Leonardo Piana tensiona masculinidade em livros delicados 10/04/2026

Leonardo Piana tensiona masculinidade em livros delicados – 10/04/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

O mineiro Leonardo Piana, de 33 anos, diz ter dificuldade de definir o que seria seu “projeto literário” —se é que ele tem um. Quando encontra as palavras, elas chegam juntas e em choque: masculinidade e delicadeza.

Apesar da indecisão do responsável, para seus leitores essa resposta pode parecer até um tanto óbvia, já que o tema está na raiz dos três livros que ele lançou nos últimos anos.

Em “Sismógrafo”, seu romance de estreia de 2022, o protagonista Eduardo se descreve uma vez que um menino cujos “gestos duros e súbito muito delicados” eram repreendidos pelo pai. Ele se sente um “menino de peta” diante dos “meninos de verdade” da escola, agressivos e seguros de si.

“A glória da noite dos homens é esta: eu não era, nunca fui uma vez que eles. Deitado no pavimento, a descrença na puerícia, minha desgraça: eu não era mesmo zero”, diz o personagem.

No livro, acompanhamos Eduardo adulto de volta a Andradas, cidade onde cresceu e da qual sempre quis fugir. Mais que um cenário para a história, a pequena cidade do interno de Minas também molda o protagonista, ensinando uma timidez da qual ele não consegue se desprender.

E o libido de fuga, planejado desde garoto sobre um mapa-múndi no tapete da sala, convive com a atração irresistível pelo que ficou: uma curta e interrompida história de paixão com Tomás, seu colega de escola. Com o romance, Piana foi finalista do Jabuti e venceu o Prêmio Cidade de Belo Horizonte.

O responsável conta ter sido surpreendido pelo alcance da obra. “Por identificação ou alteridade, os leitores viam no livro pessoas com quem elas cresceram, seus familiares, representados na voz daquele menino, se apaixonando e sofrendo as consequências dessa paixão. Aquilo tocou as pessoas de uma maneira que eu não imaginei.”

A obra, que estava esgotada, ganha agora uma novidade edição pela Autêntica Contemporânea. Também será adaptada para o cinema pela produtora Filmes de Plástico, com direção de Pedro Gonçalves Ribeiro.

Mais que o tema da masculinidade, Piana também diz querer ser um “noticiarista do libido”. No “Sismógrafo”, tudo que murado Eduardo convoca Tomás: o cheiro da piscina, o sabonete líquido da escola, “a respiração ritmada do corpo dele antes de dormir”.

O paixão não está unicamente em momentos de intensidade, mas nas coisas mais banais e físicas —no envolvente, no toque, nos cheiros. Para isso, Piana procura trabalhar com uma linguagem na fronteira entre a prosa e a trova.

Essa porosidade fica mais evidente em “Escalar Cansa”, de 2025, seu livro de trova que também tem uma estrutura narrativa. Nele, Piana secção da história grega de Aquiles e Pátroclo, companheiros separados pelo homicídio de um deles em guerra.

Trabalhando os sentimentos dos dois personagens, o noticiarista traz versos sobre paixão, luto, família e, mais uma vez, viver o afeto à margem da sociedade. O livro foi publicado depois vencer o Prêmio Sesc de Literatura.

Já seu segundo romance, “Tarde no Planeta”, também do ano pretérito, mostra um jovem convicto de que o mundo está prestes a findar. A crise climática entra pela janela —o queimada que arde nas florestas, a temperatura que sobe, os pequenos sinais do apocalipse que o garoto não consegue ignorar.

A mudança climática, no entanto, está longe de ser seu tema principal. O livro propõe uma relação entre a vida íntima e o envolvente, explorando o que a crise do clima representa nas crises afetivas. O resultado é um livro quente, no sentido mais literal. A natureza novamente não é tecido de fundo, constrói também os personagens.

Com o romance, Piana venceu de novo o prêmio Cidade de Belo Horizonte. As premiações de seus livros, ele diz, até abriram espaço num mercado editorial difícil uma vez que o brasiliano, mas o que ajuda mesmo é seu serviço uma vez que servidor público. “É isso que garante que eu possa continuar escrevendo, tomando os meus riscos, porque eu não dependo de que um livro vá muito para ter o meu sustento.”

Aliás, ele já trabalha em seu terceiro romance. A obra deve colocar em cena uma relação violenta entre dois homens migrantes, num diálogo direto com a obra de James Baldwin —referência que o acompanha desde “Sismógrafo”, em que uma título do noticiarista americano dá o tom logo de saída, tratando da consciência de ser observado e do pavor que vem desse olhar público.

Baldwin, diz ele, é uma influência da qual não consegue evadir. “Mesmo quando eu tento me distanciar, eu acabo me aproximando.”

Nos dois romances de Piana há outro tema médio: a relação entre mãe e rebento, coisa que o responsável não menciona ao ser questionado sobre os pontos que guiam sua literatura.

Em “Sismógrafo”, Eduardo quer ser o melhor rebento verosímil, proferir “mamãe, eu te senhor”, mas não consegue. Já desenvolvido, entende que “mesmo o melhor rebento verosímil nunca bastaria”. Já em “Tarde no Planeta”, a tensão entre mãe e rebento graduação até quase culminar numa tragédia flamejante. O lar, nos dois livros, é um espaço de vigilância emocional, culpa e silêncio.

“Quando eu estava escrevendo ‘Tarde’, essa relação era tão importante que tomava a frente. E fiquei me perguntando por quê. Achei que depois de ‘Sismógrafo’ minhas questões com minha mãe estariam resolvidas. Mas vi que tudo que eu estava escrevendo tinha a ver com ela. Eu nunca vou saber o que é ser mãe, mas sei exatamente o que é ser rebento da minha mãe”, diz o responsável.

Coincidência ou não, a relação com os pais é com frequência um fantasma para quem vive as masculidades à margem exploradas pelo noticiarista. Talvez esteja aí mais um elemento do tal projeto literário que Piana segue pensando em uma vez que definir.

Folha

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