Laura Cardoso tinha método ‘doloroso’ de atuação; entenda – 18/08/2026 – Ilustrada
Laura Cardoso, morta aos 98 anos nesta segunda-feira (17), nunca se aposentou.
“Aposentadoria é quando você morre”, costumava expressar em entrevistas ao longo das últimas décadas, quando surgia, inevitavelmente, a pergunta sobre quando pretendia deixar os palcos e se distanciar das câmeras.
Nos últimos anos, a atriz já havia adotado um ritmo mais lento —sua última romance foi “A Dona do Pedaço”, de 2019, na qual entrou já na metade da trama. Mas, até o ano pretérito, ela continuava trabalhando —seu último papel foi o de uma idosa abandonada pela filha em um ponto de ônibus, no curta-metragem “Dona Rosinha”.
Uma de suas últimas aparições públicas, aliás, revelou o que a artista, nascida em 1927, representou para uma geração de atores: uma professora.
“É a minha mestra, a minha professora. Só não pegou lição com ela quem é imbecil”, afirmou Susana Vieira, de 83 anos, ao ser homenageada ao lado da atriz em uma passeio da glória montada pela TV Orbe em seus estúdios no Rio de Janeiro.
Vieira não detalhou quais foram as lições que tomou com Cardoso, mas a atriz era lembrada pelos colegas de trabalho, tanto primeiro quanto detrás das câmeras, porquê alguém que encarava a televisão sem vaidades e tratava o ofício artístico porquê qualquer outro, com dedicação supra de tudo.
“É uma coisa trabalhosa, que chega a dar canseira física, sabe? Quando você está estudando, fica quase que 24 horas ao volta do texto”, contou a atriz em entrevista ao Itaú Cultural para a gravação de vídeos exibidos em uma mostra em sua homenagem, realizada em 2017, em São Paulo.
“Você não pode largar, se é que você quer fazer um bom trabalho. Se é para decorar e falar o que está escrito, aí tudo muito. Mas, se você quiser realmente formar um personagem, erigir um personagem que tenha rostro, corpo, psique, aí dá trabalho.”
Na mesma mostra, em vídeos exibidos no espaço da avenida Paulista, colegas lembravam Cardoso porquê uma atriz que poderia até exagerar no preparo, por ser pouco afeita à improvisação —a ponto de permanecer brava quando, não só os colegas, mas ela própria esquecia uma única vocábulo do roteiro.
Laura reconhecia as críticas, mas justificava sua postura dizendo que, mesmo naquela profundidade, depois de mais de seis décadas de curso, não se sentia confortável em alargar seu método de preparo.
“É meio doloroso, viu? Eu fico muito mal quando vou erigir um personagem. Fico no escuro, porquê se estivesse num breu, aí eu vou lendo, pensando, pesquisando e, aos poucos, vou vendo meu personagem, vendo porquê é a rostro, o corpo”, ela explicou.
“As pessoas dizem: ‘Não precisa tanto’. Mas, para mim, precisa, senão vou me sentir insegura. Preciso de tempo para pensar, para ler, para decorar, para tudo.”
Rádio e TV feitos ao vivo não aceitavam erros
Filha de imigrantes portugueses, Laurinda de Jesus Cardoso Balleroni nasceu em 13 de setembro de 1927, em São Paulo, e começou a recrear de simbolizar ainda rapaz.
Aos seis anos, ela e uma amiga vestiam as roupas das mães e encenavam teatrinhos na rua. Aos 15, contrariando a resistência dos pais, decidiu tentar a sorte no rádio.
Em 1942, fez um teste na Rádio São Paulo, mas não chegou a trabalhar na emissora. No mesmo ano, porém, foi à Rádio Cosmos, onde acabou aprovada para atuar em radionovelas.
“Quase morri de alegria. Comecei assim: fugindo para fazer um teste para trabalhar na rádio”, contou a atriz ao documentário “Tributo – Laura Cardoso”, produzido pelo Globoplay.
Isso aconteceu em uma idade em que tudo era feito ao vivo, sem a possibilidade de amontoar cortes e regravações até que o trabalho ficasse bom. Ou por outra, sem a imagem, os atores precisavam erigir os personagens pela voz, o que exigia domínio inteiro do texto.
Foi no rádio, portanto, que a atriz começou a desenvolver a disciplina que marcaria sua curso. Deu patente: depois de passar por diferentes emissoras ao longo de uma dez, ela chegou à televisão em 1952, na TV Tupi, que havia sido inaugurada dois anos antes.
Estreou em “Tribunal do Coração” —um programa de júri dramatizado e interativo, fundamentado em histórias enviadas pelos espectadores—, mas para invadir espaço precisou obstinar.
“Eu passava pela Vida Alves e dizia: ‘Me graduação’. Passava pelo Cassiano Gabus Mendes e dizia: ‘Me deixa fazer uma vez; se não gostar, não faço mais'”, contou Cardoso ao programa Persona em Foco, da TV Cultura, em 2015, lembrando diretores fundamentais da televisão brasileira.
Aquela ainda era, vale lembrar, uma televisão em que o erro tinha outro peso. O videotape, porquê era chamada a fita magnética usada para gravar os programas, só chegou ao Brasil no término dos anos 1950. Cardoso, portanto, passou quase uma dez fazendo televisão ao vivo.
Quando chegou ao teatro, já trazia toda essa experiência. Sua estreia nos palcos foi em 1959, em Plantão 21, de Sidney Kingsley, sob direção de Antunes Rebento. Ambientada em uma delegacia de polícia de Novidade York, a peça reunia murado de 40 atores e exigia um trabalho de conjunto intenso.
“Passávamos 10, 12 horas dentro do teatro, onde ensaiávamos, ouvíamos palestras e exercitávamos nossa frase corporal”, lembrou a atriz em entrevista aos organizadores da mostra no Itaú Cultural.
Hoje, contadas à novidade geração de atores, a quem Cardoso não poupava críticas, essas histórias podem parecer causos de outro mundo. Mas ajudam a entender a formação da atriz que seria reconhecida porquê uma das maiores intérpretes do país.
Cardoso deixa duas filhas, três netos e um bisneto. Seu velório acontece nesta terça-feira (18) até as 14h em São Paulo.
Esta reportagem foi publicada originalmente cá




