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Livro de Bernardo Carvalho questiona identidade e consenso 23/10/2026
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Livro de Bernardo Carvalho questiona identidade e consenso – 23/10/2026 – Ilustrada

Com “Xilocosmos”, seu novo e breve romance, Bernardo Roble se debruça sobre o funcionamento traiçoeiro da memória e a natureza não menos insidiosa da identidade —ao mesmo tempo, uma utensílio importante da luta política das minorias e uma embuste cega por trás do pior da história.

Para isso, o colunista da Folha constrói uma narrativa em ritmo de sonho, com uma prosa marcada pela incerteza que remete ao Alzheimer, evocado no livro uma vez que símbolo de uma consciência aprisionada, que suspeita que há mais coisas acontecendo do que ela pode compreender.

Na trama, o narrador recebe um email de Ana Maria, sua antiga colega de classe da sexta série da escola. Ela o convida a grafar o libreto de uma opereta que ela compõe a partir do único romance do ilustrador Alfred Kubin, “O Outro Lado” —também chamado por seu responsável de “A Cidade do Sonho”— e de uma história contada pelo xilogravador brasílio Oswaldo Goeldi em uma epístola ao austríaco.

Na mensagem, Goeldi lembra a violência contra uma mulher escravizada que, depois, amaldiçoa um varão e seus descendentes e os condena a perder o domínio da linguagem.

Para Ana Maria, a história de Kubin sobre um protagonista jogado em um domínio onírico, em um sonho compartilhado por várias pessoas, remetia a um tipo de alucinação coletiva que acomete a todos em certos momentos da história.

É o que os deixa “acreditando que lutamos contra a vexação, pela liberdade, pelo outro, e, no fundo, lutando pelo mesmo, pelo que já conhecemos”, uma vez que ela diz. Isso, para Bernardo Roble, também é o mal do mundo hoje.

“A gente vive nesse consenso que é o capitalismo, ou mercado, ou o que seja, sem conseguir olhar de fora. Acho que o Alzheimer, ou a demência, é uma imagem potente uma vez que metáfora histórica para esse aprisionamento que tenho a sensação de que a gente vive”, diz o redactor.

“Não tem sátira porque não tem intervalo, não tem exterior. A gente nunca conheceu outra coisa e acha que não pode possuir outra coisa.”

O contato com a antiga colega faz o narrador relembrar os anos de escola —na idade em que estudou com Ana Maria, sua classe foi desfeita em seguida um incidente envolvendo Dulce, rapariga negra da mesma sala.

Tentando desvendar que incidente foi esse, que ficou na sua memória uma vez que um roubo de natureza desconhecida, ele revisita lembranças uma vez que o cotidiano escolar, seu interesse pelo professor de matemática, sua paixonite pelo irmão de Ana Maria e o emulação pela amizade entre ela e Dulce.

A narrativa de procura na memória logo se encaminha para uma investigação. O protagonista passa a visitar pessoas que podem saber um pouco sobre o que aconteceu no ano daquela separação e sua relação com o invitação de Ana. Os encontros, no entanto, preenchem poucas lacunas, e o que surge de novo só levanta mais questões.

Ao longo da história, uma a uma, as lembranças se mostram traiçoeiras. Zero é uma vez que o narrador imaginava ter sido quando párvulo, e ele ignora, por equívoco ou estratégia, acontecimentos fundamentais para entender o pretérito que volta à tona.

Em estreita costura com isso tudo está a questão da identidade, ao mesmo tempo vista uma vez que instrumento de união, resistência política, fortalecimento dos oprimidos —e uma vez que uma ficção perigosa que joga o mito contra a verdade. Ao longo do livro, os personagens inspecionam o significado dessa teoria e enfrentam suas consequências.

“Alemanha e Israel, duas mitologias totêmicas, duas nações que idealizaram a origem contra o presente, que jogaram o mito contra a história, com as consequências que todos conhecemos”, reflete o narrador em certa passagem, ao comentar a presença de bandeiras israelenses em uma revelação em Berlim.

O tema é uma fixação de Roble, pelo menos desde “Anomalia”, coletânea de contos de 1993, com personagens que buscavam suas origens. “É uma preocupação minha com a teoria do que é ser alguém”, afirma.

O redactor compara o funcionamento de grande secção da literatura de hoje com o da internet, que prometia ser uma janela para o mundo, mas, em peculiar com as redes sociais, se tornou um espelho que devolve às pessoas o que elas já conhecem e esperam ouvir.

Na literatura comprometida com as lutas das minorias, isso aparece uma vez que um estilo engajado, que troca a incerteza pelas convicções. “De um notório ponto, isso tem uma função política importante, porque empodera —uma vez que se diz hoje— pessoas que são massacradas. É uma estratégia, uma vez que se fosse uma armadura”, diz.

“Mas, para a literatura, pelo menos a da qual eu palato, isso é uma vez que interromper uma frase no meio. Você deixa de ir a fundo em questões e reduz a literatura a uma ilustração de teses prévias, já deglutidas e domesticadas na sociedade.”

E o que está aliás, para ele, é o que ele labareda de singularidade, a possibilidade de romper com o consenso para transfixar espaço à diferença —um pouco ilustre do individualismo, um dos consensos que vigoram hoje em dia.

Roble diz crer que valorizar a singularidade é uma forma de enfrentar uma teoria de pertencimento que depende de as pessoas abrirem mão do que as faz diferentes para se adequar às ideias e ao comportamento de um grupo, seja majoritário ou minoritário.

“Eu faço uma sátira do pertencimento, que é, na verdade, um preconização do que não pertence”, diz. “De prestar atenção no que não se encaixa, no patinho mal-parecido.”

O redactor acredita que seu posicionamento em prol de uma literatura da incerteza não é uma oposição às lutas políticas das minorias. “É bom frisar que tem uma diferença entre o que eu penso na literatura e o que eu penso na sociedade. As lutas identitárias são fundamentais. Eu sou gay, se não fosse isso, a minha vida seria um inferno”, afirma.

“Mas quando chega na literatura, eu quero ir aliás. Não adianta zero repetir o que eu já sei, quando eu tenho na mão um instrumento de experimentação com que eu posso chegar a lugares desconhecidos, que podem ser desagradáveis, mas são mais interessantes e me parecem mais verdadeiros.”

Folha

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