O espetáculo começa antes de qualquer vocábulo. O público entra, ocupa as cadeiras, aguarda. No palco, não há atores à vista — unicamente uma serra de centenas de livros empilhados sem ordem aparente, formando um relevo que atravessa o espaço cênico. O testemunha olha para aquela paisagem de papel sem saber que está encarando os próprios intérpretes. Eles estão debaixo dos volumes. Imóveis, invisíveis, incorporados à cenografia que os oculta.
Quando a peça começa, os livros se movem. Lentamente. Um volume desliza, outro tomba. O movimento é quase imperceptível, porquê se o solo tivesse respiração própria. O público vagar a compreender: não são os livros que se movem, mas corpos que emergem.
Soterrados pela rima, os atores iniciam um deslocamento tão gradual que nossa percepção precisa se reajustar. O gesto é fundador. Beatriz Barros estruturou a introdução a partir dessa imagem: corpos negros soterrados pela produção intelectual que a sociedade lhes nega e, ao mesmo tempo, impõe porquê peso. Surdir sem pressa nem ostentação já estabelece o tom da encenação.
Esse processo produz um estranhamento precípuo. O público vira testemunha de corpos que sempre estiveram ali, ocultos sob camadas que a história depositou sobre eles. A metáfora é direta: a memória negra no Brasil está enterrada sob uma cultura que a inclui porquê objeto e a exclui porquê sujeito. O trabalho da peça é desenterrar.
A arquitetura cênica de Wanderlei Wagner, prescindindo de coxias, amplifica esse sentido: os atores não têm para onde se retirar. A literatura que deveria libertar também aprisiona. Em cena, os quatro atores do Coletivo Ocutá — Alexandre Ammano, Bruno Rocha, Vitor Britto e Victor Salomão (que substitui Marcos Oli) — transformam os volumes em degraus, armas e escudos, revezando-se nos personagens da história.
Essa dinâmica expõe o racismo estrutural e o apagamento de forma crua. O testemunha experimenta uma vergonha retrospectiva por não ter enxergado o que estava diante dos olhos. A procura de Pedro pela história do pai assassinado deixa de ser um drama familiar só para se tornar a investigação arqueológica da própria negação da subjetividade negra no Brasil.
Ao recusar a fixidez dos personagens, a encenação afirma que a história de Henrique (o pai) e Pedro poderia ser a de qualquer um dos atores — e que a violência que os atravessa é estrutural, não eventual. Mesmo a leveza cômica que os atores imprimem mais tarde, na lição sobre “Transgressão e Punição”, só se sustenta porque a plateia presenciou seu sufocamento inicial.
Esse dispositivo, no entanto, se estende também à representação de Marta, a mãe de Pedro. A personagem é encenada de forma alternada pelos próprios atores masculinos do coletivo. Se a escolha acentua o caráter performático, fluido e ritualístico da montagem, ela também gera uma tensão perceptível em relação à representatividade e à interseccionalidade de gênero. O que não interfere no resultado.
A direção de Beatriz Barros consolida a premissa de um corpo que já atuava antes de ser visto. A peça não começa quando a plateia julga útil; ela começou antes, no momento em que os atores se deitaram sob os livros e o silêncio se fez cena.
A circulação internacional de “O Avesso da Pele” por Portugal marca um novo capítulo para a trajetória de três anos do espetáculo, viabilizada a partir da fala feita junto ao curador Jorge Lourenço durante o período em que o ator Vitor Britto residiu no país. Em outubro, o Coletivo Ocutá levará a montagem às cidades de Loulé, Aveiro e Coimbra, combinando as apresentações com a realização de oficinas sobre adaptação literária e metodologias de geração cênica.
O feito ganha ainda mais relevância por se tratar de uma produção independente que, mesmo sem patrocínios, já percorreu diversas capitais brasileiras — do Sul ao Setentrião do país — e agora consolida a expansão do seu trabalho no exterior.
Três perguntas para…
… Vitor Britto
Uma vez que é, para você, estar ali debaixo daqueles livros, imóvel, enquanto o público entra e ocupa as cadeiras sem saber que você está lá? O que passa pela sua cabeça nesses minutos de silêncio e espera?
É uma introdução fundamental para o espetáculo. Exige muito treino e foi uma conquista gradativa. No início dava sofreguidão, mas, em seguida três anos de circulação, aprendi a me conectar inteiramente com a cena: permanecer deitado, imóvel e de olhos fechados. A presença daqueles volumes sobre os nossos corpos gera um impacto visual subitâneo e traduz uma imagem potente que a diretora Beatriz Barros trouxe desde os primeiros ensaios: corpos negros soterrados pelo peso dos livros.
O maior repto que enfrentamos foi no Theatro Municipal de São Paulo, no Dia da Consciência Negra. Uma vez que o público era imenso, ficamos 40 minutos sob a rima até a plateia se acomodar. Nessas horas, a única opção é ter concentração absoluta e se entregar por inteiro à proposta da cena.
O espetáculo fragmenta a narrativa linear do romance de Jeferson Tenório. Uma vez que foi, para você, edificar essa dramaturgia a partir do corpo e do movimento? O que surgiu em cena que não estava no texto original?
A dramaturgia foi adaptada por mim e pela Beatriz Barros, somada aos improvisos do elenco em sala. Ao transpor a literatura para o teatro, percebemos que nem tudo o que funciona no papel faz a cena andejar. Por isso, apostamos no corpo, na dança e no funk para recontar essa história além das palavras.
Uma das principais adições foi a cena da lição sobre “Transgressão e Punição”. No livro, o Jeferson só cita que o professor Henrique apresentou Dostoiévski aos alunos. Eu li o romance russo, selecionei os pontos centrais e estruturamos dois blocos de lição para a peça. Outro momento poderoso é a crise de sofreguidão do professor, que o Castilho, nosso preparador corporal, traduziu em movimento. A equipe foi precisa em fazer a narrativa saltar do texto para o corpo.
O romance de Jeferson Tenório sofreu tentativa de repreensão em 2024, e o espetáculo, que é inspirado nele, ganhou uma novidade categoria de urgência. Uma vez que foi para vocês, porquê coletivo, ver a obra que inspira a peça ser atacada?
Ficamos chocados. Acompanhamos a trajetória do livro desde 2020, quando o Jeferson nos cedeu a obra com enorme magnanimidade. Vimos a conquista do Prêmio Jabuti, as traduções no exterior e todo o alcance que o romance ganhou.
A tentativa de repreensão foi arbitrária, mas gerou um efeito revirado: desencadeou uma poderoso mobilização em resguardo do livro e as vendas saltaram em 400%. A peça ganhou ainda mais tração. Apesar do receio inicial de suportar represálias nas apresentações, fomos recebidos com um carinho imenso pelo público do país inteiro. O boicote falhou e a urgência da obra só se reafirmou.
Teatro Estúdio – Rua Mentor Nébias, 891, Campos Elíseos, região mediano. Terça-feira, 4 de agosto, às 20h. Duração: 90 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Os ingressos para a apresentação estão esgotados. Mas tem fileira de espera. Chegue com antecedência, informe seu nome na bilheteria, aguarde e confie!





