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Livro ‘Chame o Ladrão’ conta dribles à censura na ditadura – 13/08/2026 – Ilustrada

O varão encarregado de proibir peças, filmes e canções em resguardo das tradições cristãs e da família brasileira escondia um pretérito pouco patível com a função.

Antônio Romero Lago, dirigente do Serviço de Exprobação e Diversões Públicas durante a ditadura militar, era na verdade Hermelindo Ramírez Godoy, um celerado fugido. Em 1944, matou duas pessoas no interno do Rio Grande do Sul. Depois mudou de nome, obteve documentos falsos e fez curso no serviço público até chegar ao comando da increpação.

A história é uma das reunidas pelo noticiarista e cineasta Miguel de Almeida em “Chame o Ladrão”, livro em que percorre os anos da ditadura em procura das maneiras encontradas por artistas para enfrentar ou contornar os censores.

Almeida diz ter começado a pesquisa de três anos ao perceber que os relatos sobre o período privilegiavam um tipo específico de enfrentamento. “A história da increpação sempre tinha um tom muito guerreiro e amargo”, afirma. “Mas havia uma resistência que não tinha sido contada, que se dava às costas dos generais, na barba da increpação.”

Eram truques e espertezas, muitas vezes bem-humorados, mas que envolviam risco real para quem desafiava as forças de repressão.

A increpação estava longe de funcionar porquê um conjunto uniforme. Nos anos 1980, Solange Hernandez comandava um departamento com 279 funcionários, 87 deles em Brasília e os demais distribuídos por escritórios regionais. De 1981 a 1984, murado de 2.500 canções foram interditadas na sua gestão.

Uma das histórias levantadas por Almeida envolve “Pra Frente, Brasil”, filme de Roberto Farias lançado em 1982, quadra em que Solange reinava na increpação. O longa acompanha um varão geral recluso por miragem, torturado e morto por agentes da repressão.

A obra havia sido financiada pela Embrafilme, estatal de incentivo ao cinema. Quando ficou pronta, porém, Solange proibiu sua exibição. Uma secção do Estado financiava o filme enquanto outra tentava impedir que chegasse ao público.

Farias procurou Coriolano Fagundes, funcionário da increpação que conhecia desde a quadra em que presidira a Embrafilme. Ao examinar o processo, Fagundes descobriu que Solange havia retirado da pasta os pareceres favoráveis à liberação do filme e deixado exclusivamente uma revelação contrária.

O filme acabou liberado sem cortes e Solange não foi punida pela manobra. Almeida diz que esses bastidores eram desconhecidos até por pessoas que haviam trabalhado no filme.

Coriolano Fagundes acabou se tornando o próximo dirigente da increpação. Almeida, que o entrevistou quando ocupava o função, o descreve porquê mais prestes e liberal que outros funcionários. “Ele não concordava com esse tipo de increpação que era feita por idiossincrasia pessoal.”

As decisões variavam tanto de um funcionário para outro que os artistas aprenderam a explorar isso, porquê ilustra uma história que ficou de fora do livro.

Martinho da Vila teve “Disritmia” vetada porque a letra continha a vocábulo “porre”. Foi a Brasília discutir a decisão e ouviu de um censor que o governo não permitiria canções que incentivassem o consumo de álcool.

O funcionário mostrou ao compositor uma lista de palavras proibidas. Martinho leu a relação e percebeu que “porre” não estava nela. “Disse: ‘Fulano, aí não tem a vocábulo porre’. O face olhou de novo e falou: ‘É mesmo’. E a música foi liberada”, conta Almeida.

Outros artistas desenvolveram métodos próprios. Chico Buarque já estava tão marcado pelos censores que criou o compositor hipotético Julinho da Adelaide e passou a apresentar músicas sob o pseudônimo.

Uma delas foi “Acorda Paixão”, gravada em 1974. Diante da chegada da polícia, o eu lírico prefere que sejam criminosos comuns invadindo sua lar e grita no refrão: ‘Chame o ladrão’. Daí vem o título do livro.

Odair José encontrou outra saída. Quando uma constituição era proibida, alterava o título, a primeira frase ou algumas palavras e a apresentava novamente. Porquê a novidade versão quase sempre caía nas mãos de outro censor, muitas vezes conseguia a liberação.

Para Almeida, Odair também mostra que nem todo artista que driblava a increpação praticava uma resistência política. “Ele era convicto da resguardo da obra dele. Simples que era contra a ditadura, mas não tinha uma posição ideologicamente clara porquê a do Chico ou do Taiguara, do Vandré.”

“Eu Vou Tirar Você desse Lugar”, por exemplo, conta a história de um varão enamorado por uma prostituta. Odair foi chamado para explicar quem pretendia “tirar daquele lugar” e perguntaram se seria o presidente da República. “Ele falou: ‘Não, é uma puta’. Opa, aí piorou.”

Na literatura, um dos dribles nasceu de uma dificuldade mais rudimentar. Proibir um livro era mais fácil do que recolhê-lo. Ignácio de Loyola Brandão contou a Almeida que via exemplares interditados nas livrarias, porque o governo não dispunha nem de veículos suficientes para buscá-los. “O coche que eles tinham era para prender gente”, resumiu o noticiarista.

Escritores porquê Brandão, Antônio Torres e João Antonio passaram a viajar pelo país para participar de encontros literários. Segundo Almeida, algumas reuniões atraíam até 3.000 pessoas e saíam das universidades para igrejas e estacionamentos.

Eles não falavam exclusivamente de literatura: levavam informações que haviam sido censuradas nos jornais. “Ficavam dando notícia”, diz Almeida. “Eram porquê aqueles cantadores medievais que andavam de localidade em localidade” contando o que acontecia.

“Chame o Ladrão” chega ao término da ditadura, mas não ao término das proibições. Em 1986, já durante o governo social de José Sarney, o presidente proibiu “Je Vous Salue, Marie”, de Jean-Luc Godard.

Segundo a história recuperada por Almeida, a mãe de Sarney pressionara o fruto contra a liberação. “Zé, se você liberar esse filme, você não entra mais cá em lar”, teria dito.

O presidente apresentou a proibição porquê se tivesse sido pedida pela Igreja Católica, mas, segundo Almeida, os bispos não haviam pedido a increpação. “Dom Paulo Evaristo Arns declarou que quem quisesse observar ao filme deveria fazê-lo e quem não quisesse não deveria.”

Àquela fundura, cópias piratas já circulavam pelo país. Na redação da Ilustrada, da Folha, surgiu a teoria de exibir publicamente o filme dentro do próprio jornal. Almeida trabalhava na Ilustrada e afirma que a iniciativa recebeu suporte totalidade da direção, “a debutar pelo seu [Octavio] Frias, depois pelo Otavio [Frias Filho]”.

O logo editor telefonou para artistas e intelectuais, entre eles Maria Bonomi e Júlio Medaglia, convidando-os a comparecer. Ninguém sabia se a polícia apareceria para impedir a sessão. Não apareceu.

“Houve até uma certa frustração”, diverte-se Almeida. “Imagina a foto maravilhosa que ia ser essas personalidades incríveis entrando no camburão.”

Para ele, a sessão tinha um significado privado depois de duas décadas em que a prensa havia sido censurada e jornalistas, perseguidos e presos. “Foi o grande troco da prensa em cima dos militares”, afirma.

A proibição de Sarney permaneceu de pé por dois anos e meio. O país, porém, já havia reaprendido a transgredir.

Folha

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