Letrux lança novo disco 'SadSexySillySongs' 02/04/2026 Ilustrada

Letrux lança novo disco ‘SadSexySillySongs’ – 02/04/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Letícia Novaes —ou Letrux, uma vez que assina seus discos— nutriz ser surpreendida pelo que escreve em seus cadernos. “É muito bom ser testemunha da minha própria vida através das anotações”, diz, rindo. “Porque eu estou ficando sequelada, normal, perimenopausa, a mente… Quando leio alguma coisa e penso ‘eu escrevi isso!’ é uma sensação maravilhosa”.

Foi uma dessas ocasiões que disparou a geração de seu novo álbum, “SadSexySillySongs”, que reúne parcerias com artistas uma vez que Jadsa, Bruno Capinan e Mahmundi.

“Eu tenho mania de aliteração”, explica a cantora. “Sempre quando eu vou ortografar um poema, fico brincando com a mesma letra. E aí teve qualquer dia que eu fiquei fazendo S, S, S, ‘songs’, e aí tá lá, ‘sad’, ‘sexy’, ‘silly’, ainda tinha mais uma, ‘small songs’. Só que eu achei ‘too much’ também. Até porque tem música que é ‘small’, mas tem música que não é. Eu bati o olho nisso e falei: ‘Gente, isso é bom, isso é um título, isso é gostoso’”.

Letícia, logo, começou a estruturar um disco com quatro canções “sexy”, quatro “sad” e quatro “silly”, totalizando 12 faixas. Ou seja, o concepção virou método. O título encontrado no caderno passou a orientar escolhas e, talvez o mais importante, impor limites —motor criativo para ela. “Eu ficava apavorada na lição de redação quando era tema livre, isso não é comigo”, lembra. “Eu palato de jogo, palato que tenha uma regra”.

A partir desse ponto, as parcerias foram acionadas já com um setentrião evidente: “Eu chegava para as parcerias falando ‘vamos recrear com elementos sexy’, ou ‘quero fazer uma música triste’. A gente ficava: ‘tá pouco triste, vamos deixar mais triste’, ‘tá pouco histrião, vamos deixar mais histrião’. Brincamos”.

Já no término do processo, Letícia percebeu que o título também operava uma vez que síntese de um trajectória. “Esse título é um resumo do que Letrux foi até cá, porque o ‘Em Noite de Climão’ foi meio sexy, o ‘Aos Prantos’ foi triste e o ‘Porquê Mulher-Girafa’ foi meio silly, uma bobeira maravilhosa”, diz. “O quarto disco tem um título que brinca um pouco com as atmosferas que foram criadas nos outros trabalhos, um resumo. E, ao mesmo tempo, ele não é zero desses outros trabalhos, é uma coisa dissemelhante, novidade”.

Esse jogo —termo que ela repete ao longo da conversa— também ajudou a reorganizar composições de tempos distintos. Algumas canções atravessaram anos até encontrar seu lugar no disco. “Inveja Me Dá Insensível”, por exemplo, nasceu em 2005. “I Wrote this When I Was 22” carrega, no próprio título, a referência a outra tempo da vida. Já outras surgiram diretamente a partir do concepção. O resultado é um repertório que não esconde as camadas temporais, mas as acomoda dentro de um mesmo enquadramento, uma vez que se o disco funcionasse também uma vez que registo afetivo.

“SadSexySillySongs” reafirma também a centralidade da termo no trabalho da artista. “Eu tô cá pela letra”, diz um dos versos de “Sad, Sexy, Silly”, uma vez que uma enunciação de princípios. Sua trajetória ajuda a entender. Antes da música, vieram o teatro e a passagem pela faculdade de letras. “Quando eu chego na música, ficou muito evidente que eu não seria uma musicista, que eu era uma atriz escritora abordando a música com esse pretérito”, afirma. “A letra é onde eu mais perco noite, escrevo, apago, edito”.

Seus versos, ela nota, têm uma escrita direta, quase narrativa. “Eu não me acho muito metafórica. Se você for perceber, minhas músicas são quase literais. A pessoa lê uma vez que se fosse uma prosa”, diz. O efeito é uma aproximação imediata com quem escuta, uma sensação de conversa que ajuda a explicar a intensidade do vínculo que estabelece com o público —muitos fãs tatuam seus versos na pele.

“Eu fico muito abismada e muito feliz que uma piração, uma brisa minha está eternizada na pele de alguém”, diz a cantora. “Mas teve uma fã que tatuou não a letra, mas um QR Code para ouvir direto minha música se você indicar o celular. Eu achei uma loucura, mas fico muito feliz.”

Seguindo a poética de Letrux, muitas das imagens do disco partem de situações concretas. O emulação que vira indiferente físico, pedindo “um casaquinho”, em “Inveja Me Dá Insensível”. A cidade que guarda a memória de um ósculo em “Essa Cidade É Complicada”. A letra que se torna erotismo em “Escrita Tarada”. São versos ancorados no corpo, na linguagem cotidiana.

A música se organiza ao volta da termo. Depois de três álbuns marcados por arranjos mais exuberantes, Letrux buscou um movimento de redução. “Eu comecei a sonhar com um disco voz e violão, que é o princípio de quase tudo. Eu queria revisitar esse lugar”, afirma. A intenção inicial era depurar, secar. “Os outros discos são muito maxi. Tem uma hora que você não tem mais para onde ir. Logo a gente falou: vamos voltar rapidinho, só para se reorganizar”.

O caminho, no entanto, não foi de retorno puro. Ao longo do processo, o minimalismo foi sendo tensionado pelas próprias demandas das canções. As faixas “sexy”, por exemplo, acabaram pedindo batidas, mais camadas. “A gente tinha essa regra do jogo, mas foi sentindo: ‘talvez as sexy não sejam só voz e violão’”, explica. O resultado é um disco que mantém a intenção de economia, mas não abre mão de variações de textura. Baixista da filarmónica desde “Em Noite de Climão”, Thiago Rebello pilotou a sonoridade do álbum uma vez que produtor.

As referências que pontuam as letras —o verso “I miss the comfort in being sad” de Kurt Cobain, um disco de João Gilberto que desperta sentimentos contraditórios— aparecem uma vez que presenças imagéticas, afetivas. “Não é sobre fazer uma música de Nirvana ou de João Gilberto. É o que essas pessoas representam na minha vida”, explica Letícia.

Essa lógica também se estende ao uso das línguas. Metade das faixas é em inglês, metade em português —uma partilha que não responde simplesmente a uma estratégia de mercado, mas ao próprio impulso da escrita. “Não é que eu fiz em português e traduzi. A inspiração já veio no inglês. Tem coisa que pede a língua”, diz a artista, sem deixar de reconhecer o alcance maior da língua inglesa e a relação crescente com públicos fora do Brasil.

“SadSexySillySongs” é, portanto, um ponto de inflexão. Ao mesmo tempo em que dialoga com os três discos anteriores —simbolicamente retomados no próprio título—, ele marca um fechamento e anuncia um reinício. “Acho que foi uma trilogia. Agora estou me reorganizando musicalmente, emocionalmente… E sabem as deusas o que será do porvir”, lança Letícia, sempre oportunidade à surpresa de uma provável apontamento que, revisitada amanhã, detonará o que virá.

Folha

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