge dessa versão naturalista, mais próxima do comportamento cotidiano. E viu também essa manante —importada para o país por grandes encenadores uma vez que o polonês Ziembienski e os italianos Gianni Ratto e Adolfo Celi— mesclar-se a tintas mais populares e brasileiras.
Nome ligado essencialmente ao drama, Laura possuía uma camaleônica capacidade de adaptação às situações, indo desde o trágico ao cômico e ao patético.
A particularidade louvada por Antonio Abujamra, outro diretor com quem manteve estreita parceria, dá o tom da longa e profícua trajetória e pôde ser exemplarmente exibida em “Vem Buscar-me que Ainda Sou Teu” (1990), com a qual também foi agraciada com diversos prêmios. Escrita por Carlos Alberto Soffredini, a peça era uma poética revisita à arte popular.
Bebeu nos depoimentos dos artistas circenses, ganhou as cores mais brasileiras e vibrantes na encenação de Gabriel Villela, e coroou o talento de uma artista que se colocava sempre a serviço da personagem e da história que vinha narrar.





